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O Brasileiro do Século

EDITORIAL
Vox Populi

"Não sei se mereço a condecoração. Mas aplaudo o fato de estarmos incentivando as pessoas a fazerem opções. Não temos essa tradição." A manifestação é de Arlette Pinheiro Esteves da Silva, 69 anos, ou Fernanda Montenegro, para quem não sabe. Ela alcançou a marca de 92,2% dos votos enviados pelos leitores de ISTOÉ para a escolha do Brasileiro do Século em Artes Cênicas. Dona de um vasto coração suburbano (criada num tempo em que os subúrbios tinham cabras e vacas em vez de fuzis e barracos pendurados no abismo), faz questão de lembrar especialmente de uma dama chamada Dulcina de Moraes. "Sei que, em função da indicação ao Oscar, estou exposta na mídia e, por isso, o leitor de ISTOÉ me deu essa honra. Mas Dulcina foi quem instituiu a segunda-feira de descanso para a classe artística e lutou para que as atrizes não precisassem carregar a carteira de prostituta na bolsa. Estou com essa mulher."

A eleição dos brasileiros do século não é uma gincana. É, antes de tudo, uma homenagem. Arlette entendeu perfeitamente e, generosa, estendeu o reconhecimento às que vieram antes dela. O fato de Ayrton Senna, Chico Buarque e, agora, Arlette saírem vencedores em suas categorias obedece a um critério simples e óbvio: se é necessário estabelecer uma ordem de importância, sigamos a voz popular. Outra opção seria ouvir apenas "iluminados" que se apresentam como porta-vozes dos interesses do povo, ou da humanidade, ou da cultura verdadeiramente séria e universal. Mas como, se são eles os primeiros a riscar do mapa toda e qualquer manifestação que vem de baixo? É preciso fazer escolhas sem remorsos ou rabugices. Arlette, nós estamos com você.


NOTA DA REDAÇÃO: Ariano Suassuna pediu em fax que seu nome fosse excluído da lista de homenageados. "Em eleição semelhante, vi John Lennon ser escolhido o artista do milênio, como se fosse maior que Homero, Cervantes, Goya, Dostoievski, Mozart, etc. No caso da lista de ISTOÉ, os absurdos são menores. Mas não posso aceitar que Villa-Lobos não seja considerado, de muito longe, o maior músico brasileiro do século 20."