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7) Dias Gomes
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Nascer na rua
do Bom Gosto é por si só um privilégio. "Talvez
seja uma predestinação artística, embora alguém
de muito mau gosto tenha trocado o nome para João das Botas",
disse Dias Gomes a ISTOÉ. "Era, na época, uma
rua bucólica de Salvador, onde o bonde rangia nos trilhos.
Em frente ao sobrado onde morávamos, havia um bosque em que,
nas noites de sexta-feira, costumavam aparecer lobisomens, muita
gente viu. Eu mesmo vi alguns", jura o autor da novela Saramandaia.
Não se sabe ao certo se foi um fantasma ou alguma alma
penada que inspirou o garoto imaginativo a cometer com apenas dez
anos de idade as duas primeiras peças de teatro, que ele
hoje considera meras brincadeiras infantis. Dessa época são
também as improvisadas encenações feitas no
fundo do quintal da casa de tia Mariazinha, com os sete primos,
nas reuniões de família, aos domingos. Aos 15 anos
de idade, além de espinhas no rosto, surgiu A comédia
dos moralistas, que lhe rendeu o primeiro prêmio, num
concurso patrocinado pela União Nacional dos Estudantes (UNE).
Mas nunca foi encenada, graças a Deus, segundo Dias Gomes.
"Há um anjo que protege os autores estreantes."
Alfredo de Freitas
Dias Gomes (nascido a 19 de outubro de 1922) tinha já naquela
época um "rapaz revoltado" dentro de si. Desde
os 12 anos, vivia com a família no Rio de Janeiro. Embora
ansioso por colocar em suas primeiras peças essa "rebeldia
inata", era apenas um "contestador sem rumo nem ideologia",
como ele próprio reconhece. Mas já brigava do lado
certo, com certeza, confiando na intuição. A consciência
política veio depois, por ironia, graças à
ação da censura, que proibiu Pé de cabra.
Para os censores tratava-se de uma peça de inspiração
marxista. "Eu tinha 19 anos e ainda era capaz de confundir
Karl Marx com os irmãos Marx."
Se o moço
não era um perigoso subversivo, não dá para
negar que frequentava as rodas de boemia, onde conheceu José
Wanderley, parceiro de Mário Lago em inúmeras comédias.
Mais velho e mais malandro, Wanderley ensinou a Dias Gomes os caminhos
da noite. Certa vez, convidou-o para escrever uma revista. O jovem
autor tinha certo preconceito contra o gênero, politizado
que era, mas estava enamorado de uma cantora que, por coincidência,
pertencia à mesma companhia para a qual a peça seria
escrita. Era unir o útil ao agradável.
Com óbvias
segundas intenções, Dias tratou de pôr mãos
à obra. Findo o primeiro ato, botou o papel embaixo do braço
e, juntamente com o parceiro, levou o texto ao empresário.
"Pode começar a ensaiar, amanhã ou depois trazemos
o segundo ato", disse Wanderley ao empresário. Nas noites
seguintes, sempre que os dois se encontravam, num bar ou cabaré
da Lapa, Dias lembrava a Wanderley o compromisso de terminar a peça.
"A companhia já está ensaiando, a data da estréia
já está marcada", atormentava-se ele.
Porta trancada
"Cadê o segundo ato?", implorou o homem ao vê-los
entrar no teatro. Ao saber que tinham as mãos vazias, levou-os
até o escritório, mandou buscar cerveja, sanduíches
e, subitamente, saiu e trancou a porta. "Só vão
sair daí quando o texto estiver pronto, seus malandros."
O sol já entrava pela janela quando concluíram a última
cena. "Eram tempos de deliciosa irresponsabilidade."
A vida de boemia
acabou ao casar com Janete Clair (uma das autoras de novelas de
rádio e televisão de maior sucesso dos anos 60 e 70),
com quem teve três filhos - atualmente, está casado
com Bernardeth Lyzio, mãe das duas filhas caçulas
do dramaturgo. Entre os grandes êxitos de sua carreira, está
a peça O pagador de promessas, que inspirou o filme
de Anselmo Duarte, ganhador da Palma de Ouro do Festival Cannes,
em 1962. Na década de 70, quando a censura do regime militar
amordaçava praticamente todas as manifestações
artísticas, Dias Gomes abriu uma inesperada trincheira na
televisão com O Bem Amado, na Globo (primeira novela
gravada em cores do País), onde discutia a realidade política
do País.
Maravilhoso
canastrão
Entre os veículos para os quais deu sua contribuição,
o teatro é o preferido - "esse maravilhoso anacronismo,
como o chamou Orson Welles, aquele maravilhoso canastrão."
Em 1991, Dias Gomes tomou posse na Academia Brasileira de Letras.
"Há sempre um momento na vida em que é salutar
fazer uma extravagância para quebrar a monotonia. Respeito
a academia, o que me falta é vocação acadêmica",
penitencia-se.
VOCÊ
SABIA?
Apesar de escrever muito bem, o garoto Dias Gomes nunca foi bom
aluno. na verdade, ele detestava estudar. A disciplina que mais
lhe dava horror era Matemática. Quando o professor fazia
chamada oral, o menino tremia na base. Mas tinha uma estratégia
pronta: minutos antes de chegar a sua vez de ser sabatinado, corria
para o banheiro. Ali ficava o tempo necessário para acabar
a aula e a terrível provação. De alguns colégios
ele foi expulso por mau comportamento. Além de respondão,
não fazia a menor questão de frequentar as aulas que
considerava monótonas.
EM CENA
· O pagador de promessas (1960) teatro
· O santo inquérito (1964) teatro
· O bem amado (1973) novela
· Saramandaia (1976) novela
· Roque Santeiro (1985) novela
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