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O Brasileiro do Século

6) Oscarito
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O filme é Aí vem o barão (1951) e há um duelo de esgrima entre Oscarito e José Lewgoy. Numa das tomadas, Oscarito esquiva-se do rival, Lewgoy passa lépido como um touro e finca o florete na porta. Aí - está previsto no roteiro - ambos esquecem a briga e se esforçam para arrancar a arma encravada, um puxando o outro, com o humor sem pé nem cabeça típico das chanchadas dos anos 40 e 50. Só que os dois atores perdem o equilíbrio e despencam para trás. Oscarito, mais ágil, levanta ligeiro e pega o florete para afiá-lo na sola do sapato de Lewgoy, que ainda está de pernas para o ar. A cena é magistral e revela o inesgotável talento de improviso de um humorista que conhecia o gosto popular como ninguém. Oscarito era um tipo malandro e simplório, cujas piadas eram fagulhas que instauravam um estado de graça nas platéias. "É o maior gênio da comédia brasileira. Nunca houve nem haverá outro igual", afirma Lewgoy.

Sovaco de aleijado
Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepcion Teresa Dias nasceu em Málaga, na Espanha, em 16 de agosto de 1906. Poderia ser marroquino se viesse ao mundo dois diante antes - a família era de circo e estava em excursão no norte da África -, mas se considerava brasileiro. "Vim para cá com um ano de idade e sofri mais do que sovaco de aleijado. Podia ter nascido na China ou no pólo norte, mas sou brasileiro puro na batata", disse ele, ao conseguir naturalizar-se brasileiro, em 1949. O pai era alemão e a mãe, portuguesa. Tinha tios franceses, ingleses, espanhóis, italianos e dinamarqueses, com uma tradição de 400 anos de picadeiro. Oscarito debutou aos cinco anos no circo, vestido de índio numa adaptação de O Guarani, de José de Alencar. Exímio violinista (chegou a tocar em salas de projeção na época do cinema mudo), foi palhaço, trapezista, acrobata e até Poncio Pilatos na semana santa. Como galã, protegeu castas meninas de condes malvados em dramalhões sob a lona que faziam a platéia arfar o peito num tempo em que não havia novela de televisão.

Em 1932, Alfredo Breda, barbeiro de profissão e teatrólogo da praça Tiradentes, no Rio, convidou-o a satirizar o presidente Getúlio Vargas em Calma, Gegê. Era a época do teatro rebolado em que a sátira política era combinada com as exuberantes pernas das vedetes. A mistura era infalível. Desde a estréia no cinema, em Noites cariocas, de 1935, Oscarito ligou-se ao parceiro inseparável Grande Otelo, com quem faria dupla em 34 chanchadas do estúdio da Atlântida entre 1944 e 1962. Oscarito era um gênio da comédia e conhecia a mecânica do riso. Certa vez, pediu ao diretor Carlos Manga que alterasse a montagem de um filme. Entre uma piada e outra, para dar tempo ao público de recuperar-se, havia seis closes do rosto de figurantes. Oscarito achou pouco e pediu nove closes. Era o intervalo exato, constatou Manga quando o filme estreou. Nos anos 50, fazia três filmes por ano, incluindo gozações com sucessos de Hollywood, como, Matar ou correr, de Manga, paródia do bangue-bangue Matar ou morrer, de Fred Zinnemann. Colégio de brotos (1956) foi visto por 250 mil espectadores na primeira semana de exibição. "Esse homem é minha mina de ouro", dizia o dono da Atlântida, Luís Severiano Ribeiro.

Medo do fracasso
Após vê-lo imitando Rita Hayworth no clássico papel de Gilda, o humorista americano Bob Hope convidou Oscarito para filmar nos Estados Unidos, mas ele recusou - com medo do fracasso. "Não se dava conta da importância que tinha. Vivia com cinco contos de réis mensais, salário modestíssimo para a estrela que era. Eu próprio ganhei três contos de réis por Carnaval no fogo, de 1949, e não deu para viver um mês", relata o ator José Lewgoy. "Temente a Deus e ao imposto de renda", como dizia, não bebia e só passou a fumar após os 40 anos (pegou o vício ao representar um fumante inveterado). Casado com Margot Louro, de belíssimos olhos azuis e também de família circense, teve dois filhos. Certo dia, após abandonar a carreira artística, enquanto a família arrumava as malas para passar um fim de semana no sítio em Ibicuí (RJ), Oscarito tentou repetir na sala os passos de malandro que o haviam consagrado. Terminavam sempre com um pulinho com os dois pés para trás. "Acho que estou ficando velho e gordo", disse à mulher. Minutos depois, as pernas começaram a formigar e endurecer, antes de ele desmaiar. Um derrame cerebral o deixou em coma e o matou dez dias depois, em 4 de agosto de 1970. Ao pressentir o ocaso, ele havia decidido refugiar-se no sítio. "Qualquer dia eles vão me demolir como um prédio velho. Vou cuidar das galinhas e dos repolhos." Mas não perdeu a chance de fazer piada: "Como sabem, repolho é uma rosa que engordou e ficou verde de raiva."

VOCÊ SABIA?
Oscarito satirizava Getúlio Vargas. Raposa política, o presidente festejou o Ano Novo assistindo de camarote à imitação. O cômico passou a almoçar com Getúlio uma vez por ano no Palácio do Catete. Subia até Petrópolis para encontrar Gegê em sua residência de verão.

EM CENA
· Calma, Gegê (1932) teatro
· Carnaval no fogo (1949) cinema
· Aí vem o barão (1951) cinema
· Cupim (1953) teatro
· Matar ou correr (1954) cinema