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5) Nelson Rodrigues
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A vida foi cruel
com Nelson Rodrigues. Aos 17 anos, perdeu o irmão Roberto,
assassinado aos 21 anos. Dois meses depois da tragédia, morreu
o pai, Mário Rodrigues. Por causa da tuberculose, Nelson
internou-se diversas vezes. Uma úlcera lhe causava dores
terríveis e uma hemorragia intra-ocular o deixou parcialmente
cego. Joffre, o irmão mais novo, morreu vítima da
tuberculose, aos 21 anos. Perdeu o irmão Paulinho num desabamento.
O filho Nelsinho ficou preso durante sete anos durante o regime
militar. A filha Daniela nasceu cega, surda e muda.
Tarado
Todas as tragédias da vida ele transformou em peças
de teatro, contos, crônicas e romances. Machista, tarado,
reacionário. Chamem-no do que quer que seja, ele sempre será
o pai da moderna dramaturgia brasileira. Abriu caminho para o uso
coloquial da língua e inovações na temática
dos textos teatrais. Colocou no palco, pela primeira vez, a vida
cotidiana do subúrbio carioca. A obra é vasta: escreveu
17 peças, centenas de contos e nove romances. Além
disso, fanático torcedor do Fluminense, foi um dos maiores
cronistas esportivos de todos os tempos.
Quando Nelson
Rodrigues tinha três anos, a mãe, dona Maria Esther,
recebeu em casa uma vizinha enfurecida: "Este seu filho Nelson
é um tarado! Peguei-o tentando beijar minha filhinha!"
Nelson não sabia, mas ainda seria chamado de tarado centenas
de vezes. Como jornalista, trabalhou em todos os grandes jornais
do Rio. Impressionava pela capacidade de criar histórias
fantásticas sobre os fatos mais corriqueiros. Simples atropelamentos
viravam assassinatos passionais e coisas do gênero. Começou
cedo. Aos 13 anos e meio já era repórter policial
do jornal A Crítica, que o pai fundou no Rio logo
que chegou do Recife, em 1915, onde Nelson nasceu, em 23 de agosto
de 1912.
Rebeldia
Na Aldeia Campista, subúrbio carioca, o garoto não
levava uma vida como a dos outros de sua idade. Passava horas observando
a movimentação dos vizinhos para saber quem eram os
adúlteros. O dinheiro que ganhava na redação
ele gastava nos prostíbulos da região do Mangue. Embora
fosse notavelmente inteligente, foi expulso do colégio na
segunda série do ginásio. A alegação
dos diretores: rebeldia. Nelson não passava uma aula sequer
sem questionar os professores e dava opinião sobre tudo o
que ensinavam. Ele seria assim até o fim da vida. Inquieto,
questionador, irreverente.
Anjo pornográfico
Escrevia como um louco. Chegava sempre atrasado na redação,
mas bastava sentar à máquina de escrever para em poucos
minutos produzir os folhetins que ruborizavam as donas de casa das
décadas de 40 e 50. A revolucionária peça Vestido
de noiva, de 1943, ele fez em seis dias. Depois do sucesso da
montagem de Ziembinski, mentia que levara meses trabalhando em cima
do texto. Talvez porque, se dissesse a verdade, ninguém acreditaria.
Para alguns,
um conservador asqueroso que o Brasil deveria colocar no paredão
de fuzilamento; para outros, simplesmente um gênio. Além
das obras escandalosas, o escritor ainda dava declarações
do tipo "mulher tem que ser burra", "adoro visitar
cemitérios" e "nem toda a mulher gosta de apanhar,
só as normais". É verdade que jamais bateria
em alguém. Porém, logo que casou com Elza - escondido
dos pais dela, que também o consideravam um depravado -,
em 1940, pediu que ela deixasse de ser secretária para ficar
cuidando da casa. Embora tivesse várias amantes, foi um marido
dedicado, até a separação, 22 anos depois.
Só não trocava nenhum Fla-Flu no Maracanã pelos
programas familiares de domingo.
Nelson morreu
em 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos, depois de sobreviver a sete
paradas cardíacas. Sucumbiu a uma trombose e à insuficiência
respiratória e circulatória. "Nasci menino, hei
de morrer menino. E o buraco da fechadura, é realmente, minha
ótica ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico."
VOCÊ
SABIA?
Era parcialmente cego e tinha dificuldade para ver da tribuna do
Maracanã o que acontecia dentro de campo. Era tricolor roxo,
mas às vezes torcia por engano para o Flamengo. Se perguntavam
sua opinião sobre o jogo, pedia ajuda ao amigo Armando Nogueira:
"E aí, Armando, o que nós achamos do jogo?"
EM CENA *
· Vestido de noiva (1943)
· A falecida (1953)
· Os sete gatinhos (1958)
· Boca de ouro (1959)
· Beijo no asfalto (1960)
· Toda nudez será castigada (1965)
(*) peças de teatro
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