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4) Marília Pêra
63,1%
dos votos
Era uma menina
que adorava empastelar os cabelos das bonecas com massa de batom,
ruge e pó-de-arroz. Vivia nos camarins do teatro e admirava
o brilho das roupas e o perfume das atrizes. Dormia em trapos esticados
no chão e, às vezes, mesmo sem sono, deitava só
para olhar o céu do palco, as cordas, os refletores, as varandas
do cenário. Filha, neta e sobrinha de atores, Marília
Pêra cresceu espiando da coxia os clássicos do teatro
universal interpretados por celebridades como Procópio
Ferreira e Dulcina de Moraes (a grande diva do teatro nacional
na primeira metade do século). Estava ainda na barriga da
mãe-atriz quando participou da primeira encenação.
Mas a estréia de verdade aconteceu quando tinha apenas 19
dias, embrulhada numa cesta, interpretando o único papel
que lhe cabia: um bebê. Com as próprias pernas, subiu
ao palco pela primeira vez aos cinco anos de idade para interpretar
a filha de Medéia. "Lembro perfeitamente que estava
gelada e as pernas tremiam. Não tanto pela estréia,
e sim pela história que era uma tragédia, em que era
envenenada pela própria mãe", lembrou Marília
a ISTOÉ. Certa vez, alguém apertou o braço
que ela havia machucado e estava inchado e muito dolorido. A menina
gemeu e perdeu a fala em cena. Henriete Morineau, atriz nascida
na França e radicada no Brasil, alta, esbelta e de voz grave,
que encarnava Medéia, não perdoou. Quando as cortinas
se fecharam, chamou a garota num canto e ralhou: "Uma atriz
morre, mas cumpre o seu dever."
Melancolia
portuguesa
Marília Pêra da Graça Mello (carioca nascida
em 22 de janeiro de 1943) cresceu ouvindo lições severas,
o que explica o apreço que ela tem pela disciplina. Hoje,
chega ao teatro três horas antes do início do espetáculo
e confere se está tudo em ordem, desde cenário, figurino
e luz até o banheiro reservado ao público. O rigor
de Marília vem principalmente do pai, Manoel Pêra (falecido
em 1967, aos 74 anos), português radicado no Brasil. Ator
talentoso, sobreviveu à custa de muito sacrifício
fazendo papéis secundários ao lado da mulher, a atriz
Dinorah Marzullo. A família Pêra morava no pé
do morro do Querosene, na zona norte do Rio. Quando Marília
saltava do lotação, vinda da aula de piano ou balé,
o pai a esperava com um revólver 38 na cintura para que chegasse
sã e salva. Marília era uma criança introspectiva
e triste. "Herdei uma melancolia portuguesa de papai",
diz. Numa excursão a Portugal, na praia de Cascais, os pais
não deixaram Marília descer a ribanceira até
chegar à beira do mar. Ela queria pegar conchinhas na areia
e escreveu com o dedo na poeira do ônibus: "Tenho só
oito anos e sou muito infeliz." Tinha pressa de virar atriz
de verdade. Aos 15, convenceu o pai a deixá-la dançar
em De Cabral a JK, uma "revista familiar" (não
tinha palavrão e as vedetes usavam maiô, não
biquíni) de Max Nunes. Lá conheceu Paulo Graça
Mello (falecido num desastre de automóvel em 1969), o primeiro
homem que a beijou e com quem casou, aos 17 anos. Virgem.
Bailarina
de circo
O casal fazia três ou quatro sessões do circo Thiany,
à tarde. Ele tocava frigideira numa orquestra improvisada
e ela dançava em torno de uma moça que ia ser serrada
num truque de mágica. À noite, eles suavam na boate
Plaza, em Copacabana, no musical Sherazade. Convidado a excursionar
com Society em babydoll, Paulo impôs a condição
de só viajar se a mulher o acompanhasse. Na véspera
do embarque para Salvador, aconteceu um imprevisto: a vedete torceu
o pé. Houve remanejamento de papéis e sobrou vaga
para Marília interpretar uma moça ingênua. Estava
com cinco meses de gravidez, mas mentiu que eram só dois.
Após o parto, excursionaram durante sis meses em Portugal,
morando em pensões, fazendo sopinhas em fogareiros de álcool
e secando fraldas com ferro de passar roupa. Na volta, o casamento
estava em frangalhos. "O amor não aguenta tanta provação."
Em 1969, ganhou
o primeiro Molière com Fala baixo senão eu grito,
de Leilah Assunção. No ano seguinte, ficou mais popular
ao ser contratada pela rede Globo. Em 1981, recebeu o prêmio
de melhor atriz da Associação dos Críticos
americanos por sua performance no filme Pixote, de Hector Babenco.
Ela ri quando sua história sugere um vale de lágrimas.
"Pára de falar na infância senão eu vou
chorar", brincava o ex-marido Nélson Motta. "A
infância foi um longo aprendizado que me permite hoje ser
muito feliz, apesar das agruras e dos males do mundo", conclui
Marília.
VOCÊ
SABIA?
Em 1964, derrotou Elis Regina num teste para o musical Como vencer
na vida sem fazer força. Logo depois começou a
flertar com o jornalista e compositor Nelson Motta, que mal terminara
um namoro com a cantora. Para piorar, Nelson convidou Marília
para assistir ao show de Elis. Sentaram na primeira fila. Elis cantou
olhando todo o tempo para eles. No dia seguinte, telefonou: "Tens
notícia do meu homem?"
EM CENA
· Medéia (aos cinco anos) (1948) teatro
· Apareceu a Margarida (1973) teatro
· Bandeira 2 (1972) novela
· Pixote, a lei do mais fraco (1979) cinema
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