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O Brasileiro do Século

4) Marília Pêra
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Era uma menina que adorava empastelar os cabelos das bonecas com massa de batom, ruge e pó-de-arroz. Vivia nos camarins do teatro e admirava o brilho das roupas e o perfume das atrizes. Dormia em trapos esticados no chão e, às vezes, mesmo sem sono, deitava só para olhar o céu do palco, as cordas, os refletores, as varandas do cenário. Filha, neta e sobrinha de atores, Marília Pêra cresceu espiando da coxia os clássicos do teatro universal interpretados por celebridades como Procópio Ferreira e Dulcina de Moraes (a grande diva do teatro nacional na primeira metade do século). Estava ainda na barriga da mãe-atriz quando participou da primeira encenação. Mas a estréia de verdade aconteceu quando tinha apenas 19 dias, embrulhada numa cesta, interpretando o único papel que lhe cabia: um bebê. Com as próprias pernas, subiu ao palco pela primeira vez aos cinco anos de idade para interpretar a filha de Medéia. "Lembro perfeitamente que estava gelada e as pernas tremiam. Não tanto pela estréia, e sim pela história que era uma tragédia, em que era envenenada pela própria mãe", lembrou Marília a ISTOÉ. Certa vez, alguém apertou o braço que ela havia machucado e estava inchado e muito dolorido. A menina gemeu e perdeu a fala em cena. Henriete Morineau, atriz nascida na França e radicada no Brasil, alta, esbelta e de voz grave, que encarnava Medéia, não perdoou. Quando as cortinas se fecharam, chamou a garota num canto e ralhou: "Uma atriz morre, mas cumpre o seu dever."

Melancolia portuguesa
Marília Pêra da Graça Mello (carioca nascida em 22 de janeiro de 1943) cresceu ouvindo lições severas, o que explica o apreço que ela tem pela disciplina. Hoje, chega ao teatro três horas antes do início do espetáculo e confere se está tudo em ordem, desde cenário, figurino e luz até o banheiro reservado ao público. O rigor de Marília vem principalmente do pai, Manoel Pêra (falecido em 1967, aos 74 anos), português radicado no Brasil. Ator talentoso, sobreviveu à custa de muito sacrifício fazendo papéis secundários ao lado da mulher, a atriz Dinorah Marzullo. A família Pêra morava no pé do morro do Querosene, na zona norte do Rio. Quando Marília saltava do lotação, vinda da aula de piano ou balé, o pai a esperava com um revólver 38 na cintura para que chegasse sã e salva. Marília era uma criança introspectiva e triste. "Herdei uma melancolia portuguesa de papai", diz. Numa excursão a Portugal, na praia de Cascais, os pais não deixaram Marília descer a ribanceira até chegar à beira do mar. Ela queria pegar conchinhas na areia e escreveu com o dedo na poeira do ônibus: "Tenho só oito anos e sou muito infeliz." Tinha pressa de virar atriz de verdade. Aos 15, convenceu o pai a deixá-la dançar em De Cabral a JK, uma "revista familiar" (não tinha palavrão e as vedetes usavam maiô, não biquíni) de Max Nunes. Lá conheceu Paulo Graça Mello (falecido num desastre de automóvel em 1969), o primeiro homem que a beijou e com quem casou, aos 17 anos. Virgem.

Bailarina de circo
O casal fazia três ou quatro sessões do circo Thiany, à tarde. Ele tocava frigideira numa orquestra improvisada e ela dançava em torno de uma moça que ia ser serrada num truque de mágica. À noite, eles suavam na boate Plaza, em Copacabana, no musical Sherazade. Convidado a excursionar com Society em babydoll, Paulo impôs a condição de só viajar se a mulher o acompanhasse. Na véspera do embarque para Salvador, aconteceu um imprevisto: a vedete torceu o pé. Houve remanejamento de papéis e sobrou vaga para Marília interpretar uma moça ingênua. Estava com cinco meses de gravidez, mas mentiu que eram só dois. Após o parto, excursionaram durante sis meses em Portugal, morando em pensões, fazendo sopinhas em fogareiros de álcool e secando fraldas com ferro de passar roupa. Na volta, o casamento estava em frangalhos. "O amor não aguenta tanta provação."

Em 1969, ganhou o primeiro Molière com Fala baixo senão eu grito, de Leilah Assunção. No ano seguinte, ficou mais popular ao ser contratada pela rede Globo. Em 1981, recebeu o prêmio de melhor atriz da Associação dos Críticos americanos por sua performance no filme Pixote, de Hector Babenco. Ela ri quando sua história sugere um vale de lágrimas. "Pára de falar na infância senão eu vou chorar", brincava o ex-marido Nélson Motta. "A infância foi um longo aprendizado que me permite hoje ser muito feliz, apesar das agruras e dos males do mundo", conclui Marília.

VOCÊ SABIA?
Em 1964, derrotou Elis Regina num teste para o musical Como vencer na vida sem fazer força. Logo depois começou a flertar com o jornalista e compositor Nelson Motta, que mal terminara um namoro com a cantora. Para piorar, Nelson convidou Marília para assistir ao show de Elis. Sentaram na primeira fila. Elis cantou olhando todo o tempo para eles. No dia seguinte, telefonou: "Tens notícia do meu homem?"

EM CENA
· Medéia (aos cinco anos) (1948) teatro
· Apareceu a Margarida (1973) teatro
· Bandeira 2 (1972) novela
· Pixote, a lei do mais fraco (1979) cinema