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O Brasileiro do Século

17) Plínio Marcos
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Quando Cacilda Becker leu Dois perdidos numa noite suja, soltou: "Ora, Plínio, no seu vocabulário só tem meia dúzia de palavrões, como é que escreveu essa maravilha?" Ele já estava acostumado com a pergunta. Estudou até a quarta série do primário, "só Deus sabe como", como costuma dizer, e nunca foi bom aluno. O objetivo de Plínio Marcos de Barros era ser ladrão. "Odeio trabalhar", confessa. Sem nunca ter feito força para ser alguém na vida, foi camelô, jogador de futebol, estivador, encadernador e coisas que nem lembra, até se tornar um dos dramaturgos mais importantes do Brasil. São 45 anos de carreira e mais de 30 peças (ele não sabe o número exato porque muitas se perderam). "Minha vocação era para a vadiagem." Quem o ouve falando assim, pensa que o sucesso foi acidental.

Talvez tenha sido mesmo, embora seu talento seja inegável. Colocou no palco a marginália da cidade grande, coisa que ninguém tinha feito até então. Prostitutas, desempregados e presidiários são os personagens de suas peças, recheadas de palavrões.

Até escrever Barrela, em 1958, Plínio era só o Frajola, o palhaço gago do Teatro Liberdade, um circo de Santos, cidade do litoral paulista onde nasceu, em 29 de setembro de 1935. Para vê-lo irritado era só chamá-lo de gaguinho: "Na pelada, se gritassem 'corre, gaguinho!', eu dava porrada." A última esperança do pai para acabar com a vida desocupada do menino era a Escola de Pesca, para onde ele não queria ir de jeito nenhum. No primeiro dia de aula, a escola pegou fogo. Em Santos, tem quem jure até hoje que foi ele que incendiou.

Mudou-se para São Paulo em 1962, onde trabalhou alguns meses como técnico na TV Tupi, emprego que detestava. No auge da irritação com o serviço, tirou a rede do ar no horário político e foi tomar um café na esquina. Foi demitido, claro. Mas continuava escrevendo e a montagem de Dois perdidos..., em 1966, fez Plínio virar moda até o início dos anos 70, quando o regime militar passou a censurar tudo que escrevia. Nem sabe quantas vezes foi preso. A sorte é que os delegados adoravam suas piadas.

Indigente
A barra pesada da ditadura deixou Plínio 20 anos no ostracismo, andando pela noite paulistana, vendendo livros de bar em bar. Fumando cinco maços de cigarro por dia, pagou caro pela vida de boêmio: a má circulação do sangue paralisou as pernas. No hospital, foi atendido como indigente e a amiga e jornalista Vera Artaxo, sua futura mulher, na última hora impediu a amputação.

Hoje, leva a vida fazendo "bicos" diversos e ri das histórias que tem para contar. "Para um gago analfabeto, tudo era lucro." Acaba de escrever a trajetória do velho palhaço Frajola. "Quero fazer uma coluna diária, dessas que a gente faz uma só e vende para vários jornais ao mesmo tempo." Como já se disse aqui, "odeia trabalhar".

VOCÊ SABIA?
Quando o Santos ganha algum campeonato, Mário Covas, um santista fanático, divide a alegria com Plínio Marcos mandando telegramas para ele. O que o governador não imagina é que o dramaturgo é um eufórico torcedor do Jabaquara Futebol Clube.


EM CENA
· Barrela (1958)
· Dois perdidos numa noite suja (1966)
· Navalha na carne (1967)
· Quando as máquinas param (1972)
· Madame Blavatsky (1985)