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12) Dercy Gonçalves
42%
dos votos
Os vira-latas
latiam assustados com o vulto que se movia na escuridão na
pequinina Santa Maria Madalena, a 237 quilômetros do Rio de
Janeiro. Dercy Gonçalves tinha 17 anos e estava escondida
embaixo de um vagão do trem, espantando os cães para
não ser descoberta. Meia hora antes, havia roubado dois mil
réis do bolso da calça do pai. Encheu a cama de travesseiros
para ninguém notar sua ausência e saiu em disparada.
Ao raiar do dia, quando as portas do vagão de segunda classe
abriram e o trem apitou, ela deslizou para dentro agarrada ao sonho
de alcançar Macaé (RJ), onde pretendia se juntar a
uma companhia de teatro mambembe. "Quem me criou foi o tempo,
foi o ar. Ninguém me criou. Aprendi como as galinhas, ciscando,
o que não me fazia sofrer eu achava bom", contou Dercy
a ISTOÉ.
Amor proibido
Filha de alfaiate e neta de coveiro, Dolores Gonçalves Costa
(nascida a 23 de junho de 1907), ficou sem a mãe muito cedo.
A lavadeira Margarida descobriu que o marido tinha uma amante. Ofendida
e humilhada, arrumou as trouxas e foi para o Rio de Janeiro, largando
os sete filhos para que o infiel tomasse conta. Vitória,
a amante de seu Manoel, passou a frequentar a casa. "Ficavam
namorando na sala, de mãos dadas. Mas papai nunca assumiu
o romance. A certa altura da noite, ela ia embora." Dercy,
bilheteira de cinema, escandalizava a cidade ao pintar o rosto como
as atrizes dos filmes mudos. Dançava para alegrar os hóspedes
do Hotel dos Viajantes em troca de um prato de comida. Na missa,
de vestido de chita, cantava de pé num banquinho abraçada
à imagem de Jesus. Aí se apaixonou por Luís
Pontes, um rapaz de bons modos. "Foi a primeira pessoa que
me deu carinho. Mas a família dele proibiu o namoro."
Quando encontrou a companhia de teatro mambembe, Dercy tinha todas
as razões do mundo para fugir de casa.
Em Conceição
de Macabu (RJ), passou a ser assediada pelo cantor Eugenio Pascoal.
"Não sabia que eu era moça, não tinha
virado mulher." Só tomou coragem para se entregar quando
a turnê chegou a Leopoldina (RJ), duas semanas depois. Gentil,
Pascoal saiu do quarto para que ela colocasse a camisola feita de
saco de arroz. Tinha até inscrito no peito: "Indústria
Brasileira de Arroz Agulhinha, arroz de primeira." Os carinhos
preliminares não a incomodaram, mas quando ele a penetrou
Dercy deu um pulo. Viu que estava sangrando e imaginou-se ferida.
"Sentei o pé nele e saí porta afora. Socorro!
Esse homem me furou! Imaginei que tinha enfiado um facão
e rasgado minhas tripas." Nunca mais houve clima para romance,
mas eles se tornaram grandes amigos, até Pascoal morrer,
tuberculoso. Pior: contagiou Dercy. Foi quando ela encontrou Ademar
Martins, exportador de café mineiro, casado, muito católico.
Levou-a para um sanatório perto de Juiz de Fora, aparecia
uma vez por semana para vê-la e pagar a conta. Depois, instalou
Dercy num hotel na praça Tiradentes, no Rio. Só então
transaram pela primeira vez. Nasceu Dercimar, a única filha
de Dercy. "Teve aulas de boas maneiras, aprendeu francês
e casou com um quatrocentão da Tijuca. É uma dama
na expressão da palavra", deleita-se Dercy.
Escola de
irreverência
Estrela das comédias da praça Tiradentes e das revistas
musicais do Cassino da Urca, fez do palavrão cavalo de batalha.
"Sou um retrato do País, que é a própria
escrotidão", dispara. Ao imitar os trejeitos de Carmen
Miranda, coçava o corpo todo. Ironizava o caminhar manco
de Orlando Silva e fazia troça do vozeirão de Vicente
Celestino. Fez 36 filmes e, a partir de 1957, entrou também
na televisão. Nos anos 60, Consultório sentimental,
na TV Globo, uma espécie de talk-show primitivo ela esculhambava
o convidado, chegou a ter 90% da audiência dos aparelhos ligados.
"Sou uma escola de irreverência." Dercy chega aos
92 anos sozinha. Casou na década de 40 com o jornalista Danilo
Bastos, dez anos mais jovem. "Não era amor, e sim troca."
Teve um caso tórrido com o acrobata Vico Tadei, mas amor
verdadeiro, de chorar, só o Luís Pontes, o rapaz de
bons modos de Madalena. "Escrevia cartas e as lágrimas
caíam no papel. Mas o tempo passou e eu esqueci Luís
Pontes. Ai de nós se não houvesse o esquecimento."
VOCÊ
SABIA?
Construiu um túmulo do lado de fora do cemitério de
Madalena, porque dentro não cabia. O mausoléu tem
120 metros quadrados de mármore em forma de pirâmide.
"Hoje a cidade me aplaude. Até museu fizeram para preservar
a minha história."
EM CENA
· Foi seu Cabral (1934) teatro de revista
· Tem gato na tuba (1948) teatro de revista
· Samba em Berlim (1943) cinema
· Dulcinéia vai à guerra (1980) televisão
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