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O Brasileiro do Século

EDITORIAL
"All right, Portinari"

Eram longas viagens em estradas de chão rasgando o Brasil. Di Cavalcanti parava a todo o momento para comer pastéis e jogar bilhar nas biroscas à beira das rodovias. Candido Portinari punha algodão nos ouvidos para não entrar poeira. Por causa do pavor de andar de avião, o arquiteto Oscar Niemeyer desbravava o País em carros velhos e convidava os amigos para o passeio. Apesar do perigo - certa vez, o automóvel capotou no interior de Minas Gerais e ele ficou um mês internado num hospital -, Niemeyer transformava a agonia em divertida aventura. Era um tempo em que Arquitetura e Artes Plásticas andavam juntas. Quando construiu um colégio em Cataguases (MG), Niemeyer exigiu que Portinari pintasse um mural num paredão de 20 metros de comprimento. "É uma alegria saber hoje que o mural Tiradentes é apontado como a mais importante obra de Portinari", afirma o arquiteto.

Em 1946, convidado a projetar o edifício do Banco Boavista, na Cinelândia, no centro do Rio, Niemeyer apresentou Portinari ao barão de Saavedra, fundador da instituição. Era para negociar o preço que custaria ao banco decorar sua sede com o talento do pintor. Consta que Portinari cobrou um valor considerado exorbitante pelo banqueiro. "Ora, bolas, por que eu deveria gastar uma quantia salgada para embelezar o prédio de um banco?", indagou o barão. "Ah, o senhor tem que pensar no futuro. Em pouco tempo, minha assinatura valerá milhões", argumentou o artista. O barão pensou, pensou, e acabou cedendo: "All right, Portinari." A expressão virou chacota entre os amigos de Niemeyer. A cada longa viagem, quando batia a angústia ou o cansaço, bastava alguém imitar a voz desconsolada do barão de Saavedra: "All right, Portinari." E todos caíam na gargalhada. No Ministério da Educação (RJ), na Pampulha (MG) e no Memorial da América Latina (SP), Niemeyer chamou os artistas plásticos para completarem sua obra. "O meu desejo era espalhar quadros pelos palácios de Brasília. Pena que não foi possível", lamenta Niemeyer.