Esporte
Música
Artes Cênicas
Literatura
Arquitetura & Artes Plásticas
Religião
Ciência, Tecnologia & Educação
Comunicação
Justiça & Economia
Empreendedor
Líderes & Estadistas
O Brasileiro do Século

9) LASAR SEGALL
39,61% dos votos

 

Todas as vezes que Lasar Segal e a esposa, Jenny, saíam à noite não podiam esquecer de levar biscoitos nos bolsos dos casacos. Na volta, um enorme vira-lata estaria esperando no portão de casa, com a língua de fora e o rabo abanando de ansiedade. O biscoito era jogado para distrair o animal enquanto eles entravam, mas o truque às vezes falhava e o casal era obrigado a acordar o filho Maurício, a quem o cão obedecia sem problemas. O bicho não era carinhoso, rosnava para todo mundo, inclusive para os donos da casa, mas não o mandou embora porque tinha dó do pobre coitado - e do resto dos animais do planeta. Quando roubaram o vira-lata, entretanto, deu um jantar em comemoração.

Andar pelo jardim da casa onde o pintor morou durante quase 30 anos, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, era como passear no zoológico. Animais de todas as espécies - gansos, veados, pássaros, gatos, cachorros - circulavam por ali. Foi assim, cercado por esta fauna, do jeito que sempre gostou, que Segall trabalhou anos a fio, produzindo telas que retratam desde os horrores da guerra e do holocausto até as mais exuberantes paisagens brasileiras.

"O Brasil revelou-me o milagre da luz e da cor. Sinto que neste país todas as coisas parecem mais leves. Eleva-nos da terra. Ensina a alegria", disse o pintor, judeu de Vilna, capital da Lituânia. Algumas falcatruas no meio do caminho ajudaram-no a chegar onde queria. Nasceu a 23 de julho de 1891, mas falsificou seus documentos pessoais para ser aceito na Imperial Academia Superior de Belas Artes, de Berlim, no início de 1907. A escola não aceitava alunos com menos de 16 anos. O esforço só valeu a pena pelo número infinito de amigos que fez na nova cidade, já que três anos depois da chegada o pintor rompeu com o academicismo.

Charme Quando desembarcou aqui, em 1923, fugindo da crise européia do pós-guerra, Segall já era um artista consagrado na Alemanha, onde iniciou a carreira. Um dos fundadores do grupo Secessão de Dresden de 1919, vanguarda embrionária do movimento expressionista alemão, uniu-se aos modernistas brasileiros na década de 30, introduzido na turma pelo poeta Mário de Andrade.

Na São Paulo desse período não havia homem mais elegante que Lasar Segall. "Nunca o vi sair sem chapéu, terno e gravata. E não podia ser de qualquer alfaiate", disse a ISTOÉ Oscar, o filho caçula. Tinha uma coleção finíssima de chapéus, mas amarfanhava-os cuidadosamente até que parecessem velhos. Dizia que dava um certo charme. Assíduo frequentador de bailes, quando fundou, com Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, a Spam - Sociedade Pró-Arte Moderna -, passou a promover as festas à fantasia mais disputadas da cidade. "O Baile do Mau Gosto, nos anos 40, era famoso. Faziam também matinês e ele próprio cuidava da decoração", disse a ISTOÉ Maurício, o filho mais velho.

Bombas no cinema Era detalhista, exigente, metódico. "Chegou a desmontar uma exposição, no Rio, no dia do vernissage, quando viu que a disposição dos quadros não estava do jeito que queria. Os convidados estavam chegando e ele carregava as obras para o lado de fora", conta Oscar. Paciente e perfeccionista, levava semanas estudando uma pincelada. O acesso ao ateliê era vetado aos amigos, esposa e filhos e só poucos privilegiados tinham a oportunidade de apreciar suas obras antes das exposições. Nenhuma superstição, não.

"De supersticioso, ele não tinha nada", diz Maurício, "e fazia questão de dizer para todo mundo que era judeu". No Brasil, foi um dos principais líderes do movimento contra o anti-semitismo. Quando as salas de projeção paulistanas anunciavam a estréia de um filme oficial alemão nos tempos de Hitler, era o primeiro a protestar. Com uma turma de amigos, jogava bombas em frente aos cinemas lotados e corria em disparada para fugir da polícia.

Na manhã do dia 2 de agosto de 1957, Lasar Segall sofreu uma parada cardíaca e não resistiu. Estava com 66 anos, 32 deles vividos ao lado de Jenny. A casa onde morou é hoje um museu que leva seu nome, dirigido pelo filho Maurício, e possui um acervo de quatro mil obras.

VOCÊ SABIA? Doava telas para os mais chegados, mas depois ia na casa do sujeito conferir onde ele a tinha pendurado. "A cortina não combina, a luz não está boa..." Se as alterações não eram aceitas, confiscava o quadro.

OBRA DE ARTE:
· Eternos caminhantes (1919)*
· Paisagem brasileira (1925)
· Pogrom (1937)
· Floresta crepuscular (1954)
· Navio de emigrantes (1939-1941)
(*) Todas as obras estão no Museu Lasar Segall - SP