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9) LASAR SEGALL
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Todas as vezes
que Lasar Segal e a esposa, Jenny, saíam à noite não
podiam esquecer de levar biscoitos nos bolsos dos casacos. Na volta,
um enorme vira-lata estaria esperando no portão de casa,
com a língua de fora e o rabo abanando de ansiedade. O biscoito
era jogado para distrair o animal enquanto eles entravam, mas o
truque às vezes falhava e o casal era obrigado a acordar
o filho Maurício, a quem o cão obedecia sem problemas.
O bicho não era carinhoso, rosnava para todo mundo, inclusive
para os donos da casa, mas não o mandou embora porque tinha
dó do pobre coitado - e do resto dos animais do planeta.
Quando roubaram o vira-lata, entretanto, deu um jantar em comemoração.
Andar pelo jardim
da casa onde o pintor morou durante quase 30 anos, na Vila Mariana,
zona sul de São Paulo, era como passear no zoológico.
Animais de todas as espécies - gansos, veados, pássaros,
gatos, cachorros - circulavam por ali. Foi assim, cercado por esta
fauna, do jeito que sempre gostou, que Segall trabalhou anos a fio,
produzindo telas que retratam desde os horrores da guerra e do holocausto
até as mais exuberantes paisagens brasileiras.
"O Brasil
revelou-me o milagre da luz e da cor. Sinto que neste país
todas as coisas parecem mais leves. Eleva-nos da terra. Ensina a
alegria", disse o pintor, judeu de Vilna, capital da Lituânia.
Algumas falcatruas no meio do caminho ajudaram-no a chegar onde
queria. Nasceu a 23 de julho de 1891, mas falsificou seus documentos
pessoais para ser aceito na Imperial Academia Superior de Belas
Artes, de Berlim, no início de 1907. A escola não
aceitava alunos com menos de 16 anos. O esforço só
valeu a pena pelo número infinito de amigos que fez na nova
cidade, já que três anos depois da chegada o pintor
rompeu com o academicismo.
Charme
Quando desembarcou aqui, em 1923, fugindo da crise européia
do pós-guerra, Segall já era um artista consagrado
na Alemanha, onde iniciou a carreira. Um dos fundadores do grupo
Secessão de Dresden de 1919, vanguarda embrionária
do movimento expressionista alemão, uniu-se aos modernistas
brasileiros na década de 30, introduzido na turma pelo poeta
Mário de Andrade.
Na São
Paulo desse período não havia homem mais elegante
que Lasar Segall. "Nunca o vi sair sem chapéu, terno
e gravata. E não podia ser de qualquer alfaiate", disse
a ISTOÉ Oscar, o filho caçula. Tinha uma coleção
finíssima de chapéus, mas amarfanhava-os cuidadosamente
até que parecessem velhos. Dizia que dava um certo charme.
Assíduo frequentador de bailes, quando fundou, com Mário
de Andrade, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, a Spam - Sociedade
Pró-Arte Moderna -, passou a promover as festas à
fantasia mais disputadas da cidade. "O Baile do Mau Gosto,
nos anos 40, era famoso. Faziam também matinês e ele
próprio cuidava da decoração", disse a
ISTOÉ Maurício, o filho mais velho.
Bombas no
cinema Era detalhista, exigente, metódico. "Chegou
a desmontar uma exposição, no Rio, no dia do vernissage,
quando viu que a disposição dos quadros não
estava do jeito que queria. Os convidados estavam chegando e ele
carregava as obras para o lado de fora", conta Oscar. Paciente
e perfeccionista, levava semanas estudando uma pincelada. O acesso
ao ateliê era vetado aos amigos, esposa e filhos e só
poucos privilegiados tinham a oportunidade de apreciar suas obras
antes das exposições. Nenhuma superstição,
não.
"De supersticioso,
ele não tinha nada", diz Maurício, "e fazia
questão de dizer para todo mundo que era judeu". No
Brasil, foi um dos principais líderes do movimento contra
o anti-semitismo. Quando as salas de projeção paulistanas
anunciavam a estréia de um filme oficial alemão nos
tempos de Hitler, era o primeiro a protestar. Com uma turma de amigos,
jogava bombas em frente aos cinemas lotados e corria em disparada
para fugir da polícia.
Na manhã
do dia 2 de agosto de 1957, Lasar Segall sofreu uma parada cardíaca
e não resistiu. Estava com 66 anos, 32 deles vividos ao lado
de Jenny. A casa onde morou é hoje um museu que leva seu
nome, dirigido pelo filho Maurício, e possui um acervo de
quatro mil obras.
VOCÊ
SABIA? Doava telas para os mais chegados, mas depois ia na casa
do sujeito conferir onde ele a tinha pendurado. "A cortina
não combina, a luz não está boa..." Se
as alterações não eram aceitas, confiscava
o quadro.
OBRA DE ARTE:
· Eternos caminhantes (1919)*
· Paisagem brasileira (1925)
· Pogrom (1937)
· Floresta crepuscular (1954)
· Navio de emigrantes (1939-1941)
(*) Todas as obras estão no Museu Lasar Segall - SP
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