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O Brasileiro do Século

8) ALFREDO VOLPI
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Homem robusto e de riso largo, o pintor Alfredo Volpi era de uma simplicidade comovente. Nunca soube lidar com o dinheiro. Preocupava-se com a miséria alheia a ponto de parar o carro, desembarcar e dar esmolas aos mendigos do Cambuci, bairro da região central de São Paulo, onde ele morou quase 90 anos. Tirava aleatoriamente uma nota do bolso e a entregava ao sujeito. Às vezes, o valor era tão alto que os amigos se espantavam. "E o que ele vai fazer com um trocadinho?", retrucava Volpi.

Filho de comerciantes humildes, nasceu em Lucca, na Itália, a 14 de abril de 1896. Chegou ao Brasil com dois anos de idade. Os pais o matricularam numa escola particular, mas Volpi abandonou os estudos sem completar o primário. Aos 12 anos, empregou-se na tipografia onde já trabalhavam dois irmãos (eram cinco ao todo; apenas o caçula João, 90 anos, está vivo). Com o salário comprou uma caixa de aquarela por 500 réis. Passava horas manuseando as tintas, misturando as cores só pela curiosidade de ver o resultado. Virou decorador, pintando ornamentos m muros, tetos e paredes dos casarões da avenida Paulista.

Quando sobrava tempo, frequentava o velho edifício Santa Helena, na Praça da Sé, para reunir-se com o grupo de jovens pintores formado por Penacchi, Rebolo e Aldo Bonadei. Era um ilustre desconhecido até realizar a primeira exposição individual, aos 48 anos. Ganhou fama com o prêmio conquistado na Bienal de São Paulo, em 1953. Nessa época, já vivia com a esposa, Judite, uma mulata com quem teve uma filha, Eugênia Maria. A casa do Cambuci estava de portas abertas para as crianças. Judite gostava de adotá-las e Volpi não se incomodava. Foram mais de 20. A maioria ia apenas para comer e brincar; outras eram criadas pelo casal. Hoje, poucas carregam o sobrenome italiano - uma delas é Djanira Volpi, jogadora de búzios e tarô que vive à beira da miséria. "As disputas entre a família me empobreceram", afirmou Djanira.

Festa Junina Em 1954, Judite foi descansar no sítio da família em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Numa madrugada de junho, Volpi chegava à cidade quando se encantou com o colorido das bandeirinhas de São João da praça central. "Viu, se fascinou, pintou e deu certo", relatou a ISTOÉ o artista plástico Hermelindo Fiaminghi, amigo de Volpi desde a década de 50. A imagem ficou na memória coletiva como um exemplo típico do traço de Volpi, sua marca pessoal e intransferível, mas ele na intimidade manifestava uma pontinha de irritação quando perguntavam o significado de tais bandeirolas. "Não pinto bandeirinhas, hostia", dizia com seu irremediável sotaque toscano. Onde as pessoas enxergavam apenas bandeiras existiam retângulos, quadrados e triângulo de uma composição geométrica ritmada e festiva, pura inspiração de Volpi. O belo resultado no que diz respeito às cores pode ser creditado, em parte, à mistura inusitada de clara e gema de ovo às tintas. Inventivo e magnífico.

Volpi não se naturalizou, mas seu coração era brasileiro. Visitou o país de origem uma única vez, em 1950. Na volta, levou bronca dos parentes. Afinal, se esquecera de trazer as famosas gravatas italianas. Ora, e para quê? Nunca usou gravatas. A cada início de manhã vestia sua calça comprida e os tamancos para caminhar. Às sete horas já estava pintando - na maioria das vezes descalço, sem camisa, fumando seus habituais cigarros de palha que ele própio enrolava. Terminava o expediente ao pôr-do-sol, pois se recusava a trabalhar sob luz artificial. Depois, se estirava no sofá para assistir à televisão - adorava novelas e não perdia um capítulo de Gabriela - enquanto esperava o jantar: sopa de alho com azeite e muita pimenta-do-reino. Aos domingos, recebia os amigos para a tradicional macarronada.

Segredo da felicidade Bom de garfo e de copo, Volpi tomava uma taça de vinho no almoço e outra no jantar. "Não se engole vinho como água", alertava aos maus conhecedores da bebida. Entusiasmado pela arte, pintava por prazer. Sempre recusava encomendas. Seu segredo era a felicidade no sentido mais singelo. "Os que trabalham num emprego sem gostar, à espera da aposentadoria, morrem logo", costumava dizer. Volpi morreu aos 92 anos, sem fazer fortuna, a 28 de maio de 1988. A fragilidade do estado de saúde o impedia de pintar, mas ele não dispensava o vinho tinto italiano. Nem as esmolas generosas.

VOCÊ SABIA? Calado e introspectivo, nem de longe o pintor lembrava o típico italiano. Era um sacrifício arrancar algum comentário de Volpi. Por isso, o escultor Bruno Giorgi, igualmente silencioso, era uma das companhias preferidas. Foram amigos durante mais de 40 anos. Eles passavam a tarde jogando paciência. Às vezes, Volpi trapaceava a si mesmo no jogo. "É para dar alguma graça", dizia.

OBRA DE ARTE:
· Marinha com pescadores (final dos anos 30) , MAM-SP
· Mogi das Cruzes (1939), Museu de Arte Contemporânea da USP
· Casas (1955), MAC-USP
· Mastros em xadrez (anos 70), acervo particular