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O Brasileiro do Século

7) ANITA MALFATTI
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Quem desdenha quer comprar. Só um ditado popular poderia explicar a reação do escritor Mário de Andrade diante das obras da precursora do modernismo, Anita Malfatti. Em 1917, avisado sobre uma exposição "esquisita e cheia de coisas dantescas" na capital paulista, resolveu conferir a novidade. Logo ao entrar, deparou-se com retratos de figuras deformadas. Na composição dos quadros, a pintora usara cores fortes, lançando-as em pinceladas bruscas. As obras não assumiam nenhum compromisso em refletir a realidade, conforme pregava o conservadorismo impregnado nas artes brasileiras. Mário olhou para O homem amarelo, A mulher de cabelos verdes e A boba e não se conteve. Soltou escandalosas gargalhadas, pois não compreendia o que via, até que a responsável pelas ousadias surgiu enfurecida. "O que está tão engraçado aqui?", perguntou Anita Malfatti.

A resposta só veio alguns anos depois. O escritor retornou várias vezes à mesma exposição e acabou virando um dos melhores amigos de Anita. Trocavam correspondências diárias e, na Semana de Arte Moderna de 1922, Mário adquiriu O homem amarelo, do qual debochara. "Só não comprei na exposição de 1917 porque faltou dinheiro", disfarçou ele.

Atrofia congênita "Anita foi a primeira a abandonar os acadêmicos, a ter contato e aceitar as vanguardas. Ela foi influenciada por vários estilos, como o fauvismo e o cubismo e montou sua própria linguagem expressionista", afirma Marta Rossetti, diretora do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Nascida em São Paulo, a 2 de dezembro de 1889, era filha de imigrantes. O pai, Samuel, natural de Lucca, na Itália, era engenheiro e trabalhou em estradas de ferro e na construção civil. A mãe, Eleonora, americana, falava vários idiomas, desenhava e pintava. Teve grande influência na formação artística de Anita.

A menina sofria de uma atrofia congênita na mão direita. Aos três anos de idade, a mãe a levou para a Itália, à procura de tratamento para curá-la, mas foi em vão. Com grande força de vontade, Anita aprendeu a escrever, desenhar e pintar só com a mão esquerda. Aos 20 anos, morando em Berlim sozinha, contamina-se pela atmosfera expressionista que tomara conta da cidade. Durante um ano, frequenta a Academia Real de Belas Artes. Em 1913, volta para o Brasil e, dois anos depois, passa uma temporada nos Estados Unidos.

Quando retorna, em 1916, está entusiasmada com o que aprendera no Exterior. A exposição do ano seguinte, que escandalizou Mário de Andrade, incluía 53 pinturas, exibidas em um salão alugado da rua Líbero Badaró, no centro de São Paulo. Anita uniu o expressionismo às vistosas cores tropicais, dando origem a um estilo absolutamente original, incompreensível aos olhos do público e do meio acadêmico, porque fugia ao naturalismo consagrado. Como fruto de sua criatividade, colheu pesadas críticas. Enfureceu especialmente o escritor Monteiro Lobato, para quem as raças típicas do Brasil e a natureza deveriam ser fielmente retratadas.

As obras de Anita, na época com 28 anos, fizeram com que Lobato publicasse um devastador artigo intitulado Paranóia ou mistificação?, em que, não contente em questionar os méritos artísticos da pintora, ainda a chamava de louca. Mas o tal artigo surtiu efeito contrário. Acendeu o estopim da bomba que explodiria na Semana de Arte Moderna de 1922 e transformou a exposição de Anita em um divisor de águas. Oswald de Andrade tomou as dores da pintora e resolveu responder ao artigo de Monteiro Lobato. Compôs até mesmo um soneto parnasiano em homenagem ao Homem amarelo, uma das obras espinafradas por Lobato. Estava declarada a guerra. Na trincheira contra os conservadores, Di Cavalcanti, Victor Brecheret, John Graz e Vicente do Rego Monteiro, ao lado de Anita, apresentaram-se na histórica Semana de Arte Moderna de 1922, revelando ao mundo a arte brasileira característica do século XX.

Passando fome em Paris O barulho dos modernistas não rendeu dividendos. Em 1926, vivendo em Paris com uma modesta bolsa de estudos, certo dia comprou uma lata de sardinhas. Para não passar fome no jantar, reservou uma sardinha. Não contava com a visita inesperada do velho companheiro de lutas, Di Cavalcanti. Antes mesmo de dizer "boa tarde", Di devorou a sardinha. O tempo se encarregou de recompensar Anita, hoje reconhecida como precursora do modernismo. A artista, que morreu no dia 6 de novembro de 1964, preferiu ficar longe das polêmicas no final da vida. "Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade. Não sou moderna nem antiga, pinto o que me encanta", afirmou.

VOCÊ SABIA? Anita subtraía alguns anos de sua idade porque não queria ser a mais velha integrante do modernismo. Dizia ter nascido em 1896, e não em 1889, como era verdade. Chegou a rasurar a data na carteira de identidade. A mentira dificultou a vida dos pesquisadores, que tiveram muito trabalho para descobrir a data verdadeira.

OBRA DE ARTE:
· O homem amarelo (1915) Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP)
· Mulher de cabelos verdes (1915), coleção particular
· A boba (1915), Museu de Arte Contemporânea da USP
· O japonês (1915), (IEB)