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6) LÚCIO COSTA
62,82%
dos votos
Convidado a
erguer o prédio do Ministério da Educação
e Saúde, no Rio de Janeiro, em 1936, o arquiteto Lúcio
Costa exigiu que o suíço naturalizado francês
Le Corbusier, o papa da arquitetura moderna, fosse o consultor do
projeto. A muito custo, convenceu o ministro Gustavo Capanema a
levá-lo até Getúlio Vargas. "O ministro
está plenamente satisfeito com o seu desenho. Por que chamar
o estrangeiro?", estranhou o presidente. Lúcio pigarreou
e começou a discursar com tal entusiasmo em favor de Le Corbusier
que logo sentiu Capanema a puxar-lhe a aba do paletó, pedindo
que moderasse o tom. "Está bem, chamem o homem",
cedeu Getúlio. As colunas que sustentam o edifício,
inaugurado em 1945 e conhecido hoje como Palácio da Cultura,
permitem que o andar térreo seja um jardim de livre trânsito.
Os transeuntes que cruzam o quarteirão, apressados, não
sabem a importância histórica do prédio. Construído
num país pobre, durante a Segunda Guerra Mundial, é
o primeiro de grande porte no mundo concebido segundo a doutrina
modernista (para isso, colaborou o fato de a Europa estar se estraçalhando
a cada bombardeio).
Saindo pela
tangente Nascido a 27 de fevereiro de 1902, em Toulon, na França
(o pai era engenheiro naval e ajudou a construir a esquadra brasileira
no velho continente), Lúcio passou boa parte da infância
na Inglaterra e na Suíça. A família voltou
ao Brasil em 1916, num navio às escuras para escapar dos
submarinos alemães em plena Primeira Guerra Mundial. Lúcio
formou-se arquiteto na Escola Nacional de Belas Artes, em 1922.
Quatro anos depois, ganhou na loteria e se deu ao luxo de vagabundear
durante um ano na Europa. Havia outro motivo para sair pela tangente:
estava enrascado em "problemas sentimentais insolúveis".
Tinha duas namoradas, ambas chamadas Julieta, e o que é pior,
primas. Lieta o convidara a espiar uma obra na casa do tio e lá
ele deparou com Leleta, atirada ao chão, fazendo faxina,
"com uma florzinha de manacá nos cabelos." O coração
partiu.
Nem bem engrenara
a carreira de arquiteto, os ventos da Revolução de
1930 o conduziram à direção da Enba. Com 28
anos, encarregado de reformular o ensino das Belas Artes, considerou
a tarefa fracassada "porque resultou no desmantelo do que,
bem ou mal, havia sem ter deixado nada em troca." O ponto alto
de sua gestão foi o Salão Revolucionário de
1931, quando, pela primeira vez, os modernistas da Semana de 1922
participaram de um evento patrocinado pelo governo. Lúcio
quis voltar à carreira de arquiteto, mas estava em crise.
Era paparicado por uma clientela ávida de casas de estilo
neocolonial, "uma miscelânia de mau gosto". Casado
(decidiu-se por Lieta, a da florzinha de manacá nos cabelos,
com quem teve duas filhas) e morando com o sogro, Lúcio vivia
um período de vacas magras. Aproveitou a escassez de serviço
para estudar a fundo a obra de Le Corbusier. Uma cliente da alta
sociedade reclamou: "Eu pedi uma carruagem e o senhor quer
me impingir um automóvel."
Em boa companhia
Construir o Ministério da Educação foi fundamental
para que ele recuperasse o prestígio. Em 1937, entrou no
Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Sphan), sentando numa mesa ao lado do poeta Carlos Drummond
de Andrade (será que, na época, como hoje, era moda
criticar a qualidade dos quadros do funcionalismo?).
Era um brasileiro
consciente da cidadania. Para Lúcio, a cidade era extensão
de sua casa. Nos anos 40, matutou durante semanas espontaneamente
uma saída para o nó do trânsito no Rio. Deixou
a sugestão na portaria do prédio do responsável
pelo tráfego na época, sem avisá-lo. Continuou
fazendo sucesso como arquiteto, mas a idéia de planejar uma
nova cidade o atraiu em 1957. Inscreveu-se no concurso do plano
piloto de Brasília na última hora. Já estavam
fechando o guichê quando as filhas entregaram a proposta.
Ele ficara esperando no carro. Faria ainda o projeto de ocupação
da Barra da Tijuca, no Rio, que a especulação imobiliária
desvirtuou. Morreu a 13 de junho de 1998, aos 96 anos. Havia deixado
um bilhete: "Não me internem. Lugar de morrer é
em casa." "Sofria com o glaucoma que não lhe permitia
mais olhar a paisagem. Foi enfraquecendo até que, certa manhã,
sentou-se para tomar café. Bebeu três colheres e se
apagou, de mansinho", disse a ISTOÉ a filha Maria Elisa.
VOCÊ
SABIA? Num sábado, depois do meio-dia, a família
arrumou as malas e tomou a direção do distrito de
Correias, na serra fluminense, onde costumava descansar nos fins
de semana. Uma tarde de mormaço, que logo virou chuva de
final de verão. De repente, o carro deslizou e foi de encontro
a uma árvore. Julieta, mulher de Lúcio, foi apunhalada
pela alavanca de mudança, que era presa ao volante do automóvel.
Teve morte instantânea. O desastre foi em março de
1954 e Lúcio se culpou o resto da vida, acreditando ter cochilado
alguns segundos na direção, embora haja indícios
de que os pneus tenham perdido a aderência à pista
molhada. As filhas tentaram em vão convencê-lo de que
havia sido uma fatalidade. "Foi um cochilo meu, idiota. Que
maldade do destino!", lamentava-se.
OBRA DE ARTE:
· Ministério da Educação, hoje Palácio
da Cultura (1936) - RJ
· Parque Guinle (1940) - RJ
· Plano-piloto de Brasília (1957)
· Projeto de ocupação da Barra da Tijuca (1969)
- RJ
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