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O Brasileiro do Século

6) LÚCIO COSTA
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Convidado a erguer o prédio do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, em 1936, o arquiteto Lúcio Costa exigiu que o suíço naturalizado francês Le Corbusier, o papa da arquitetura moderna, fosse o consultor do projeto. A muito custo, convenceu o ministro Gustavo Capanema a levá-lo até Getúlio Vargas. "O ministro está plenamente satisfeito com o seu desenho. Por que chamar o estrangeiro?", estranhou o presidente. Lúcio pigarreou e começou a discursar com tal entusiasmo em favor de Le Corbusier que logo sentiu Capanema a puxar-lhe a aba do paletó, pedindo que moderasse o tom. "Está bem, chamem o homem", cedeu Getúlio. As colunas que sustentam o edifício, inaugurado em 1945 e conhecido hoje como Palácio da Cultura, permitem que o andar térreo seja um jardim de livre trânsito. Os transeuntes que cruzam o quarteirão, apressados, não sabem a importância histórica do prédio. Construído num país pobre, durante a Segunda Guerra Mundial, é o primeiro de grande porte no mundo concebido segundo a doutrina modernista (para isso, colaborou o fato de a Europa estar se estraçalhando a cada bombardeio).

Saindo pela tangente Nascido a 27 de fevereiro de 1902, em Toulon, na França (o pai era engenheiro naval e ajudou a construir a esquadra brasileira no velho continente), Lúcio passou boa parte da infância na Inglaterra e na Suíça. A família voltou ao Brasil em 1916, num navio às escuras para escapar dos submarinos alemães em plena Primeira Guerra Mundial. Lúcio formou-se arquiteto na Escola Nacional de Belas Artes, em 1922. Quatro anos depois, ganhou na loteria e se deu ao luxo de vagabundear durante um ano na Europa. Havia outro motivo para sair pela tangente: estava enrascado em "problemas sentimentais insolúveis". Tinha duas namoradas, ambas chamadas Julieta, e o que é pior, primas. Lieta o convidara a espiar uma obra na casa do tio e lá ele deparou com Leleta, atirada ao chão, fazendo faxina, "com uma florzinha de manacá nos cabelos." O coração partiu.

Nem bem engrenara a carreira de arquiteto, os ventos da Revolução de 1930 o conduziram à direção da Enba. Com 28 anos, encarregado de reformular o ensino das Belas Artes, considerou a tarefa fracassada "porque resultou no desmantelo do que, bem ou mal, havia sem ter deixado nada em troca." O ponto alto de sua gestão foi o Salão Revolucionário de 1931, quando, pela primeira vez, os modernistas da Semana de 1922 participaram de um evento patrocinado pelo governo. Lúcio quis voltar à carreira de arquiteto, mas estava em crise. Era paparicado por uma clientela ávida de casas de estilo neocolonial, "uma miscelânia de mau gosto". Casado (decidiu-se por Lieta, a da florzinha de manacá nos cabelos, com quem teve duas filhas) e morando com o sogro, Lúcio vivia um período de vacas magras. Aproveitou a escassez de serviço para estudar a fundo a obra de Le Corbusier. Uma cliente da alta sociedade reclamou: "Eu pedi uma carruagem e o senhor quer me impingir um automóvel."

Em boa companhia Construir o Ministério da Educação foi fundamental para que ele recuperasse o prestígio. Em 1937, entrou no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), sentando numa mesa ao lado do poeta Carlos Drummond de Andrade (será que, na época, como hoje, era moda criticar a qualidade dos quadros do funcionalismo?).

Era um brasileiro consciente da cidadania. Para Lúcio, a cidade era extensão de sua casa. Nos anos 40, matutou durante semanas espontaneamente uma saída para o nó do trânsito no Rio. Deixou a sugestão na portaria do prédio do responsável pelo tráfego na época, sem avisá-lo. Continuou fazendo sucesso como arquiteto, mas a idéia de planejar uma nova cidade o atraiu em 1957. Inscreveu-se no concurso do plano piloto de Brasília na última hora. Já estavam fechando o guichê quando as filhas entregaram a proposta. Ele ficara esperando no carro. Faria ainda o projeto de ocupação da Barra da Tijuca, no Rio, que a especulação imobiliária desvirtuou. Morreu a 13 de junho de 1998, aos 96 anos. Havia deixado um bilhete: "Não me internem. Lugar de morrer é em casa." "Sofria com o glaucoma que não lhe permitia mais olhar a paisagem. Foi enfraquecendo até que, certa manhã, sentou-se para tomar café. Bebeu três colheres e se apagou, de mansinho", disse a ISTOÉ a filha Maria Elisa.

VOCÊ SABIA? Num sábado, depois do meio-dia, a família arrumou as malas e tomou a direção do distrito de Correias, na serra fluminense, onde costumava descansar nos fins de semana. Uma tarde de mormaço, que logo virou chuva de final de verão. De repente, o carro deslizou e foi de encontro a uma árvore. Julieta, mulher de Lúcio, foi apunhalada pela alavanca de mudança, que era presa ao volante do automóvel. Teve morte instantânea. O desastre foi em março de 1954 e Lúcio se culpou o resto da vida, acreditando ter cochilado alguns segundos na direção, embora haja indícios de que os pneus tenham perdido a aderência à pista molhada. As filhas tentaram em vão convencê-lo de que havia sido uma fatalidade. "Foi um cochilo meu, idiota. Que maldade do destino!", lamentava-se.

OBRA DE ARTE:
· Ministério da Educação, hoje Palácio da Cultura (1936) - RJ
· Parque Guinle (1940) - RJ
· Plano-piloto de Brasília (1957)
· Projeto de ocupação da Barra da Tijuca (1969) - RJ