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5) TARSILA DO AMARAL
69,07%
dos votos
"Pegue-se
três litros do visgo da amizade/ajunte-se três quilos
do açúcar cristalizado da admiração/perfume-se
com cinco tragos da pinga do entusiasmo/mexa-se até ficar
melado bem pegajento/e se engula tudo duma vez..." Essa era
a receita, sob a forma de um poema de Mário de Andrade, dos
badalados jantares na rua Barão de Piracicaba, no centro
da São Paulo dos anos 20. No casarão morava uma das
mais aristocráticas famílias paulistas, dona de plantações
de café no interior. E com uma charmosa e ilustre integrante:
a pintora Tarsila do Amaral, na época casada com o poeta
e escritor Oswald de Andrade. Serviam os banquetes entre uma e outra
viagem a Paris, onde os dois artistas fixavam residência quase
uma vez por ano.
Num período
mais longo de estadia no Brasil, no início de 1928, Tarsila
evocou as criaturas míticas da infância que saíam
das histórias contadas pelas negras descendentes de escravas
nas fazendas dos avós. Queria dar um presente de aniversário
ao marido, algo que o impressionasse. Começou a pintar uma
tela, que entregou a Oswald no dia de seu aniversário, a
11 de janeiro. Ao receber o quadro, ele ficou extasiado com sua
beleza. Chamou o amigo Raul Bopp e sugeriu que dessem à obra
o nome de um selvagem, pois a figura parecia um gigante. Lembraram-se
do dicionário de tupi que Tarsila guardava na cabeceira e
encontraram o termo certo: Abaporu, o homem que come carne
humana. Estava fundada a antropofagia, um dos mais importantes movimentos
artísticos brasileiros, que preconizava a devoração
cultural das técnicas importadas dos países desenvolvidos
para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto
de exportação.
Antropofagia
Principal representante da antropofagia nas artes plásticas
e precursora do surrealismo no Brasil, Tarsila nasceu a 1º
de setembro de 1886, na cidade paulista de Capivari. Seu avô,
o "Milionário", tinha tanto dinheiro que resolveu
comprar o luxuoso Hotel D'Oeste, em São Paulo, simplesmente
porque um empregado não o havia deixado se hospedar por causa
da aparência de um homem simples. A família mandou
Tarsila estudar na Europa. Ela frequentou a Academia Julian e os
ateliês de André Lhote, Albert Gleizers e Fernand Léger.
Depois de idas e vindas, desembarcou no Brasil em 1922, quatro meses
após a Semana de Arte Moderna. Então, formou-se o
grupo dos cinco, capitaneando a maior reviravolta da cultura nacional
neste século, o modernismo: Tarsila, Menotti del Picchia,
Anita Malfatti, Oswald e Mário de Andrade. Em 1925, fez uma
excursão pelas cidades históricas de Minas Gerais.
Registrou em suas telas a redescoberta do interior simples e puro,
das cores caipiras, no movimento chamado de pau-brasil. Perdeu grande
parte das terras na crise de 1929 e deu início à pintura
social, retratando o desamparo do homem despersonalizado pela industrialização.
A jovem Tarsila
era de uma beleza edificante, desfilava com altivez, os brincos
pendentes quase tocando os ombros. Menotti del Picchia costumava
lembrar o dia em que a conheceu: "Tinha eu na frente uma das
criaturas mais belas, harmoniosas e elegantes que me fora dado ver."
A pintora csaou-se quatro vezes - duas oficialmente. O primeiro
casamento acabou por causa do ciúme do marido, que não
queria vê-la pintando. O segundo, com Oswald, durou até
1930, quando ele a traiu. Depois veio a união com um médico
que a levou para as reuniões do Partido Comunista (a pintora
viajou para a Rússia em 1931 e passou um mês na cadeia,
ao retornar ao País). Por fim, um romance de duas décadas,
com um crítico de arte 20 anos mais jovem. Teve uma filha
e uma neta. Ambas morreram antes dela. Conseguiu vencer a tristeza
com as palavras de ânimo do médium Francisco Xavier,
seu amigo pessoal.
Sarcasmo
Gostava de ouvir piadas, não pelo sarcasmo de quem as contasse,
e sim pelos erros de português. Morria de rir com as falhas.
Corrigia uma por uma, mania que adquiriu com as intensas leituras,
principalmente de dicionários. No fim da vida, estudava grego
antigo e recitava poesias incompreensíveis. Já não
podia andar, limitada a uma cadeira de rodas após uma cirurgia
na coluna. Morreu de câncer a 17 de janeiro de 1973. Foi enterrada
de vestido branco, conforme seu desejo. O Abaporu (o presente
dado a Oswald) foi leiloado em 1995, por US$ 1,3 milhão.
É até hoje a obra mais valiosa comercializada em leilão
por um pintor brasileiro.
VOCÊ
SABIA? Dona de um paladar apuradíssimo, adorava pratos
da culinária francesa e não dispensava uma batidinha
de limão ou pinga das fazendas do interior. Também
fazia pilhas de cadernos com as receitas dos pratos que a fascinavam,
anotando tudo minuciosamente. Mas ela mesma era uma negação
na cozinha. Às vezes, enquanto pintava, quebrava e engolia
a gema do ovo só para não ter de cozinhá-lo.
OBRA DE
ARTE:
· A negra (1923), Museu de Arte Contemporânea da USP,
SP
· O mamoeiro (1925), Instituto de Estudos Brasileiros da
USP
· Abaporu (1928), acervo particular.
· Antropofagia (1928), acervo particular
· Operários (1933), Palácio do Governo, Campos
do Jordão, SP
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