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O Brasileiro do Século

4) DI CAVALCANTI
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A amizade do pintor Di Cavalcanti não proporcionava apenas conversas exaltadas sobre os assuntos mais corriqueiros da vida. Rendia também surtos de preocupação, que geralmente se davam em plena madrugada. O pintor telefonava para os amigos dizendo que, muito doente, se achava à beira da morte. Todos corriam até o apartamento onde Di morava sozinho, na rua do Catete, no Rio de Janeiro, e o encontravam com inesperada disposição. Segurando o copo de uísque com uma mão e ajeitando a cabeleira branca com a outra, ele consumava mais uma de suas estripulias: "Só preciso de uma boa companhia." Era em busca delas que circulava com a mesma desenvoltura entre rodas de intelectuais ou aristocratas paulistas, bem como nos bordéis da Lapa - os amigos o flagraram no prostíbulo jogando uma partidinha de buraco com uma das moças da casa.

Um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna, de 1922, em São Paulo, Di é considerado o pintor modernista que melhor retratou os valores essencialmente populares de nossa cultura. Em sua obra, mulatas sensuais e pescadores robustos ocupam o primeiro plano. A paisagem predileta do artista são as gafieiras, as festas de rua dos subúrbios cariocas e as areias escaldantes da praia. Nascido a 6 de setembro de 1897, na casa do líder abolicionista José do Patrocínio (cunhado de sua mãe), no Rio de Janeiro, Emiliano de Albuquerque Mello não gostava de complicações. "Meu nome é Di Cavalcanti", simplificou, usando um sobrenome de família que não constava de sua certidão. Aprendeu a ler e a pintar precocemente. Ainda criança, estudou piano com Major Rocha, o compositor de Vem cá, mulata, assanhada marchinha de Carnaval.

Entoando a Marselhesa É provável que tenha nascido aí a paixão, depois apimentada nos carnavais do Rio, pelas figuras sensuais que tomariam de assalto seus quadros. O primeiro emprego foi como caricaturista da revista Fon-Fon. Em 1916, apresentou seus trabalhos no 1º Salão dos Humoristas. No ano seguinte estava em São Paulo, escrevendo artigos para os jornais. Entrou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, mas abandonou o curso logo no início. O que fascinava Di eram as artes e o turbulento cenário mundial. Identificados com a causa francesa na Primeira Guerra Mundial, ele e o poeta Ribeiro Couto entraram no Consulado da França entoando a Marselhesa. O diplomata de plantão agradeceu o espírito guerreiro dos dois e explicou que não existia voluntariado aberto. Di não se conformou. Acertou com o Correio da Manhã mandar crônicas e rumou para Paris. Mas preferiu a efervescência cultural aos campos de batalha. Conheceu Matisse, Max Ernst, Léger, uma convivência que o amadureceu e aprimorou sua técnica.

Foi um amante irremediável. Apesar de quatro romances avassaladores, teve apenas uma filha adotiva, Elizabeth. A exemplo de Picasso, seu interlocutor nos cafés parisienses, encontrou a felicidade definitiva com uma mulher muito mais jovem. Ivette Bahia Rocha tinha 23 anos quando se envolveu com Di, então com 62. O namoro começou em 1959 e durou 15 anos. "O Di era de um apetite sexual insaciável, conhecemos todos os motéis da época", contou Ivette a ISTOÉ. O Mestre e a Divina, como se chamavam, amarguraram um ano de exílio na França. Di havia sido nomeado adido cultural pelo presidente João Goulart e desembarcara em Paris no dia 31 de março de 1964, véspera do golpe militar. Depois de uma longa noite em um bistrô com Vinícius de Moraes, foi acordado no dia seguinte pelo poeta. "Os militares tomaram o poder", recebeu a má notícia. Custou a acreditar que não era brincadeira de 1º de abril.

O pudor dos quadros Militante de esquerda, foi detido quatro vezes, "três por atividades subversivas e uma por ter partido a cara de um condutor de bonde". Cronista e poeta, escreveu dois livros de memórias e se dizia frustrado por não ter entrado na Academia Brasileira de Letras. Morreu a 26 de outubro de 1976 e as cenas do velório foram filmadas pelas lentes de Glauber Rocha, para desespero da filha, que proibiu a exibição da fita, indignada com a confusão armada pelo cineasta. O próprio Di, entretanto, nunca perdeu a irreverência, como testemunhou o pintor pernambucano José Cláudio da Silva. Como ajudante de Di, ele morou com o mestre no apartamento da avenida São João, na capital paulista, em 1955. No dia seguinte à sua chegada, abriu a cortina da janela assim que acordou. Di correu nervoso e alertou o ajudante: "Não faça isso. O quadro é como uma mulher. Não se pode tirar a roupa dela em público. Uma pintura tem também seu pudor, suas intimidades." E cerrou as cortinas.

VOCÊ SABIA? Deu entrada no hospital com fortes dores no peito e esbarrou numa enfermeira que insistia em preencher a ficha antes de socorrê-lo. "Não sabe quem é Di Cavalcanti?" Furioso, tomou um táxi de volta para casa. A dor passou num instante.

OBRA DE ARTE:
· Samba (1925) - acervo particular
· As cinco moças de Guaratinguetá (1930) - Masp
· Mulheres com frutas (1932) - acervo particular
· Os colonos (anos 40) - Museu Nacional de Belas Artes - RJ
· Pescadores (1951) - Museu de Arte Contemporânea da USP