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O Brasileiro do Século

3) BURLE MARX
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A sorte de Roberto Burle Marx foi morar no Leme, na zona sul carioca, no início dos anos 30, em frente à casa do arquiteto Lúcio Costa. Burle Marx era um jovem de 23 anos que passava boa parte do tempo cuidando de um jardim que atraía a atenção dos vizinhos. Costa era apenas um dos que perdiam minutos diários admirando as plantas cultivadas com um esmero incansável. Numa manhã de 1932, tocou a campainha e propôs que Burle Marx elaborasse o projeto paisagístico de uma casa projetada por ele para a família Schwartz, em Copacabana. O jovem aceitou no ato.

Naquele tempo, não imaginava que, 60 anos depois, teria em seu currículo cerca de dois mil projetos no mundo inteiro. Muitos foram feitos para mansões particulares, mas o artista preferia se dedicar aos parques públicos. "Devolvem às pessoas o verde que a cidade lhes roubou." Reconhecido internacionalmente como paisagista, desagradava a crítica quando se arriscava na pintura. Entretanto, era de seu feitio não dar a menor trela para opiniões alheias. Ele pintava mesmo assim e muito bem, obrigado. Foi também designer, arquiteto, tapeceiro e pioneiro da ecologia no Brasil. Antes de pensar em ser tudo isso, sonhava com uma brilhante carreira de cantor lírico. A voz de tenor aprazia os amigos, para quem ele cantava árias de suas óperas preferidas.

Carioca de espírito Paulistano, nascido a 4 de agosto de 1909, dizia-se um "carioca de espírito". Filho do alemão Guilherme Marx e da pernambucana Cecília Burle, mudou-se com a família para o Rio aos quatro anos e só abandonou a cidade para morar na Alemanha, dos 19 aos 22 anos. Ironicamente, foi lá, onde estudava música, que conheceu a flora brasileira, enquanto passeava pelo Jardim Botânico de Dahlen.

"Não era um deslumbrado, daqueles que suspiram quando vêem um pôr-do-sol. Amava a natureza de um jeito simples e lutava com todas as suas forças contra o desmatamento", disse a ISTOÉ Robério Dias, ex-aluno que hoje dirige o Sítio Burle Marx, em Barra de Guaratiba, no Rio. No início dos anos 70, mudou-se em definitivo para o sítio comprado em 1949. "Só faço jardim para os outros e não tenho nenhum para mim", disse na época, com seu peculiar bom humor. Tinha o sonho de transformar a área num centro de referência para estudos de botânica. Em vida, cultivou 3,5 mil espécies de plantas no terreno de 365 mil metros quadrados.

A paixão e a curiosidade pela natureza eram tão grandes que Burle Marx costumava organizar excursões semestrais pelos quatro cantos do País, empenhado em descobrir a flora brasileira. Fez verdadeiras missões par ao Pantanal, a Amazônia, o sertão nordestino, o Paraná e onde mais pudesse chegar com sua "frota" (um ônibus, três carros e um pequeno caminhão). A comitiva era formada por amigos, parentes, botânicos, estagiários, curiosos e quem mais quisesse ir. Mobilizava, além dos convidados, uma dezena de auxiliares para transportar as plantas para o Rio. "A turma chegava cansada. Ele era o primeiro a pular do ônibus, cheio de animação", lembra Robério. Tanta dedicação valeu a pena: catalogou 46 novas plantas.

Em 1994, uma tentativa de sequestro o deixou profundamente deprimido e pode ter contribuído para abreviar a vida de Burle Marx. Homens armados invadiram o sítio, mas a operação dos bandidos foi frustrada pelos seguranças da casa. Três meses depois, médicos diagnosticaram um câncer no abdômen do paisagista. Morreu a 4 de julho, aos 84 anos, deixando tudo o que tinha de herança para os funcionários.

VOCÊ SABIA? Batendo papo com duas clientes, as madames falavam sobre os gostos musicais de suas plantas. "A minha roseira ama Beethoven", dizia uma. "A minha só ouve Mozart", achava a outra. Perguntaram: "E as suas, Roberto, gostam do quê?" Ouviram a resposta mal-educada: "As minhas? De cocô, estrume, conhecem?"

OBRA DE ARTE:
· Parque do Flamengo (1961) - RJ
· Jardim interno da sede da Unesco (1963), Paris.
· Jardim do Palácio do Itamaraty (1965) - Brasília.
· Canteiro central e calçadão da praia de Copacabana (1970) - RJ