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2) Candido Portinari
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dos votos
Pai, não
quero mais ninguém se sacrificando aí em casa. Pode
vender a fabriqueta de cadeiras porque, de agora em diante, vou
mandar dinheiro todo mês, entendeu bem?" Seu Batista
entendeu, afinal, o que "Candinho" falava era lei. Junto
com dona Dominga, o velho passaria o resto da vida descansando e
fumando seu cigarro de palha. Depois de tanta labuta na colheita
de café, e mais tarde na fábrica, nada mais justo
que os dois vivessem com tranquilidade. "Candinho era generoso
e não gostava de ver ninguém sofrer", contou
a ISTOÉ a irmã caçula Ínes, que morou
com o pintor durante 20 anos.
A infância
pobre em Brodowsqui, no interior paulista (340 quilômetros
ao norte da capital), fez de Candido Portinari um artista preocupado
em reproduzir as agruras do homem brasileiro. Em mais de cinco mil
obras, entre afrescos, óleos e desenhos, ele retratou a vida
bucólica do interior, a miséria dos retirantes nordestinos
e o folclore das festas populares, além dos santos preferidos
da população. A arte sacra é um capítulo
à parte na trajetória de "Candinho". Apesar
de comunista de carteirinha - esta, aliás, lhe foi dada por
Luís Carlos Prestes -, não era ateu. Guardou para
sempre a herança católica da avó Pellegrina,
que passava as noites contando terríveis histórias
sobre o inferno para a prole de dona Dominga - 12 crianças
que não dormiam de tanto medo. A casa onde morou, transformada
em museu em 1970, abriga no quintal La Capella de la Nonna, que
mandou construir para dona Pellegrina. Nas paredes do oratório,
pintou em afrescos alguns santos usando os parentes como modelos.
Viva a professora!
O talento era nato. Aos nove anos, copiou de uma estampa de maço
de cigarro a figura do maestro Carlos Gomes no caderno da escola.
"Tem que mandar esse menino para o Rio de Janeiro estudar pintura!",
concluiu a professora. De fato, fez as malas assim que completou
15 anos (nasceu a 3 de agosto de 1903). "No começo,
a vida não foi fácil no Rio, mas ele se entregou à
arte, como faria até a morte", disse a ISTOÉ
o único filho, João Candido. Cursou a Escola Nacional
de Belas Artes na antiga capital do País, embora desprezasse
a arte acadêmica.
Quem o conheceu
não sabe explicar de onde vinha tanto charme. Era um sujeito
tão baixo - 1,54m - que precisava de escada para pintar até
as menores telas. Quando nasceu, mirrado, assustou os parentes-
"Se eu soubesse que não tinha nada para ver nem teria
vindo", brincou uma tia que foi conhecer a criança.
Míope, usava óculos de fundo-de-garrafa. Era calvo
e tinha uma perna mais curta que a outra. Embora elegante e bem-humorado,
guardava certo ranço. "Um amigo do Manuel Bandeira me
passou uma cantada e ele só faltou voar no pescoço
dele. Não me deixava sair de casa por ser moça da
roça", lembra a irmã Ínes.
Dormia até
tarde e roncava tão alto que era motivo de piadas na vizinhança.
Só tomava o café da manhã se a esposa, Maria,
com quem viveu 30 anos, levasse na cama. Depois de ler todos os
jornais de cabo a rabo, incluindo os anúncios, ia trabalhar
no ateliê. Metódico, abandonava a pintura só
na hora das refeições ou para receber amigos. Se o
sujeito chegasse ao anoitecer, só saía no dia seguinte.
As noitadas eram regadas a macarronada e vinho, que o anfitrião
não podia beber devido a males digestivos crônicos.
"Era psicológico, hoje a gente sabe. Bastava sair do
País para que ele comesse e bebesse de tudo sem passar mal",
lembra a irmã, que preparava torradas puras, sem manteiga.
A tristeza com a separação de Maria, em 1960, só
fez piorar os distúrbios gástricos. Em fevereiro de
1962, intoxicado por produtos químicos das tintas que usava
para trabalhar, foi intenado numa clínica carioca e morreu
alguns dias depois. Entre seus pertences, foi achado um poema em
que ele expunha sua curiosidade: "A morte será colorida?
Qual a cor do outro lado?"
VOCÊ
SABIA? Quando estava trabalhando, ficava tão concentrado
que não deixava cair uma gota de tinta sequer no chão
do ateliê. Se tinha compromisso à noite, vestia a roupa
chique logo pela manhã só para não ter trabalho
depois. Era comum encontrá-lo de smoking e pincel na mão.
OBRA DE ARTE:
· O café (1935), Museu Nacional de Belas Artes
- RJ
· Os retirantes (1944), Masp - SP
· Tiradentes (1949), Memorial da América Latina -
SP
· A paz (1956), sede da ONU, Nova York.
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