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O Brasileiro do Século

19) BRUNO GIORGI
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Na década de 40, um milionário paulistano encomendou a Bruno Giorgi dois pinguins esculpidos no gelo para guardar gordas porções de caviar durante um banquete. A encomenda foi entregue, mas não durou até o final da festa. Em pouco tempo, o caviar estava esparramado pela mesa e o anfitrião xingava o artista com toda a força de seus pulmões. No dia seguinte, o homem mandou avisar Bruno que não pagaria um tostão pelo trabalho e que a conta do caviar desperdiçado estava chegando para ele pagar.

Esta era uma das poucas histórias que o escultor Bruno Giorgi contava. "Ficava dias inteiros na sala de estar sem conversar, lendo e fitando o vazio", contou a ISTOÉ Jones Bergamin, um dos raros amigos do escultor. Vez por outra, o artista soltava algumas frases que pareciam resultado de horas de elaboração. "O creme não compensa" era uma delas, que dizia quando lhe ofereciam café com creme de leite, que ele detestava.

Era ensimesmado, mas não caipira. Embora fosse nascido no interior de São Paulo (em Mococa) a 13 de agosto de 1905, era um cosmopolita. Aos seis anos, mudou-se com os pais (um casal de italianos) e os dois irmãos para Roma. No início dos anos 30, foi a Paris estudar as técnicas da escultura com Aristide Maillol e, de volta ao Brasil, em 1939, construiu uma das mais importantes trajetórias da arte brasileira. Em 40 anos de profissão, esculpiu centenas de dorsos femininos - seu tema preferido - e obras que se tornariam cartões-postais do País, como Os Candangos, monumento símbolo de Brasília.

"Era anarquista em tudo o que pensava e anárquico em tudo o que fazia", disse a ISTOÉ Leontina, a esposa que viveu com Bruno durante 23 anos - o filho do casal nasceu quando o artista tinha 78 anos. A militância no Partido Comunista lhe valeu cinco anos de prisão na Itália, de 1931 a 1935. "Levou as idéias libertárias até para o trabalho. Não tinha a menor organização e nem se preocupava em guardar ou rever obras. Quando não gostava, simplesmente as desmanchava", lembra Leontina. Num canto do ateliê, ele se encolhia e passava horas lambuzando as mãos de barro e lapidando o mármore. O pó do mármore causou danos aos brônquios, já que ele nunca usou uma máscara de proteção. Debilitado, morreu aos 88 anos, de parada cardíaca no Rio de Janeiro.

VOCÊ SABIA? Meteoro, esfera em mármore de 50 toneladas, foi trazida da Itália para Brasília. Um guindaste não suportou o peso e a escultura parou a 20 cm da cabeça de Giorgi. O susto foi tanto que o artista ficou de cama com febre uma semana.

OBRA DE ARTE:
· Monumento à juventude (1946) - Palácio da Cultura - RJ
· Candangos (1960) - Praça dos Três Poderes - Brasília
· Meteoro (1968) - Ministério das Relações Exteriores - Brasília
· Condor (1978) - Praça da Sé -SP