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17) LYGIA CLARK
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A artista plástica
mineira Lygia Clark acreditava que arte e terapia psicológica
andavam de mãos dadas. Tanto que, com base em objetos manuseáveis
que criava ou recolhia da natureza, como balões de ar, sacos
de terra e água e até pedras, pensava ter o dom de
curar os males da alma. Certa feita, uma aluna entrou em transe
profundo e caiu desmaiada, durante uma das sessões da arteterapia
de Lygia, na Sorbonne, em Paris, na década de 70. Dando graças
a Deus que não era nada grave, a artista explicou que a jovem
não tinha o preparo psicológico necessário
para suportar os exercícios de sensibilização
e relaxamentos, que "liberavam os conteúdos reprimidos
e a imaginação" dos alunos.
Aqueles instrumentos,
que nas mãos de Lygia assumiam poderes imprevisíveis,
eram chamados por ela de Objetos sensoriais. Tais objetos
nunca foram vistos por bons olhos por psicanalistas franceses e
brasileiros, porque ela não tinha formação
acadêmica na área. Lygia, por sua vez, não deixava
ninguém sem resposta. Comprava briga com qualquer um que
ousasse falar mal de seu trabalho, que tinha por trás conceitos
dos mais sofisticados, elaborados por ela mesma.
Nascida na Belo
Horizonte de 1920, numa tradicional família mineira, esqueceu
tudo o que aprendera no colégio de freiras Sacre-Coeur depois
que resolveu virar pintora, em 1947. Naquele ano, mudou-se para
o Rio, decidida a estudar pintura com Roberto Burle Marx. Até
juntar-se ao amigo e também artista plástico Hélio
Oiticica, na década de 50, não ousava em sua arte.
Com Oiticica, entretanto, aventurou-se em grupos de vanguarda como
o Frente, de Ivan Serpa, e os neoconcretos, que incluíam
o poeta Ferreira Gullar.
"Detesto
ler, gosto mais é de encher a cara e jogar biriba",
dizia Lygia. Definitivamente, não era uma mulher como as
outras de seu tempo - aquelas que só sabiam bordar e cozinhar,
além de cuidar do marido e dos filhos. Não que ela
nunca tivesse feito isso, pelo contrário. Casou virgem aos
18 anos, com o engenheiro Aloisio Ribeiro, e foi mãe de três
filhos. Mas o tempo passou e Lygia foi se dedicando cada vez mais
ao trabalho, até que foi devidamente recompensada, nos anos
60, quando ganhou reconhecimento internacional. Não como
pintora, é verdade, mas por suas experiências terapêuticas.
Na década
de 70, rejeitou o rótulo de artista e exigiu ser chamada
de "propositora". Deu aulas na Sorbonne, de 1972 a 1977,
e voltou ao Brasil em 1978 para dar consultas particulares. Dez
anos depois, morreu de parada cardíaca. Estava com 68 anos
e deixou uma legião de seguidores que não se cansam
de reinventar sua arte.
VOCÊ
SABIA? Corajosos eram os que se atreviam a frequentar suas sessões
de arteterapia na década de 70. Segundo Lygia, seu método
para a "liberação dos conteúdos reprimidos"
era tão eficiente que homossexuais viravam heterossexuais
e vice-versa.
OBRA DE ARTE:
· Caminhando (1964)*
· Pedra e ar (1966)
· Nostalgia do corpo (de 1965 a 1988)
· Canibalismo (1973)
(*) Todas as obras de acervo particular.
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