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O Brasileiro do Século

12) LINA BO BARDI
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O prédio do Museu de Arte de São Paulo, famoso pelo impressionante vão de 78 metros de comprimento, no topo da avenida Paulista, contrasta com os arranha-céus de estilo yuppie. Um palácio de concreto e vidro, com área de dez mil metros quadrados, apoiado em apenas quatro pilares de oito metros de altura, o edifício é uma gota de racionalidade em meio a um oceano de mau gosto. Bastaria que Lina Bo Bardi, italiana naturalizada brasileira, tivesse projetado o Masp para assegurar um lugar de honra entre os arquitetos do século. Mas ela fez muito mais. De sua prancheta nasceram, por exemplo, o centro de lazer Sesc Fábrica da Pompéia e a sede da prefeitura da capital paulista, no Parque Dom Pedro II, na zona leste da cidade. Quando analisava a própria obra, entretanto, rendia-se à modéstia. "Talvez a mais importante seja a capelinha miserável em Uberlândia, feita sem dinheiro, com os padres franciscanos e as prostitutas."

Antifascista Lina nasceu a 5 de dezembro de 1914, em Roma. As lembranças de infância sempre lhe pareceram insuficientes para uma auto-biografia que não chegou a escrever. "O que eu queria era ter história. Com 25 anos, queria escrever memórias, mas não tinha matéria." Logo após formar-se em Arquitetura, na Faculdade de Roma, em 1940. Lina trabalhou no escritório do célebre arquiteto Gió Ponti, diretor das Trienais de Milão e da revista Domus. "Eu não vou pagar você, você é que tem de me pagar", avisou ele. E Lina trabalhou das oito da manhã à meia-noite, sábados e domingos inclusos, desenhando desde xícaras, cadeiras e roupas até projetos urbanísticos. Era diretora da revista de Ponti quando resolveu entrar para a Resistência antifascista.

País inimaginável Esta militante que se definia como "stalinista, militarista e antifeminista" apaixonou-se pelo marchand Pietro Maria Bardi, que um dia apareceu na redação da Domus para lhe conceder uma entrevista. "Não queria casar, mas é chato se hospedar num hotel juntos sem se estar casado", justificou. No final de 1946, Pietro aceitou o convite de Assis Chateaubriand, empresário das comunicações no Brasil, para criar um museu em terras tropicais. "Para quem chegava ao Rio de Janeiro pelo mar, o edifício do Ministério da Educação (obra de Lúcio Costa) avançava como um grande navio branco e azul contra o céu. Me senti num país inimaginável, onde tudo era possível." O museu deveria ser erguido em São Paulo, "onde estava o dinheiro", embora Lina considerasse a capital paulista "confusa, sem lugar para passear".

Em 1951, o casal naturalizou-se, finalmente. Chateaubriand conseguiu o dinheiro para o projeto do Masp, inaugurado em 1968. Lina não se limitou, no entanto, a produzir obras na capital paulista. No final dos anos 50, por exemplo, o governador da Bahia, Juracy Magalhães, convidou Lina para fundar o Museu de Arte Moderna em Salvador. O edifício pegou fogo no dia da inauguração. Ela não esmoreceu e, 30 anos depois, dedicou-se à restauração do centro histórico de Salvador. A falta de verba impediu que ela completasse o trabalho. Entre as obras que conseguiu concluir, estão a Ladeira da Misericórdia, a Casa do Olodum e a Fundação Pierre Verger.

Lina e Pietro viviam na Casa de Vidro, um projeto inusitado de Lina, construído em 1950 no bairro do Morumbi, em São Paulo, cercado por oito mil metros quadrados de Mata Atlântica. "Quando nos mudamos, havia até bicho-preguiça lá." Lina morreu a 20 de março de 1992, de embolia pulmonar, aos 77 anos, e suas cinzas foram depositadas numa das paredes da Casa de Vidro. "Eu não nasci aqui, escolhi este lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, é minha 'pátria de escolha', e eu me sinto cidadã de todas as cidades, desde o Cariri ao Triângulo Mineiro, às cidades do interior e às da fronteira", escreveu Lina.

VOCÊ SABIA? Lina era também grande arquiteta na cozinha, embora não soubesse picar um tomate sequer. Depois que os outros preparavam os alimentos, ela acomodava a comida nos pratos segundo padrões estéticos e arquitetônicos rigorosos.

OBRA DE ARTE:
· Museu de Arte de São Paulo (Masp) (1968)
· Sesc Fábrica da Pompéia (1977)
· Centro Histórico da Bahia (1986)
· Palácio das Indústrias - Prefeitura de São Paulo (1992)