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O Brasileiro do Século

10) IBERÊ CAMARGO
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Não havia força nem razão neste mundo que tirassem a espontaneidade do artista plástico Iberê Camargo. Dizia o que pensava, sem papas na língua, doesse a quem doesse. No começo do governo de Fernando Collor, a esposa de um importante ministro telefonou para sua casa, pedindo que ele fizesse um quadro para uma quermesse a ser realizada em Brasília. O pintor recusoou, alegando falta de tempo, mas assustou-se com a insistência: "É que vamos rifar a tela", admitiu ela, ingenuamente. "Como? Queres que eu doe um quadro para rifar?", enfureceu-se. A mulher prometeu que intercederia ao Planalto para Iberê descer a rampa com o presidente. Aí foi demais. "Mande a rampa e o presidente à merda!", e desligou o telefone.

Praças do interior A explosividade do gaúcho Iberê nada tem a ver com o menino retraído nascido em Restinga Seca, a 18 de novembro de 1914. Filho de agentes ferroviários, teve uma infância solitária. A carcaça de bicho-do-mato começou a ceder aos 22 anos, quando empregou-se como desenhista na Secretaria de Obras Públicas do Estado. Enquanto projetava graças do interior, rabiscava alguns esboços. Suas telas foram parar nas mãos do inventor no Rio Grande do Sul, que lhe concedeu uma bolsa de estudos no Rio de Janeiro. No dia em que chegou à antiga capital federal, em 1942, Iberê foi levado para conhecer o ateliê de Candido Portinari. Percebendo que o jovem de olhos argutos e fantásticas sobrancelhas percorria seus quadros com ar de decepção, o mestre quis saber suas impressões. "Sinceramente, não gostei." E foi tomar aulas com Guignard. Cinco anos mais tarde, ganhou no Salão de Arte Moderna, como prêmio, uma viagem ao Exterior. Viveu na Europa entre 1948 e 1950, onde se tornou aprendiz do francês André Lhote e do italiano De Chirico. A amargura sugerida por sua pintura Iberê não tomou emprestada de ninguém. As cores carnais, os carretéis e as bicicletas emergiam da tela como lembranças de menino na paisagem nua dos pampas.

De volta ao Rio, Iberê já podia sobreviver da arte, ainda que sem grandes luxos. Vencedor do prêmio da Bienal de São Paulo de 1961, queixava-se da qualidade do material de pintura nacional e só usava tintas belgas. Gastava até US$ 2 mil por quadro na compra do produto. Sobrava pouco dinheiro. "Nosso primeiro imóvel foi comprado com tanto sacrifício que o Iberê se apegou à casa e não saía para nada", contou a ISTOÉ Maria Camargo, 83 anos, com quem o pintor esteve casado durante meio século. Quando saía, preocupava-se com a violência da cidade grande. Pensava em aprender judô ou caratê, mas uma hérnia de disco o impediu. Comprou, então, um revólver para se defender. Era o dia 5 de dezembro de 1980 quando aconteceu a maior tragédia na vida de Iberê, uma sexta-feira negra que o atormentou até os últimos dias. O pintor deixou o ateliê mais cedo, à procura de uma loja de cartões natalinos. Quando dobrava uma esquina no bairro de Botafogo, parou para observar a discussão de um casal. O marido, vestindo apenas um calção, irritou-se: "O que é que está olhando?" Após um empurra-empurra, Iberê e o desconhecido caíram no chão. Assustado, Iberê sacou a arma e matou o homem. Detido na hora, passou um mês na prisão, até receber habeas-corpus. No julgamento, prevaleceu a tese de que agira em legítima defesa.

Nocautes de sábado Submergindo num naufrágio inelutável, bombardeado pela imprensa e abandonado pelos falsos amigos, resolveu fazer as malas e voltar para Porto Alegre. Trancava-se em casa para atravessar madrugadas pintando. Aos sábados, também passava a noite em branco, mas era para ver as lutas de boxe na televisão. Mantinha aversão à tecnologia e morria de medo de trocar lâmpadas. Falava do Brasil com profunda desilusão. "É melhor apearmos o trem da história." Não gostava de cachorros nem de crianças (teve apenas uma filha, Gerci, fruto de um romance passageiro na década de 30). Renovou as amizades, mas encontrou o verdadeiro companheirismo em 1983, no gato Martim - "meu cucuruco", como o chamava. O pintor colocava o bichano no bolso do macacão enquanto preparava seus quadros e fazia questão que Maria pusesse um prato de comida para o gato na mesa de jantar. "O animal é melhor do que o homem, que hoje come na tua mesa e amanhã te faz velhacaria", comparava. Apesar do câncer que se espalhava por seu corpo, dizia que viveria até os 200 anos. Provavelmente, pintando. No leito da morte, fez cinco desenhos incompreendidos pelos amigos. E ainda requisitou uma espátula para retocar sua última tela, Solidão, iniciada alguns dias antes. Iberê faleceu a 9 de agosto de 1994. O gato Martim morreu alguns meses depois, tão silencioso e amargurado quando o dono.

VOCÊ SABIA? Apreciava as boas comédias do cinema, mas se irritava com o barulho e os movimentos do espectador sentado na poltrona de trás. Para evitar chutes e joelhadas nas costas, Iberê encontrou uma solução inusitada: pagava uma entrada a um amigo, que era obrigado a assistir ao filme inteiro atrás dele, quietinho e sem se movimentar.

OBRA DE ARTE:
· Pássaro (1971), acervo particular
· Fantasmagoria (1987), coleção Maria Camargo
· Ciclistas (1989), coleção Maria Camargo
· Maria (1990), acervo particular
· No vento e na terra I (1991), Centro Cultural Aplub, Porto Alegre.