Esporte
Música
Artes Cênicas
Literatura
Arquitetura & Artes Plásticas
Religião
Ciência, Tecnologia & Educação
Comunicação
Justiça & Economia
Empreendedor
Líderes & Estadistas
O Brasileiro do Século

1) Oscar Niemeyer
82,66% dos votos

 

O sol de Copacabana inunda de luz o escritório de paredes brancas de Oscar Niemeyer na cobertura do velho edifício Ypiranga, na avenida Atlântica. As janelas envidraçadas expõem o mar e as montanhas da paisagem de cartão-postal na manhã esplendorosa do outono carioca. O arquiteto está no corredor que conduz à sala dos fundos, silencioso, ausente, entregue a si mesmo, levemente encurvado sobre a prancheta. "Não me chama de senhor. Não sou senhor-de-engenho, como dizia Prestes." No porta-retratos sobre a mesa, vê-se o líder comunista Luís Carlos Prestes, em local indefinido (um ato de protesto, presume-se) e data incerta (o rosto é jovem e altivo). "Repara o queixo dele, está sangrando, tinha acabado de levar um murro." Agora que os olhos se habituaram à intensa luminosidade matinal, dá para ler as palavras de ordem riscadas nas paredes do enorme salão de Niemeyer - "Quando a vida se degrada e a esperança foge do coração dos homens, a revolução é o caminho a seguir", por exemplo. Não é necessário ser perito de alguma polícia secreta para adivinhar o autor do crime. O traço irregular, como se fosse pontuado de minúsculas e infinitas curvas, o denuncia.

Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares, carioca nascido a 15 de dezembro de 1907, fala com a voz pausada e em baixo volume, como convém a um homem de 91 anos. - "Alcaçar essa idade é uma merda, mas é bom." Sua obra, esta sim, é grandiosa, eloquente, carece de pruridos ideológicos. Os projetos acanhados, econômicos, ele soube evitar: "A idéia de simplicidade arquitetural é demagogia."

Curva livre e sensual Sobretudo, esquivou-se a vida toda do enfadonho e monótono ângulo reto. "Também não me atrai a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas de meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida." Mais de 400 projetos saíram de sua prancheta. Há pelo menos 180 edifícios com a assinatura de Niemeyer no Exterior. No Brasil, ele se faz presente em oito capitais e mais de 30 municípios do interior. A seu respeito foram escritos três dezenas de livros em oito idiomas, incluindo japonês e grego. Não é só o arquiteto brasileiro mais importante do século. É um dos cinco ou seis gênios da raça paridos em 500 anos de História. Certa vez, o antropólogo Darcy Ribeiro comentou: "A gente imagina que, daqui a 300 anos, ainda vão falar de nós, mas é ilusão. Vão lembrar só do Oscar. Sempre haverá alguém estudando a obra dele." Com faíscas saindo dos olhos, como era habitual, Darcy bem podia ter acrescentado: "E estarão todos paralisados de espanto!"

As montanhas nos olhos Niemeyer segue à risca o dogma que roubou do poeta francês Charles Baudelaire: "O inesperado, a irregularidade e a surpresa são parte essencial e característica da beleza." Em 1936, quando o suíço Le Corbusier (teórico número 1 da arquitetura moderna) saltou de um zepellin para ajudar a construir o edifício do Ministério da Educação, se impressionou com o jovem Niemeyer: "Esse moço tem as montanhas do Rio nos olhos." Ele era um aprendiz que, alguns anos antes, convencera o arquiteto Lúcio Costa a estagiar de graça em seu escritório. Para falar a verdade, Niemeyer queria pagar para trabalhar. "Era simpático, mas não mostrou talento. Na época, não apostaria um tostão nele", diria Lúcio Costa anos depois. Niemeyer aprendeu depressa a lição básica: com o advento do concreto armado e das estruturas de metal, a parede não precisava mais cumprir o dever milenar de sustentar o peso do prédio e, com isso, ganhara salvo-conduto para ser, antes de tudo, bela. "Essa idéia me libertou", diz Niemeyer.

"Pensando bem, nada disso importa" - ele muda de assunto de repente. "O importante é melhorar o ser humano, sentir a própria fragilidade." A idéia de que os homens são casas antigas que precisam ser reformadas é uma obsessão. E de todas as casas, a de alicerces mais firmes na memória é a de Laranjeiras, onde viveu até os 20 anos. A família era muito católica - a avó Mariquinhas abria a janela e chamava os vizinhos para rezar missa em casa. O avô Ribeiro de Almeida foi procurador-geral da República e ministro do Supremo Tribunal Federal. "Morreu pobre e deixou a casa hipotecada. Que orgulho! Há tantos roubando dinheiro público hoje." A juventude ele gastou nos cabarés da Lapa. "Ficava olhando o mulherio e tocando bandolim." No Café Lamas, no Flamengo, o garçom Orelha fazia a gentileza de telefonar de manhã cedo para acordá-lo. Outro prazer era o Fluminense. Chegou a jogar a preliminar de um Fla-Flu. "Era um bom atacante", ele jura. Mas a paixão arrefeceu. "É time de grã-fino." A farra diminuiu quando casou com Anita, com quem teve uma filha (tem cinco netos, nove bisnetos e dois trinetos).

O poder público foi sempre seu principal cliente. Trabalhou para vários políticos de vários matizes - Leonel Brizola, Orestes Quércia e Paulo Maluf, entre outros. Fernando Henrique Cardoso não é dos preferidos: "Não o aprovo. Sou do tempo de berrar que o petróleo é nosso." O predileto foi Juscelino Kubitschek, que conheceu em 1940, quando JK era prefeito de Belo Horizonte e o chamou para construir o bairro da Pampulha. "Era um príncipe da Renascença." Nos anos 50, para implantar Brasília, alguém do governo prometeu a Niemeyer uma "comissão". Ele se enfureceu. "Era como se a palavra exalasse corrupção. Depois soube que se referia à comissão usual paga aos arquitetos." Com salário de 40 mil cruzeiros, absolutamente ridículo para a monumental tarefa, Niemeyer exigiu que o governo contratasse um punhado de amigos que, à primeira vista, nada tinham a ver com a obra. Havia um goleiro do Flamengo e mais quatro companheiros "que estavam na merda e eu queria ajudar", confessa.

Mão-aberta A fama de mão-aberta ele ganhou em 1945 ao dar a chave do escritório a Prestes, que acabara de sair da masmorra do Estado Novo, para ele montar a sede do PCB. Não faz muito, deu R$ 7 mil ao porteiro do prédio onde mora. O homem tinha câncer e queria realizar o sonho da casa própria. Sustentou anos a fio Trifino Correa, militar ligado ao PCB. "Estava em situação desesperadora. Ao ganhar aumento de soldo, pediu para baixar a ajuda de custo. Isso é que é honestidade!" A mais famosa história de desapego é a do apartamento que deu não ao Partidão, mas ao próprio Prestes, no início dos anos 80. Quando Prestes pediu o boné no PCB, saiu com ele. "Estar de bem com os amigos é o que importa. Não dá para ficar sozinho, porque a vida é perversa, não tem solução", especula, os olhos castigados pelo sol da janela. "Se fosse rico, morreria de vergonha", completa, antes de proibir que se fotografe a cadeira de espreguiçar, cheia de ondas, que ele desenhou, exceto se o Pão de Açúcar estiver ao fundo. É como se a cadeira existisse apenas para compor a paisagem tropical de uma beleza que cega, justamente ali, no escritório do velho edifício Ypiranga, em Copacabana.

VOCÊ SABIA? Pediu ao prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, que entregasse uma carta a Fidel Castro. Nela, informava ter indicado o líder cubano ao Prêmio Lenin da Paz. Fidel coçou a barba e ficou alguns minutos quieto ao ler a mensagem. "Parece mentira. Só restaram dois comunistas no mundo. O Niemeyer e eu."

VOCÊ SABIA? Sentiu que os reflexos dos lampiões pareciam embaraçar a vista. Pensando estar em vias de ficar cego, bateu à porta do consultório médico do irmão, Paulo. "Espera aí. Me dá esses óculos", pediu Paulo. Limpou as lentes sujas de poeira na própria camisa e as devolveu a Niemeyer. "Pronto. Está curado."

OBRA DE ARTE
· Pampulha - BH (1940)
· Sede da ONU - Nova York (1947)
· Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Catedral - Brasília (1960)
· Memorial da América Latina - SP (1987)
· Museu de Arte Contemporânea - Niterói (1991)