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04/05/2001

O tirano é nosso

Francisco Alves Filho*

Formou-se um grande caruru político-cultural com o apoio de baianos famosos ao senador Antonio Carlos Magalhães. Nesse caldeirão mergulharam Gal Costa, Acelino Popó, Carlinhos Brown, Carla Perez, Zélia Gattai e outros tão díspares quanto estes. Os argumentos para o gesto de solidariedade ao senador desamparado poderiam muito bem ser usados no programa Casseta e Planeta. "Querem calar a voz do responsável por todas as belezas da Bahia", retumbou Zélia, colocando Deus no seu devido lugar: o de mero coadjuvante de ACM. Já Gal defende o parlamentar por sua até então pouco conhecida militância social. "Ele mostrou ser um político sensível ao aprovar projetos de interesse coletivo, principalmente em benefício dos mais pobres", desafinou. Para os que ficaram perplexos com esse inesperado apoio, basta a crítica, a discordância. Mas é preciso cuidado. Contra quem reclama da posição de Zélia, Gal e Cia., os carlistas brandem uma acusação intimidatória nesses tempos politicamente corretos: é patrulha ideológica.

Deve-se, então, colocar as coisas em seus devidos lugares. A discussão sobre a violação do painel do Senado não tem nada de ideológica. Ninguém está debatendo sobre direita, esquerda, marxismo ou liberalismo. A reportagem de ISTOÉ, assinada por Mino Pedrosa e Andrei Meireles, em que se revela o conteúdo da conversa de ACM com três procuradores da República, não trata do apoio que ACM deu à ditadura militar ou do seu passado político. Trata da prática de um delito que requer punição. Tanto não há coloração ideológica nesse episódio que um dos cassáveis é José Roberto Arruda, até há pouco líder do governo tucano no Senado. Costuma-se considerar regra básica na vida em sociedade que todo autor de delito deva sofrer punição. O que Zélia, Gal e cia. reivindicam é que o cacique baiano receba a bênção da impunidade pelo simples fato de ser amigo. "Devemos lutar pelos nossos amigos, sejam eles como forem, generosos ou não", argumentou a mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, dona Canô. Poderia ela acrescentar: "sejam eles honestos ou não".

Essa atitude revela um vício antigo da elite brasileira. Seja a picaretagem de que nível for - política, cultural, criminal -, tudo se ameniza pela amizade, pelo aperto de mão, pela convivência freqüente nos salões onde acontecem os rega-bofes das socialites e dos políticos influentes. Os radicais de esquerda contemporizam com os direitistas, reacionários e progressistas aparecem abraçados nas fotos das colunas sociais. Imagine-se de quantas reuniões Zélia, Gal, Popó, Carlinhos Brown, dona Canô e ACM já não participaram juntos, quantos vatapás não dividiram na mesma mesa. Quem sabe quantos favores, mimos ou gentilezas o senador teria concedido a eles? O troco desses anos de convivências vem agora. É a lógica da amizade acima de tudo. Até mesmo da ética.

A continuar por esse caminho, podemos esperar para breve uma manifestação dos moradores da favela Beira-Mar, em Duque de Caxias, em solidariedade ao seu vizinho mais ilustre, o traficante Fernandinho. Afinal, ele também fez naquela comunidade muitas benfeitorias e tratava cordialmente os moradores que não atrapalhavam seu comércio ilegal de drogas. E quanto aos assassinatos, os crimes, a crueldade? Esqueça. O importante é que ele é um bom camarada.

*Editor-assistente da sucursal
de ISTOÉ no Rio de Janeiro

 
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