| JORNALISMO
FITEIRO |
22/06/2001 |
O Observatório errou
Francisco
Alves Filho
editor-assistente da sucursal do Rio de Janeiro de ISTOÉ
Caro
Alberto Dines,
De
saída informo que sou editor-assistente da revista ISTOÉ
(sucursal Rio). Essa informação é importante
para julgar a parcialidade ou imparcialidade dos argumentos que
vou defender a seguir: discordo diametralmente da opinião
expressada por você e por outros articulistas do Observatório
da Imprensa, que condenam, ridicularizam e desqualificam o aproveitamento
que a revista faz de fitas gravadas com informações
importantes.
Apesar
de trabalhar em ISTOÉ, não falo em nome do veículo
quando defendo o trabalho dos meus colegas. Apenas não consigo
suportar calado a tentativa de minimizar a importância de
reportagens que estão produzindo um verdadeiro terremoto
na história política do país. Principalmente
quando os autores das críticas são jornalistas qualificados
que erram seguidamente em seus prognósticos quanto ao resultados
do que chamam de "jornalismo fiteiro", mas persistem impavidamente
nas críticas, sem sequer citar seus próprios enganos.
Vamos a eles:
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No artigo de 20 de março [na realidade, artigo publicado
em 6/3/01, na edição nº 111 do OI], em que comenta
a reportagem de ISTOÉ que revela o teor da conversa entre
ACM e os procuradores da República, você afirma que
a mídia transformou-se em mero "reverberador de fofocas"
e que age como "barata tonta" ante esse novo conjunto
de fitas, que você classifica de "uma grande patuscada".
Como se verificou no desenrolar do episódio, não havia
patuscada - termo, aliás, ressuscitado por ex-presidente
de triste memória -, mas uma reportagem com conteúdo
substancial o bastante para guiar uma investigação
que produziu resultados concretos: comprovou-se a violação
do painel do Senado, abriu-se a porta para a cassação
de Arruda e ACM. Desculpe, meu caro Dines, mas a barata tonta da
história era o seu Observatório.
Outra
coisa: fofoca é coisa que acontece no âmbito das viúvas
desocupadas ou dos aposentados numa fila de banco. Quando o presidente
do Senado vai ao encontro de procuradores federais para falar coisas
como as que revelou ACM, a conversa deve ser classificada de outra
forma entre os jornalistas: notícia.
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No artigo de 14 de março [OI nº 112], você escreve:
"O feitiço virou contra o feiticeiro: ao contratar um
foneticista para identificar os interlocutores do encontro, ISTOÉ
não contava com a possibilidade de que este viesse a contestar
a transcrição que a revista publicara, dias antes,
de uma fita posteriormente destruída." Quanto a essas
divergências, a explicação dada pelos repórteres
era plenamente convincente. A reportagem foi feita com base numa
fita de qualidade superior, enquanto o foneticista trabalhou em
outra fita, cheia de ruídos. A versão dos jornalistas
foi posteriormente comprovada pela Unicamp, mas nem seria necessário:
uma das testemunhas da conversa, o procurador Luiz Francisco, já
confirmara que ACM tinha dito a palavra "lista". Mais
uma vez, o Observatório errou.
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Nesse mesmo texto, você identifica nos jornalistas "afoiteza
em publicar gravações clandestinas sem verificações
prévias ou investigações paralelas". Aqui,
admito minha ignorância. Como conseguiriam os repórteres
apurar se houve ou não a violação do painel?
Desconheço qualquer método de apuração
jornalística que levasse a tal resultado. Esse caso só
poderia ser esclarecido - como foi - por iniciativa do próprio
Senado, que pediu para que o sistema fosse periciado. Você
começa o último parágrafo dizendo que "desta
vez, ISTOÉ encalacrou-se". Como se viu depois, encalacrados
ficaram ACM, Arruda e, mais uma vez, esse Observatório, que
falhou redondamente na avaliação do caso.
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No artigo de 21 de março [OI nº 113], diz que Fernando
César Mesquita era um mestre fiteiro. Estranho mestre esse,
que acabou acachapando seu patrão. Fala mais uma vez que
a revista não investigou as denúncias de ACM - afinal,
como? - e defende que as informações do MP deveriam
ser divididas com todos os veículos - nada comenta sobre
o mérito dos repórteres que conquistaram a confiança
da fonte e , por conseqüência, a primazia de divulgar
as informações. Essa é a receita do furo. Diz
que no final do "rolo", acabará, enfim, o denuncismo.
Os fatos mostraram que o que você chamava de denuncismo era
na verdade denúncia da boa.
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Agora, o caso Jader. Você questiona se as fitas foram gravadas
legalmente. O questionamento é válido, mas não
tanto que impedisse a divulgação da conversa. Caso
você não saiba: pelo ponto de vista jurídico,
o jornalista pode divulgar o teor de uma gravação
ilegal, apesar desse material não ter valor de prova contra
o acusado. Mas será certamente um forte indício. Outra
dúvida sua: "A perícia não informa se
as vozes são das pessoas mencionadas". Mas os repórteres,
através de sua apuração, tiveram essa convicção.
Isso é o mais importante.
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Diz que não houve tempo para a transcrição
de toda a gravação, pois apenas um pequeno trecho
foi publicado. Ora, desde quando os meios de comunicação
têm que reproduzir a íntegra de entrevistas ou gravações?
Crítica maluca, essa... Como investigação jornalística,
a revista explicou como foi feita a transação de troca
da fazenda fantasma pelas TDAs. Você chama as denúncias
de inconsistentes e apressadas - o tempo mostrará novamente
que seu prognóstico está errado?
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Critica a matéria que diz que o senador Dutra teve acesso
à lista de votação e afirma que isso não
é problema porque toda a imprensa também teve acesso
à lista. Teve mesmo? Então por que ninguém
publicou? De onde tirou essa informação? Pois eu digo:
se o senador viu a lista de votação e não denunciou,
cometeu crime de prevaricação. Depois, reclama - com
razão - que a matéria se baseia apenas em conversas
de bastidores do Congresso. Mas também você se baseia
em meras suposições para afirmar que as informações
foram vazadas por ACM ou por algum de seus assessores. Os leitores
de seu Observatório merecem saber em que fonte, em que prova,
está lastreada tal afirmação.
Termino
pedindo desculpas por ter escrito um texto tão longo. Não
tenho procuração da revista ou dos repórteres
para fazer sua defesa, mas não agüentava ficar calado
diante de tantos artigos descabidos. Caso concorde com os erros
que apontei, proponho a criação de um Observatório
do Observatório, que terá a função de
monitorar esse veículo. Quanto às fitas, espero sinceramente
que o próximo a ter acesso a elas seja eu. 
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