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O amor bandido do PCC aqui de fora

Antonio Carlos Prado, Editor de A Semana

A existência de facções criminosas dentro de sistemas penitenciários não chega a ser uma grande novidade. Na origem da prisão, lá no século XII e seguindo cânones religiosos, mantinha-se um preso por cela para que o clérigo rebelde passasse pelo fenômeno da metanóia - a transformação do coração. Na solidão ele refleteria, e pela reflexão chegaria ao arrependimento. Por trás da teoria havia uma sabedoria pragmática: manter um indivíduo por cela garantia a paz. Desde que se encarceraram duas pessoas no mesmo cubículo elas se organizaram contra o carcereiro. E o carcereiro, que também nunca esteve ali de bobo não, percebeu bem cedo que é melhor se aliar do que enfrentar a dupla prisioneira.

A diferença é que a facção bandida de agora, a mais bem organizada que já se viu por aqui, tem nome, rostos e muitos "irmãos" morando juntos nas penitenciárias e nos seis metros quadrados das celas. A facção chama-se PCC. O número de carcereiros também aumenta mas a vã filosofia de trabalho continua a mesma: é melhor aliar-se aos presos do que peitá-los. Mais: alguns descobriram que dá para ganhar dinheiro com a massa carcerária. Desde que se prendeu alguém e se pôs outro alguém para tomar conta, quem tranca a cela se une com quem é trancado. E essa união se mantém muitas vezes sobre uma economia informal de corrupção. Leia-se tráfico de drogas, facilitação de entrada de celulares, venda de celas e de camas e dos mais diversos privilégios. O mais caro é o privilégio da fuga.

A contabilidade é feita em maços e pacotes de cigarros, a moeda corrente da cadeia. E a moeda padrão são os cigarros mais baratos. Em média, um celular custa 70 pacotes (aproximadamente R$ 700), uma pedrinha de crack para uma cachimbada sai por cinco pacotes (cerca de R$ 50), uma revista de mulher nua é comprada por oito pacotes (R$ 80). As cotações da bolsa de valores da fuga oscilam e cada caso é um caso. Quem puder pagar R$ 100 mil, digamos que é um acionista com grandes chances de comprar a liberdade.

Assim, a estrondosa novidade não é a existência do PCC dentro das cadeias mas, sim, a formação do PCC no mundão aqui fora. O PCC que está preso dá para reprimir. Já o PCC que está nas ruas, esse não pode ser preso nem está a mercê da Tropa de Choque. Um exemplo: a mulher de um preso do PCC que se deixa ficar como refém é involuntariamente um quadro do PCC fora das prisões. Não há a consciência política, trata-se ainda dos "rebeldes primitivos" dos quais nos falou o historiador inglês Eric Hobsbawn - e dificilmente as dimensões das contradições sociais e políticas habitarão a cabeça dos presidiários, mesmo porque bandido é um indivíduo em nada solidário, é sempre egoísta demais. Ou não seria bandido. Dá para perceber, no entanto, que o casamento do PCC de dentro com o PCC de fora caminha para os moldes de organizações fascistas como a mafia ou cosa-nostra. E na roda do tempo não há de faltar quem passe a defender com veemência o direito do preso votar - não porque veja nele um cidadão, como de fato deve ser olhado, mas porque perceba nisso tudo, e demagogicamente, que o PCC pode vir a ser um forte cabo eleitoral da extrema direita e do reacionarismo. E para o PCC, nada mal uma representação política. Na confusão e na irracionalidade, ganha o fascismo.

É preciso ter a coragem de admitir que a mulher de um preso que com chuva ou sol está todos os domingos na interminável fila de visitas ama demais o seu marido. Chega às cinco da matina, isso quando já não dorme na porta da cadeia. Leva comida e os filhos, sempre muitos filhos. É revistada, agacha-se um cem número de vezes para que se cheque se de sua vagina não cai droga. E ouve piadas de péssimo gosto dos agentes penitenciários. Essa mulher ama o marido que muitas vezes até aids passou para ela e quase sempre a deixou com uma penca de filhos para criar. Que diferença há agora quando ela se deixa ficar como refém? É o mesmo amor, pode-se chamar amor-bandido ou amor-patológico, mas é amor. Não são as mães da Praça de Maio, longe disso. Mas são as loucas do cordão de isolamento que protege seus maridos da Tropa de Choque. Foram elas, como reféns e a mando de seus maridos, que colocaram lençóis brancos nas grades pedindo paz.

Esse é um lado do PCC de fora. Há outro exemplo: os ex-presos. Eles têm o direito constitucional, porque voltaram a ser cidadãos livres, de visitarem os colegas que permanecem na cadeia. Mas muitas vezes funcionam como contato de motins. Enfim, pode haver um PCC ao seu lado.

Finalmente, quem está preso é porque é bandido e bandido é um cidadão que não soube se cuidar sozinho quando era livre - tanto que transgride a norma social e acaba preso. Ele precisa e quer regras claras que oriente o seu comportamento, justamente o que sozinho não consegue desenvolver, seja social ou psiquicamente. Se não há essa clareza de normas e ordens, ele próprio usurpa a função do Estado Democrático de Direito, só que do seu jeito delinquente: degola até os companheiros. Bandido quer promotores e juízes que sejam complacentes com ele, mas esse mesmo bandido, e justamente por ser bandido, não têm essa complacência com seus iguais. Deve-se mantê-lo preso e para isso precisa-se do carcereiro. Mas enquanto existir preso e carcereiro há o risco de conluio entre ambos e de corrupção. Não tem saída. Eis aí o PCC.

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