Internet: aprendendo a ensinar
Francisco
Alves Filho *
Depois
de estourarem tantas bolhas de euforia na internet, um novo segmento
é agora alvo das apostas. O ensino pela rede de computadores
- ou e-learning, para os mais novidadeiros - é o novo filão
que mobiliza internautas, webmasters, criadores de softwares e investidores.
Grifes como Xerox, Embratel, Universidade de Harvard e Universidade
de São Paulo entraram na onda dos cursos de aperfeiçoamento
profissional e de extensão. Novos recursos, integração
de áudio, vídeo e texto, professores que atendem on-line,
fóruns e chats com especialistas são alguns dos recursos
que passam a ser usados de uma forma nunca vista com o objetivo
de fazer com que o aluno aprenda. Uma pesquisa realizada pela empresa
MBG, do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça
de Barros, revela que já existem mais de 30 mil cursos on-line
somente no Brasil. Os professores assistem a todo esse movimento
com um misto de perplexidade e fascinação, como pude
observar no VIII Congresso Internacional de Educação
a Distância, realizado em Brasília há duas semanas.
Perplexos, porque temem ficar marginalizados se não conseguirem
dominar essas novas tecnologias. Fascinados, porque muitos acreditam
que o ensino pela internet vai resolver os problemas de aprendizado
no País.
É
tudo tão rápido e avassalador - ao estilo dos "fenômenos"
anteriores da web - que se torna recomendável uma pausa para
respirar, refletir e jogar no caminho algumas perguntas incômodas.
A primeira: é realmente possível aprender pela internet?
Os introdutores do e-learning - mais um nomezinho exótico
- e alguns alunos dizem que sim. Mas os cursos são tão
novos que não existem parâmetros confiáveis
para medir a qualidade desse tipo de ensino. Por falar em qualidade,
outra pergunta: como ensinar direito, se ainda não foi criado
um modelo pedagógico voltado para web? Sem isso, esses cursos
correm o risco de servir apenas para informação e
não para formação - essa opinião é
a de especialistas como o professor Paulo Blikstein, mestrando do
Massachussets Institute of Technology, ou o professor argentino
Daniel Luzzi, assessor da OEA e do BID.
Diante
dessas dúvidas, é preciso que os mestres adotem uma
postura bastante questionadora em relação ao ensino
pela internet. Numa das salas em que se desenrolavam os debates
paralelos ao auditório principal do Congresso Internacional
de Ensino a Distancia, ouvi a professora de uma universidade mineira
expor com entusiasmo a experiência de sua instituição.
Tudo parecia muito eficiente, revolucionário e a mestra chegou
ao ápice de sua exposição com a seguinte frase:
"Com nossos cursos on line conseguimos uma troca melhor do
que na sala de aula", disse ela. Fiquei pensando como seria
possível uma coisa dessas. De que forma uma professora conseguiria
um relacionamento melhor com seus alunos através do computador
do que pessoalmente? É claro que uma conclusão dessas
é resultado de uma supervalorização da internet,
mais uma mistificação que deve ser combatida desde
o nascedouro. O professor de carne e osso sempre será mais
eficiente que qualquer computador ou tv. Pelo menos até que
se prove o contrário, essas mídias são importantes
para apoiar o ensino presencial e não para substituí-lo.
Aos
alunos, aconselha-se também que não criem expectativas
fenomenais quanto ao ensino pela internet. Um complemento, um acréscimo,
um aperfeiçoamento - assim deve ser encarado esse tipo de
aprendizado. Colocado em seu devido lugar, sem promessas fenomenais
ou ilusõs desvairadas, o tal e-learning terá mais
chance de dar certo e se tornar respeitado. Urgente, nesse momento
em que esses cursos são novidade no mundo todo, é
a discussão que leve a uma pedagogia própria para
esse veículo. Mais que discussão: estudos, pesquisas,
medições. Assim, quem sabe, esse recurso possa ser
uma efetiva ajuda na enorme tarefa de disseminar a educação
entre os brasileiros, e não apenas um modismo que vai gerar
diplomas rápidos e sem credibilidade. Afinal, ninguém
quer que o ensino pela web se transforme em mais uma bolha, como
tantas outras que já estouraram nessa trajetória da
internet. 
*Editor-assistente da sucursal de ISTOÉ no Rio de Janeiro
|