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ARTIGOS ONLINE
17/08/2001

Internet: aprendendo a ensinar

Francisco Alves Filho *

Depois de estourarem tantas bolhas de euforia na internet, um novo segmento é agora alvo das apostas. O ensino pela rede de computadores - ou e-learning, para os mais novidadeiros - é o novo filão que mobiliza internautas, webmasters, criadores de softwares e investidores. Grifes como Xerox, Embratel, Universidade de Harvard e Universidade de São Paulo entraram na onda dos cursos de aperfeiçoamento profissional e de extensão. Novos recursos, integração de áudio, vídeo e texto, professores que atendem on-line, fóruns e chats com especialistas são alguns dos recursos que passam a ser usados de uma forma nunca vista com o objetivo de fazer com que o aluno aprenda. Uma pesquisa realizada pela empresa MBG, do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, revela que já existem mais de 30 mil cursos on-line somente no Brasil. Os professores assistem a todo esse movimento com um misto de perplexidade e fascinação, como pude observar no VIII Congresso Internacional de Educação a Distância, realizado em Brasília há duas semanas. Perplexos, porque temem ficar marginalizados se não conseguirem dominar essas novas tecnologias. Fascinados, porque muitos acreditam que o ensino pela internet vai resolver os problemas de aprendizado no País.

É tudo tão rápido e avassalador - ao estilo dos "fenômenos" anteriores da web - que se torna recomendável uma pausa para respirar, refletir e jogar no caminho algumas perguntas incômodas. A primeira: é realmente possível aprender pela internet? Os introdutores do e-learning - mais um nomezinho exótico - e alguns alunos dizem que sim. Mas os cursos são tão novos que não existem parâmetros confiáveis para medir a qualidade desse tipo de ensino. Por falar em qualidade, outra pergunta: como ensinar direito, se ainda não foi criado um modelo pedagógico voltado para web? Sem isso, esses cursos correm o risco de servir apenas para informação e não para formação - essa opinião é a de especialistas como o professor Paulo Blikstein, mestrando do Massachussets Institute of Technology, ou o professor argentino Daniel Luzzi, assessor da OEA e do BID.

Diante dessas dúvidas, é preciso que os mestres adotem uma postura bastante questionadora em relação ao ensino pela internet. Numa das salas em que se desenrolavam os debates paralelos ao auditório principal do Congresso Internacional de Ensino a Distancia, ouvi a professora de uma universidade mineira expor com entusiasmo a experiência de sua instituição. Tudo parecia muito eficiente, revolucionário e a mestra chegou ao ápice de sua exposição com a seguinte frase: "Com nossos cursos on line conseguimos uma troca melhor do que na sala de aula", disse ela. Fiquei pensando como seria possível uma coisa dessas. De que forma uma professora conseguiria um relacionamento melhor com seus alunos através do computador do que pessoalmente? É claro que uma conclusão dessas é resultado de uma supervalorização da internet, mais uma mistificação que deve ser combatida desde o nascedouro. O professor de carne e osso sempre será mais eficiente que qualquer computador ou tv. Pelo menos até que se prove o contrário, essas mídias são importantes para apoiar o ensino presencial e não para substituí-lo.

Aos alunos, aconselha-se também que não criem expectativas fenomenais quanto ao ensino pela internet. Um complemento, um acréscimo, um aperfeiçoamento - assim deve ser encarado esse tipo de aprendizado. Colocado em seu devido lugar, sem promessas fenomenais ou ilusõs desvairadas, o tal e-learning terá mais chance de dar certo e se tornar respeitado. Urgente, nesse momento em que esses cursos são novidade no mundo todo, é a discussão que leve a uma pedagogia própria para esse veículo. Mais que discussão: estudos, pesquisas, medições. Assim, quem sabe, esse recurso possa ser uma efetiva ajuda na enorme tarefa de disseminar a educação entre os brasileiros, e não apenas um modismo que vai gerar diplomas rápidos e sem credibilidade. Afinal, ninguém quer que o ensino pela web se transforme em mais uma bolha, como tantas outras que já estouraram nessa trajetória da internet.

*Editor-assistente da sucursal de ISTOÉ no Rio de Janeiro

 

 

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