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Genéricos,
uma chance para o povo
José Ricci
Júnior*
A
denominação genérica é o nome da substância
ativa escondida atrás da marca dos medicamentos. É
ela que faz o efeito do medicamento. Exemplo: quando você
toma Novalgina (marca), é a dipirona (substância ativa)
que alivia a dor e faz baixar sua febre. E se procurar bem, verá
que muitos outros remédios que lhe parecem diferentes da
Novalgina são, de fato, todos iguais a ela porque não
passam de marcas diferentes da mesma substância ativa, isto
é, a dipirona.
Ocorre
que o nome da substância ativa aparece em letras tão
pequenas que mal podem ser lidas. Por isso, no Brasil, os remédios
são conhecidos unicamente pelas suas marcas. Não há
concorrência porque o povo não sabe, na verdade, o
que está comprando nem o que está consumindo. Daí
o escândalo dos preços dos remédios em nosso
país, que são os mais caros do mundo.
Em
5 de outubro de 1993, o presidente Itamar Franco assinou um decreto
tornando obrigatório que tanto a embalagem quanto a bula
dos medicamentos tragam sua denominação genérica
em destaque, impressa em posição superior à
da marca, isto é, do nome fantasia, que não poderá
ultrapassar 25% do tamanho da denominação genérica.
Os laboratórios pediram seis meses de prazo para ajustarem
as "coisas", isto em 1993. Desnecessário dizer
o que aconteceu... O mesmo decreto exigia que todas as farmácias
exibissem, em lugar visível, a relação das
denominações genéricas contendo as marcas equivalentes
e seus respectivos preços, a fim de que o usuário
pudesse escolher o mais conveniente.
O
tempo passou e nada aconteceu até que o deputado Eduardo
Jorge (PT-SP) apresentasse projeto no Congresso Nacional, regulamentando
a matéria nos moldes do decreto presidencial citado, que
entrou em vigor e nunca foi cumprido. Para ser aprovada, a lei do
deputado petista sofreu profundas modificações que
a desfiguraram para atender à pressão das multinacionais.
O resultado é que o nome "fantasia" continua na
parte superior da embalagem e o nome genérico, bem menor,
na parte inferior. A exibição das denominações
genéricas, marcas e preços correspondentes deixa de
ser obrigação das farmácias. Ou seja, para
o produtor e revendedor, tudo. Para o consumidor, nada.
As
grandes multinacionais do setor farmacêutico e suas formidáveis
verbas para gastos com propaganda tentam vender a idéia de
que os genéricos serão fabricados por laboratórios
de fundo de quintal, o que é uma possibilidade, porém
não uma obrigatoriedade. Mas, ninguém garante que
as multinacionais façam melhor. Lembram-se dos anticoncepcionais
de farinha produzidos pelo famoso Laboratório Schering? Assim,
como em qualquer outra área de interesse social, o governo
tem obrigação de controlar a qualidade dessa atividade
industrial. Não só no fundo, onde estão os
nacionais, mas também na frente do quintal, onde estão
os multinacionais com suas belas e enganosas fachadas.
Para
que possamos alcançar o nível de responsabilidade
dos governos europeus sobre o assunto devemos empregar um controle
rigoroso da propaganda de medicamentos, pois no Brasil elas até
induzem à automedicação. Nas universidades
os professores, alunos e residentes devem ser instados a prescrever
pelo nome da substância e não pela marca. Os recém-formados,
e principalmente os médicos da ativa, deverão contribuir
para o sucesso dessa política de medicamentos, prescrevendo
unicamente a substância ativa.
Enfim,
os remédios com nome genérico são mais baratos
porque o usuário não paga o preço da marca,
mas o da substância ativa, que é, antes de tudo, um
patrimônio da humanidade e não da indústria
farmacêutica. Com isso, a propaganda dos laboratórios
perde o sentido, diminui a automedicação e entram,
de fato, em jogo as leis de mercado que possibilitam a compra das
substâncias ativas dos remédios em países que
praticam preços equivalentes ao real valor desses produtos.
Bom para o povo, ruim para os laboratórios farmacêuticos.
A corda, até agora, só roeu do lado mais fraco. Quem
sabe um dia o povo vença essa batalha.
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