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 ARTIGOS 05/04/2002

Clonaram gente
Médico anuncia que mulher está gestando o primeiro bebê clonado
Enquete: Você aprova a clonagem humana?

Ana Cristina Aleixo

AP Photo/Ron Edmonds  
Da esquerda para a direita: Severino Antinori , Panayiotis Zavos e Brigitte Boissolier
 

Uma mulher deverá dar à luz ao primeiro clone humano. Isso mesmo. Pelo menos é o que afirmou o italiano Severino Antinori, um dos mais polêmicos especialistas em reprodução humana, durante um encontro ocorrido na semana passada, nos Emirados Árabes Unidos. Nem seu escritório em Roma, nem o de seu colega de pesquisa, Panayiotis Zavos, confirmaram a informação. Também não se sabe ainda a nacionalidade da gestante. Tanto um, quanto outro, restringiram-se apenas a dizer que vão falar sobre o assunto daqui a duas semanas.

O assunto caiu como bomba na comunidade científica. Todos sabiam
que as experiências com clones humanos caminhavam a passos largos, mas não se esperava que chegasse a uma conclusão tão rápida. Em março de 2001, a dupla Antinori-Zavos já havia anunciado - em uma reunião na Academia Nacional de Ciências dos EUA - que estavam trabalhando com óvulos de 200 casais inférteis de todo o mundo para obter um clone. Segundo eles, este é um processo simples que consiste em transferir o núcleo clonado para o óvulo de uma mãe hospedeira.
Até aí, nada de surpreendente. O problema é que ninguém sabe como controlar este processo. As chances de o feto sofrer deformações ou, ainda que venha a nascer, desenvolver doenças congênitas ou um
câncer são grandes. Só para se ter uma idéia, para se chegar à
ovelha Dolly - a primeira experiência de sucesso nesta área - foram necessárias quase 280 tentativas.

  AFP
Natsuko Yoshikawa, a gueixa da Clonaid

É o que lembra o médico Roger Abdelmassih,
uma das maiores autoridades em reprodução humana assistida do País. Abdelmassih é o papa das técnicas de fertilização em proveta e foi responsável pelo nascimento dos gêmeos de Pelé. "Em menos de nove meses saberemos se a declaração de Antinori é verdadeira ou não", afirma. "Não há dúvidas de que já é possível obter um clone humano, mas, até agora, o resultado das experiências feitas com animais são muito ineficientes." Pessoalmente, Abdelmassih não aceita a criação de clones humanos sem a garantia de que "eles" terão uma vida saudável. Esta é também a opinião do padre Marcio Fabri dos Anjos, da Arquidiocese Metropolitana de São Paulo. "Somos contra a clonagem humana", diz. "Experiências
como a realizada na novela O Clone são fantasia."

Não é difícil de se imaginar que, mesmo sem ter a confirmação da gravidez, cientistas, autoridades do governo e organizações civis reagiram com furor à notícia. Vários são os países em que experimentos como esses são proibidos. O Reino Unido é o que mais bate o pé
contra a clonagem. Nos Estados Unidos a prática é permitida, mas
não pode ser financiada pelo governo. Além do posicionamento do
poder público, há ainda outro entrave: a falta de uma legislação internacional que defina os padrões éticos a serem seguidos. É um dos pontos que deixam a comunidade científica em polvorosa. Não é à toa que o anúncio do clone de Antinori causou reações contrárias nas principais universidades e laboratórios do mundo inteiro. Segundo a revista New Scientist, que divulgou a notícia em seu site, há um misto
de surpresa e revolta entre os especialistas.

De fato, as pesquisas sobre clonagem humana estavam ainda engatinhando. Em novembro do ano passado, a empresa americana Advanced Cell Tecnology (ACT) chegou a criar três embriões clonados, cada um com seis células. Mas, nenhum deles sobreviveu. O revés
jogou um balde de água fria nas pesquisas lideradas pela equipe de Antonioni e de sua maior adversária, a bioquímica Brigitte Boissolier,
do laboratório americano Clonaid. Ambos travam uma guerra declarada para obter o primeiro clone humano. Antinori estava em desvantagem. Em agosto do ano passado, o Clonaid apresentou a gueixa Natsuko Yoshikawa, que seria a primeira a gestar um clone humano. A idéia emperrou porque o governo americano não deu seu aval. Agora, neste cabo de guerra, parece que o italiano está levando a melhor. De
qualquer forma, é ainda cedo - muito cedo, aliás - para cantar vitória. Claro que a clonagem é uma arma poderosa, mas ninguém sabe
muito bem o que pode fazer com ela.

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