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Foto: JÚLIO VILELA
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Duke Lee fez as 29 telas em dois meses, mas levou 19 anos para concretizar o conceito dos quadros
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A R T E
Sintonia com o clássico
Wesley Duke Lee inaugura uma bela mostra tripla em São Paulo inspirada no renascimento italiano
IVAN CLÁUDIO
Afundado numa confortável poltrona de seu espaçoso ateliê em Santo Amaro, zona sul de São Paulo, o artista plástico Wesley Duke Lee, 67 anos, folheia vários livros de arte revelando as fontes de inspiração de sua exposição Aeon filius - estudos para a anunciação, dividida em três etapas, que desde a semana passada encheu a Galeria São Paulo de telas com crianças nuas e gordinhas se divertindo em brincadeiras ancestrais. Entre uma página e outra, ele discorre em flashes sobre o barroco francês, a renascença italiana, a alquimia e as maravilhas da pintura rupestre. Soma tudo e, de repente, se detém sobre um episódio esquisitíssimo de sua infância. Corria o ano de 1932 e todo mundo, inclusive sua mãe e a avó americana, estavam em pânico com o famoso rapto do bebê Lindenbergh. Como na praça defronte à sua casa havia um acampamento cigano, os familiares temerosos resolveram se precaver. Trancaram Duke Lee, que tinha apenas um ano, num quarto escuro onde ele passava a maior parte do tempo sem dar sinal de vida. Por quase seis décadas o artista paulistano desconheceu o fato, só identificado há dez anos numa sessão de bioenergética. Agora, para dar fim de vez ao trauma tardio, retratou a cena na obra que fecha simbolicamente a série de 29 trabalhos da bela exposição, a primeira com obras inéditas em oito anos e possivelmente a última, segundo ele promete. Trata-se de uma tela negra mostrando um bebê amarrado a um berço, enquanto, em um andador, outra criança tenta agarrar uma borboleta. Além do mergulho na infância, a atual mostra, também chamada O filiarcado - ensaio alquímico com jogos infantis, é um surpreendente olhar para o pensamento clássico. Depois de ter protagonizado a primeira performance no País, de se exercitar pelas obras ambientais num período no qual a ousadia ainda não era moda insossa, e de carregar por mais de 40 anos a fama de ser o introdutor da pop arte no Brasil, Duke Lee parece definitivamente tomado pelos valores renascentistas e greco-romanos. “Isto é uma vida”, diz, apontando para as telas à sua volta. “É o resultado da minha maturidade.” A atitude é uma resposta ao esgotamento da arte contemporânea? “Óbvio”, responde ele. “Meu recado, feito por meio de uma exposição, é bem claro. Olhem os clássicos, sigam este caminho, que é o melhor que temos. O resto é tudo mixuruca.” Montada em três mostras sucessivas, já que a galeria não comporta todos os quadros de só uma vez, Aeon (era, em grego) filius (filho, em latim) é uma experiência inesperada. A solução improvisada faz sentido, já que a série de trabalhos de igual dimensão e feitos no inusitado formato de losango, também realiza uma viagem pela cor. Alquimia - O primeiro segmento, Albedo, que na alquimia se refere aos tons claros, reúne nove telas com fundo ocre nos quais Duke Lee desenhou com pastéis de óleo crianças nuas pulando fogueiras, jogando cartas, atirando dardos ou lançando bolinhas de gude. Nos outros, as cores se alteram. Em Rubedo, o fundo avermelhado reproduz o tom da terra de Siena, Itália, e em Nigredo, o marrom-ocre vai escurecendo até chegar ao negro. A provocação erudita está longe das invenções pós-dadaístas dos tempos em que, influenciado por Marcel Duchamp, o artista costumava usar o heterônimo do templário Arkadin D’y St. Amer. Entretanto, no seu ateliê jocosamente batizado de Instituto de Arqueologia Anímica Santo Amaro, ele ainda assume a personalidade de ator-pintor-alquimista ao buscar uma síntese que resuma a nova aventura plástica. As telas em losango, por exemplo, simbolizam através do equilíbrio instável o advento da era do filho, que segundo Duke Lee nascerá da superação do quadrado patriarcal e do círculo do matriarcado. “Botei as crianças no meio da harmonia do masculino e do feminino. Sou ainda da geração que brigava com o pai. A nova geração nem leva o pai a sério.” Duke Lee gastou 19 anos para concretizar a série de trabalhos. O que consumiu mais tempo, no entanto, não foi a produção das telas, feitas de um só jato entre agosto e outubro, mas toda a preparação ante-rior. O projeto se iniciou com a descoberta do álbum de gravuras Les jeux et plaisirs de l’enfance, com 52 gravuras de jogos infantis feitas pelo artista barroco francês Jacques Stella (1596-1657), que por sua vez havia se inspirado em desenhos com o mesmo tema do pintor renascentista italiano Andrea Mantegna (1431-1506). Com auxílio do computador, Duke Lee passou cinco meses devolvendo para a perspectiva renascentista os desenhos de Stella, refeitos no formato do losango para se verem livres da contaminação do barroco, na sua opinião um movimento espúrio da arte. Depois, com o impacto das pinturas rupestres descobertas em 1994 na caverna de Chauvet, França, ele passou um tempo pesquisando argamassas até chegar à base que imita a textura das paredes de pedra das cavernas. Seu objetivo, contudo, era chegar a algo parecido com um afresco etrusco. “Como para mim a execução é uma coisa muito fácil, preciso é acertar o que vou realizar”, afirma o artista, que se autodenomina um “pictor” (pintor em latim) e classifica suas telas de pintura parietal. “Se não tem nada cozinhando, não perco tempo com estes troços que os artistas ficam fazendo.” O passo derradeiro, a parte fácil do trabalho, foi reproduzir nas telas a seleção de 29 desenhos representando os jogos que ele costumava brincar na infância. Aproveitou e alterou as paisagens de fundo, incorporando em algumas cenas o entorno de seu bairro. Segundo Wesley Duke Lee, a exposição é uma forma de ele finalizar o século com algo que admire e respeite. “Quando remontei a composição, a fiz clássica, que é o que está faltando na arte - um pouco de ordem e orientação.” Pelo que se vê em bienais e galerias não poderia haver advertência mais vanguardista.
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