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AVIAÇÃO
Vôo
radioativo
Embora muitos não saibam, é rotineiro
o transporte
de material radioativo em avião de passageiros
Madi
Rodrigues
O
transporte de material radioativo em aeronaves de passageiros é
considerado "normal" e ocorre praticamente todos os dias
no mundo inteiro. Isso é o que asseguram os técnicos.
No entanto, essa normalidade toda não foi demonstrada na
noite de sábado, 18 de novembro, quando cerca de 100 passageiros
ficaram retidos durante três horas dentro de um avião
da Varig no Aeroporto Internacional de Guarulhos. O vôo 317
(Brasília-Rio de Janeiro), além dos passageiros, transportava
um cilindro do tamanho de uma garrafa de cerveja, pesando sete quilos,
contendo em seu interior a substância radioativa Césio-137.
O avião saiu de Brasília e fez escala em Cuiabá,
onde o cilindro foi embarcado para ser entregue na capital paulista.
Depois de Cuiabá, o avião seguiu para Campo Grande
e depois para São Paulo, onde faria a última escala
antes de chegar ao Rio. Porém, nem tudo saiu como o programado.
Quando o avião aterissou em Cumbica, por volta das 21h40,
os passageiros foram impedidos de desembarcar. Motivo: corria a
suspeita de vazamento do material radioativo que estava no compartimento
de cargas da aeronave. O avião foi colocado em local isolado,
técnicos do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares
(Ipen) foram acionados e os passageiros, achando tudo muito estranho,
não foram logo informados sobre o que realmente estava acontecendo.
Muitos nem sabiam que material radioativo pode ser transportado
em vôos de passageiros.
"É
rotineiro e normal o transporte de gato, cachorro, vaca, carneiro
e até material radioativo em avião de passageiros",
explicou Marcelo Correia Lima, assessor de imprensa da Varig. Sobre
o fato de os passageiros não terem sido avisados imediatamente
sobre as suspeitas de vazamento, Lima ressaltou: "Não
faz parte do negócio e nenhuma empresa do mundo é
obrigada a avisar os passageiros sobre que tipo de carga o avião
está transportando." Ainda segundo ele, "não
existe norma legal que estabeleça que o transporte de material
radioativo seja feito apenas em aviões de carga". Demerval
Leônidas Rodrigues, chefe do serviço de Rádio-Proteção
do Ipen fez a inspeção no compartimento de bagagens.
"O transporte de material radioativo em avião de passageiros
é totalmente legal e a fiscalização de normas
internacionais de segurança é bastante rígida."
De acordo com ele, havia dentro do cilindro menos de um grama de
Césio. A embalagem era de chumbo e revestida de aço.
"Mesmo que tivesse havido um vazamento, os passageiros não
seriam contaminados, pois a estrutura metálica do avião
entre o compartimento de bagagens e o de passageiros funcionaria
como uma barreira física", assegurou o técnico.
O químico Antônio Mário Salles, 59 anos, professor
do Cursinho Objetivo de São Paulo, não tem a mesma
opinião. E explica: "Um grama de Césio emite
3,2 trilhões de radiações por segundo. Se tivesse
ocorrido vazamento os passageiros seriam contaminados." O professor
Salles, afirma que "as radiações danificam as
células reprodutoras, podem causar diversas modalidades de
câncer e provocar danos genéticos como o nascimento
de crianças deformadas". E ressaltou: "O certo
seria não transportar esse tipo de material em vôo
de passageiros, afinal nada é infalível." Segundo
o advogado constitucionalista Paulo Adib Casseb, o artigo 21 do
Código Brasileiro de Aeronáutica determina "que
nenhuma aeronave poderá transportar material explosivo ou
qualquer outra substância considerada perigosa para a segurança
pública, da própria aeronave ou de seus ocupantes,
salvo com autorização especial de órgão
competente". Para os que já se esqueceram, em setembro
de 1987, no Estado de Goiânia, um acidente com essa mesma
substância atingiu 244 pessoas e causou a morte de quatro,
inclusive a de uma menina, de seis anos, que comeu um pedaço
de pão com as mãos sujas de Césio.
O Césio é um metal alcalino que, combinado com os
não-metais, forma sais. Em palavras mais claras, o cloreto
de Césio é um pó fluorescente, azulado, muito
bonito, só que altamente perigoso. Ele emite radiações
Beta e Gama que saem do núcleo do átomo. Os raios
gama são semelhantes aos raios X, porém muito mais
energéticos. Ou seja, eles transportam muito mais energia
do que o raio X. Para as radiações fazerem mal elas
precisam atingir um órgão interno da pessoa. Para
se ter uma idéia, a partícula Beta atravessa a pele
e uma lâmina metálica fina, aumentando, desse modo,
a possibilidade de atingir um órgão interno. O maior
problema, entretanto, são as ondas Gama, capazes de atravessar
paredes de concreto, paredes metálicas e até paredes
de chumbo relativamente finas. O efeito devastador vai depender
da quantidade de radiação que a pessoa recebe. Os
sintomas provocados por radiações nucleares são
os seguintes: ao receber uma dose moderada de radiação
uma semana depois do ocorrido a pessoa não sente nada. Porém,
aquela vitimada por uma quantidade maior começa a sentir
náusea e vômito. Já a dose letal acarreta náusea,
vômito, diarréia, garganta inflamada, úlcera,
febre, emagrecimento rápido e morte.
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