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Energia nuclear I 07/12/2000

Alerta nuclear
Usina Angra I envelhece e desgaste compromete a segurança

Hélio Contreiras

Depois de confirmar falhas no funcionamento da usina nuclear Angra 1, em operação comercial desde 1985, a Procuradoria-Geral da República solicitou um relatório de especialistas sobre a segurança da unidade. Um dos cinco peritos que participaram da investigação, o físico Ancelmo Paschoa, foi enfático: "Demos um sinal amarelo de advertência para Angra 1". O estudo sobre a segurança e o desempenho da usina foi realizado com base nos indicadores adotados por especialistas brasileiros e pela World Association of Nuclear Power Operators, sediada nos Estados Unidos. Paschoa, professor da PUC do Rio de Janeiro, faz a ressalva de que "não há motivo para pânico, mas será necessária a substituição de equipamentos, que sofreram um desgaste de materiais devido ao envelhecimento nos últimos anos, e uma reformulação dos procedimentos de segurança".

Renato Velasco
Daniel Sarmento quer a troca de equipamentos

Estes serão os objetivos, segundo o procurador regional dos Direitos do Cidadão no Rio de Janeiro, Daniel Sarmento, do acordo que será assinado entre o Ministério Público Federal, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e a estatal Eletronuclear. Os problemas de segurança de Angra 1 começaram a ser analisados pelo MP em junho do ano passado, a partir da denúncia do físico Luiz Pinguelli Rosa, da Coordenação dos Programas de Pós-graduação em Engenharia (COPPE), da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na ocasião, Pinguelli comunicou à Procuradoria da República a ocorrência de desligamentos freqüentes do reator de Angra 1. O reator de Angra 1 tem um sistema de desligamento comparável ao de um fusível, ainda usado no controle da instalação elétrica de prédios. Ele desliga quando ocorre um curto-circuito na rede. Ou seja: é um mecanismo de prevenção e também de alerta. No caso de Angra 1, os especialistas convocados pela Procuradoria da República constataram falhas na usina. Além de Paschoa, participaram os físicos Fernando de Souza Barros, da UFRJ, Rex Nazareth Alves, do Instituto Militar de Engenharia, e os engenheiros José Rubens Maiorino, da USP, e Ricardo Brant Pinheiro, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Nove por cento das tubulações internas do gerador de vapor estão fechados em conseqüência de corrosão. Segundo o físico Pinguelli Rosa, "embora este percentual esteja abaixo do limite máximo, é preocupante". As usinas iguais à de Angra dos Reis (na Suécia e na Espanha) já fizeram a substituição do gerador de vapor. A usina localizada na Eslovênia vai trocá-lo na próxima manutenção do reator. As paradas sucessivas da usina nuclear revelam problemas da Central Nuclear de Angra. Uma corrosão está afinando as paredes de dutos do gerador de vapor da usina.

Um documento do Ministério Público confirma as informações do professor Pinguelli Rosa, afirmando que "tornou-se urgente discuti-las, pois dizem respeito à segurança do reator da usina". Para Pinguelli Rosa, "se o reator de Angra 1 estivesse em perfeito estado, sem ameaças à segurança, não ocorreriam tantos freqüentes desligamentos, pois seria desnecessário o sistema automático interromper seu funcionamento". Cada desligamento súbito, segundo o especialista, "provoca tensões no combustível nuclear, submetendo-o a situações excepcionais".

Alguns problemas já paralisaram a usina. Um documento da Procuradoria da República cita a ocorrência de "um pequeno vazamento de combustível nuclear em 1993, que contaminou o circuito primário do reator de Angra 1 e levou Furnas a interromper seu funcionamento, com enorme perda de receita". Houve, ainda, falhas na produção do combustível pela Siemens para o reator de Angra 1, fabricado pela Westinghouse. Por estas falhas a usina ficou desligada durante 21 meses. Furnas acabou optando por voltar a usar o combustível da Westinghouse.

O físico Ancelmo Páschoa vai propor ao Ministério da Ciência e Tecnologia um anteprojeto de reformulação na fiscalização das unidades nucleares. Atualmente, a Cnen acumula as funções de fiscalizar e de promover o fomento do setor, ressalta o especialista. Páschoa propõe a criação de um órgão executivo independente, denominado Comissão de Radioproteção, Segurança Nuclear e Salvaguardas, como autarquia federal, e com autonomia administrativa e financeira. Ele defende a exigência legal de transparência para o setor nuclear, usando como exemplo o Nuclear Regulatory Commission, órgão americano cujas reuniões são obrigatoriamente públicas. 


 



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