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SOCIEDADE
RELIGIÃO
E VOTO
Ines
Garçoni e Juliana Vilas
| Max
G. Pinto |
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| Maria
de Lourdes dos Santos |
Aos
50 anos, Maria de Lourdes dos Santos já frequentou a Igreja
Batista durante seis anos a fio, mudou para a umbanda e, mais tarde,
para o candomblé. Dona de uma loja de produtos religiosos
em São Paulo, passa o dia entre ervas, guias e imagens de
orixás. Mas sempre se declarou católica e toda segunda-feira
vai à igreja acender uma vela "para as almas atormentadas"
-- o que não a impede de continuar fazendo seus "trabalhinhos
no terreiro" uma vez por semana. Na loja de Maria de Lourdes
não se fala em política nem neste período pós-eleitoral
quando é grande a expectativa, principalmente em cidades
onde haverá mudança no comando. Os únicos santinhos
que deixa entrar no estabelecimento são os religiosos. "Não
gosto de misturar religião com política", diz.
Assim como ela, 53% dos brasileiros que se declaram católicos
não mudariam o voto nem por indicação do papa.
Este é o resultado da pesquisa Brasmarket, que ouviu 200
mil eleitores em 449 cidades do País para saber a quantas
anda o poder de influência dos líderes religiosos no
voto dos fiéis. Analisando todas as religiões praticadas
no Brasil, o resultado é que um em cada quatro brasileiros
votaria no candidato indicado por seu pastor, pai-de-santo, padre
ou qualquer outro líder.
| Religião
que pratica ou frequenta |
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NA IMAGEM PARA AMPLIAR |
A
facilidade com que Maria de Lourdes muda de uma religião
para outra e chega a frequentar várias ao mesmo tempo exemplifica
a versatilidade religiosa característica da maioria dos brasileiros
que se dizem católicos. Segundo a pesquisa, que traçou
também um painel do tamanho das religiões no Brasil,
67,2% da população do País é católica.
Mas neste universo, a maioria é como Maria de Lourdes. Poucos
são carolas, muitos não praticam. "A maior parte
não pertence a nenhuma corrente da Igreja. É aquele
sujeito que foi batizado, às vezes reza, casa no religioso
e missa só se for de sétimo dia", diz Ricardo
Mariano, sociólogo especialista em religião. A pesquisa
não derruba a velha máxima de que somos um país
católico. No entanto, indica que a inaptidão da Igreja
de Roma para arrebanhar fiéis aumentou nos últimos
dez anos. Em 1991, o censo do IBGE apontava: 83,3% da população
brasileira era católica. Este número caiu 16%. Os
evangélicos, em contrapartida, cresceram neste período.
O censo contabilizou 13,2 milhões de pessoas (8,98%). Hoje,
segundo a Brasmarket, eles são 13,6%. "É importante
observar que este número é muito significativo porque
eles são mais dedicados ao exercício da fé
que a grande maioria dos católicos", diz Mariano.
O
fervor religioso dos evangélicos é muito bem capitalizado
pelos bispos e pastores em tempos de eleição. Desde
os anos 80, a participação deste grupo na política
só tem aumentado. Na Assembléia Constituinte, boatos
de que a Igreja Católica queria voltar a ser a religião
oficial do País assustou e uniu os pentecostais. Organizadas,
em 1986 as igrejas elegeram 32 deputados, a maioria deles membros
da Assembléia de Deus. Esse número cresceu e a Igreja
Universal do Reino de Deus hoje é hegemônica no Congresso.
Em 1998, 48 parlamentares evangélicos foram eleitos, principalmente
ligados às neopentecostais. Sozinha, a Universal colocou
na Câmara 15 deputados, entre eles o Bispo Rodrigues (PL-RJ),
líder da bancada evangélica - que inclui parlamentares
de outras 12 igrejas. A união entre elas, que inexiste longe
do Congresso, serve para formar um bloco para a defesa de interesses
comuns. Interesses esses que vão da obtenção
de concessões para canais de rádio e TV a aprovação
de leis que beneficiem a comunidade crente. A Lei do Silêncio,
que já fechou muitos templos pelo Brasil -- quando o culto
incomoda os vizinhos - e a polêmica questão da tributação
dos grupos religiosos estão entre as principais preocupações.
"A gente se une nestas horas, mas quando o assunto é
outro cada um vota com seu partido", diz Rodrigues. Na Câmara,
PT, PDT e PSB juntos têm apenas sete parlamentares evangélicos.
Já o PL, partido do bispo-deputado, tem cinco, e o PFL, o
dobro.
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