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PRIVATIZAÇÃO
A
preço de Banana
Leilão da Cesp, geradora de energia
estratégica
para o País, prevê lance inicial irrisório
Adriana
Souza Silva
O
governo não foi o único a aplaudir o ágio pago
pelo Santander, de quase três vezes o valor mínimo,
com a venda do Banespa na semana passada. Também bateram
palmas os que consideram baixo o preço estabelecido para
o próximo grande marco do programa de desestatização
em São Paulo: o leilão da Cesp, marcado para 6 de
dezembro. Os 281% pagos a mais pelo banco espanhol já estão
sendo usados para reforçar a tese de que as estatais vêm
sendo subavaliadas nos leilões. "O governo subestima
o patrimônio para passar a imagem de bom vendedor", analisa
o procurador da República em Bauru, Rodrigo Valdez de Oliveira.
Na sexta-feira 24, Oliveira entrou com uma ação civil
pedindo a suspensão do leilão. Juntou à argumentação
o exemplo da privatização das usinas de Paranapanema,
em julho do ano passado, o segundo pedaço da estatal energética
vendido com ágio de 90,2%. Na ocasião, a ação
para suspender o leilão foi cassada na véspera. "Não
conseguiremos impedir a venda, mas é nossa função
apontar possíveis irregularidades", diz o procurador.
As semelhanças entre os próximos capítulos
da novela Cesp-Paraná com os fatos que antecederam a venda
do Banespa não se limitam à guerra de liminares. Para
questionar o valor mínimo da estatal, o Ministério
Público Federal também está tomando como base,
entre outros documentos, um estudo feito por uma universidade pública
- desta vez, a USP, a partir do Programa de Interunidades de Pós-Graduação
em Energia. Cálculos trazidos no documento concluem que o
preço mínimo de R$ 1,739 bilhão definido pelo
governo para a Cesp-Paraná é "irrisório".
Um dos argumentos é de que o vencedor do leilão poderá
descontar o crédito de R$ 1 bilhão, a ser pago ao
novo dono da Cesp em dez anos pelo Estado com juros de 6% e correção.
O valor se refere ao empréstimo que a Cesp fez ao Estado
de São Paulo nos início dos anos 80 quando o então
governador Paulo Maluf montava uma empresa de extração
de petróleo, a fracassada PauliPetro. De acordo com a planilha
dos especialistas, o valor correto para a Cesp-Paraná seria,
no mínimo, cerca de R$ 5 bilhões, quase três
vezes mais que o estabelecido pelo governo. Uma diferença
semelhante ao que foi pago a mais pelo Santander na venda do Banespa.
Para Ildo Sauer, um dos autores do estudo, os valores diferem pelo
fato de o governo não ter considerado a alta do preço
da energia depois de 2003 e uma melhor negociação
das dívidas da estatal. "Só em caixa, a Cesp-Paraná
tem hoje R$ 1 bilhão a mais do que o seu valor de venda.
E seu potencial instalado representa três vezes o da Paranapanema,
que foi vendida por R$ 1,32 bilhão", afirma o especialista.
"Esse cálculo é tão irreal quanto o valor
das ações da Cesp-Paraná vendidas separadamente
na Bolsa: menos de R$ 700 mil", rebate o secretário
de Energia do Estado de São Paulo, Mauro Arce. No entanto,
ele espera ágio no leilão do dia 6. De 60%, podendo
chegar a 90%. "Na disputa, os compradores têm as razões
estratégicas", justifica a previsão. De fato,
trata-se da venda da empresa responsável pela geração
de mais da metade da energia produzida no Estado. A Cesp-Paraná
é o último de três blocos da antiga geradora
do Estado, já que os outros dois (Paranapanema e Tietê)
foram privatizados no ano passado. Fazem parte de seu complexo hidrelétrico
usinas como as de Ilha Solteira, Jupiá e Sérgio Motta
(antiga Porto Primavera). Justamente esta última - rebatizada
em homenagem ao ministro das Comunicações, morto em
1998 - é o pivô das desavenças quanto ao valor
da estatal. Isso porque ela demorou mais de 20 anos para ser construída,
a um custo bilionário. Dos R$ 6,5 bilhões das dívidas
que o novo controlador da Cesp-Paraná terá de assumir,
um terço vem da usina Sérgio Motta. Arce lembra que
há os investimentos obrigatórios no edital para conclusão
do projeto. "Por tudo que foi gasto, seu valor seria de R$
12 bilhões. Impossível alguém pagar. É
como investir num megashopping dentro de uma cidadezinha e querer
reaver o capital", explica o secretário de Energia.
Os especialistas da USP sugeriram então que o Estado entrasse
com uma ação contra o governo federal, apontado como
o responsável pelo atraso nas obras. "Não é
nossa intenção. Mesmo porque iria sobrar para nós,
contribuintes", responde Arce.
Pedra
no caminho - O Sindicato dos Engenheiros de São Paulo
é outra pedra no caminho do modelo de venda da Cesp-Paraná.
"Em muitos Estados americanos é proibida a privatização
de geradoras por ser um setor estratégico. O comprador passa
a ter, sem custo, o controle do uso das águas da região",
adverte o engenheiro Paulo Tromboni de Souza Nascimento, presidente
da entidade. O sindicato questiona ainda o fato de o Estado continuar
sendo o fiador dos R$ 6,5 bilhões devidos pela estatal, mesmo
após a privatização da Cesp-Paraná.
"Como o Estado reduz o preço da Cesp por causa dessas
dívidas e, ao mesmo tempo, assume o risco pela controladora?",
pergunta Nascimento. O secretário de Energia responde que,
para se precaver do calote, está exigindo do vencedor a garantia
de devolução de parte do patrimônio ou cassação
da concessão, caso não honre os pagamentos. Perguntas
como "Não seria mais simples apenas transferir a dívida
à concessionária?" estarão presentes na
audiência pública que deverá acontecer na Assembléia
Legislativa, na segunda-feira 5, coordenada pela Comissão
de Serviços e Obras. 
| Empresa |
Comprador |
Valor
(R$ milhão) |
Ágio
(%) |
Data |
| CPFL |
Consórcio
VBC |
3,53 |
70,11 |
05/11/97 |
| Eletropaulo
Metropolitana |
Consórcio
Light Gás |
2,02 |
zero |
15/04/98 |
| Elektro
Eletricidade e Serviços |
Eron |
1,59 |
98,9 |
16/07/98 |
| Bandeirante |
Eletricidade
de Portugal e CPFL |
1,02 |
zero |
17/09/98 |
| Cesp-Paranapanema |
Duke
Energy |
1,32 |
90,2 |
28/07/99 |
| Cesp-Tietê |
AES-Gerasul |
1,03 |
30 |
27/10/99 |
|