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ARQUEOLOGIA
Pré-história
no quintal
Museu de cidade mineira expõe objetos pré-históricos que eram usados
como peso para porta e vaso para samambaias
Adriana
Souza Silva
| Alan
Rodrigues |
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Quando
tinha nove anos, o aposentado José da Costa Filho encontrou
na região de Arcos, município mineiro a 230 quilômetros
de Belo Horizonte, um objeto de pedra que seus pais acreditavam
ser um raio petrificado. Na época, o garoto foi alertado
a se desfazer imediatamente da peça, pois ela seria capaz
de atrair tempestades e trazer muito azar a quem a encontrasse.
Para a felicidade dos arqueólogos, Pereira era um menino
desobediente. Não acreditou naquela lenda e decidiu guardar
a pedra, mesmo sem saber que se tratava de um machado pré-histórico,
com idade de até 4 mil anos. Só agora, 60 anos depois,
o aposentado soube que não foi a única criança
a contrariar a recomendação dos mais velhos. Outros
15 moradores da região de Arcos, que também guardaram
essas estranhas peças, puderam realizar o sonho de vê-las
expostas no primeiro museu da cidade inaugurado em julho.
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Rodrigues |
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"Bendita
a hora em que essas famílias tiveram a clareza necessária
de preservar importantes exemplares pré-históricos
achados em suas propriedades rurais", desabafa a historiadora
Cláudia Marinho, uma das responsáveis pela exposição.
A iniciativa de construir o museu no município partiu de
uma parceria entre o Instituto Estadual de Florestas e a Companhia
Siderúrgica Nacional (CSN), que mantém um pólo
de extração de calcário no município.
Um terreno da Reserva Ecológica de Corumbá em Arcos
foi escolhido para reunir as cerca de cem peças arrecadadas
entre os moradores, todas encontradas na região. Trata-se
de um acervo de dar inveja a qualquer Indiana Jones: vasos de cerâmica
feitos pelos índios, utensílios domésticos
de pedra polida, ossos de animais fossilizados e até urnas
funerárias onde eram enterradas as pessoas, em posição
fetal.
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Rodrigues |
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Além
da história da ocupação humana em Minas, os
objetos revelam também curiosos relatos de seus descobridores.
José da Costa Filho, hoje com 69 anos, está convicto
que sua chácara foi, no passado, uma aldeia pré-histórica.
"Tenho quase certeza disso. Eu lembro de ir brincar na terra
e encontrar vários cacos de cerâmica", diz. Ele
lamenta não ter dado a importância merecida a esses
cacos como fez com o machado de pedra, guardado na gaveta da estante
da sala, até ir para o museu. Já Maria Madalena Asmar,
50 anos, conta que seus pais escondiam uma moringa de cerâmica
de mais de 2 mil anos, encontrada na fazenda da família,
atrás do oratório. "Naquela época, a gente
não entendia o motivo de tantos cuidados. É difícil
uma criança acreditar que nós não éramos
os primeiros a morar ali", explica Maria.
Carvernas
- Não foi por mero acaso que vestígios de civilizações
antigas vieram parar nessas propriedades. A abundância de
cavernas calcárias - são mais de 30 nos municípios
da região de Arcos, Pains e Doresópolis - favoreceu
a constituição de abrigos humanos ora para servir
de moradia, ora para realizar rituais. Ou seja, mesmo hoje em dia,
qualquer um que arrisque um passeio por grutas pouco visitadas terá
grandes chances de se deparar com uma preciosidade arqueológica.
Até uma parede com cerca de 250 figuras rupestres já
foi encontrada por lá.
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Rodrigues |
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A historiadora
Cláudia Marinho só se surpreende com o uso dado pelos
moradores às peças encontradas. "Teve gente que
usava machados pré-históricos para escorar a porta",
lembra. Outro exemplo de utilização bizarra dos objetos
é o da urna funerária de cerâmica que servia
como vaso de samambaia na fazenda dos pais de Edgar Fiuza Costa,
38 anos. "No começo todo mundo achava que aquilo fosse
uma grande panela", explica. A peça, de quase um metro
de altura e 60 centímetros de diâmetro, ficou encostada
por um bom tempo até que a mãe do fazendeiro resolveu
plantar flores no local.
Foi
a partir da falta de informação de alguns descobridores
que o comerciante José Nabor Vaz, 44 anos, conseguiu fazer
sua coleção de objetos arqueológicos. Como
os outros moradores, achou o primeiro machado de pedra no sítio
do pais. Três anos depois, ao visitar amigos, encontrou duas
peças semelhantes a dele escorando a porta da casa ou largada
num canto junto aos entulhos. Também chegou a notar um utensílio
doméstico de pedra polida segurando papéis num bar
de rodoviária. "Mesmo explicando a importância
histórica daquelas peças, as pessoas me davam de presente",
lembra. A coleção de cinco peças de Vaz foi
doada ao museu de Arcos. "Agora elas vão para o lugar
certo", acrescenta. Já o açougueiro Heleno Veloso,
37 anos, pensa diferente. Nem sequer vai dar a chance aos moradores
da região de conhecerem sua preciosidade. Preferiu manter
o crânio de uma ave pré-histórica num cofre
dentro de casa a exibi-lo no museu. Com mais de 7 mil anos, a peça
foi encontrada em 1988 anos quando Veloso passeava por uma caverna
da região. "Ainda quero ter a certeza de que o museu
vai dar certo", afirma.
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Rodrigues |
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Pela
lei, todos os achados arqueológicos são patrimônios
da União, logo, ninguém da região são
donos das peças. "É lógico que não
vamos tomá-las dos moradores, pois estaríamos na contramão
da nossa proposta", diz a historiadora. "O museu é
na verdade um centro de cultura que serve para conscientizar as
pessoas sobre a importância de compartilhar as descobertas
com a população." O plano é fazer com
que a mentalidade da população saia da pré-história.
Ou seja: vencido os prazos estabelecidos, quem emprestou a peça
se arrependa e resolva deixá-la definitivamente no local.
Uma tarefa nada fácil. A aposentada Vanylda Paolinelli, de
66 anos, avisa: "Minha doação vale só
por seis meses. Eles me garantiram que quando vencer o prazo, vou
poder pegá-la de volta". Vanylda emprestou à
exposição um fóssil de peixe, achado pelo marido
já falecido. "É como se fizesse parte do passado
da minha família. Não posso me desfazer dela."
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