| CRIME
CIBERNÉTICO |
30/03/2001 |
Rede
de horrores
A falta de leis específicas e
modernas destrói ações do Ministério Público no combate à pornografia
infantil na Internet
Leia também: No
limite do abuso
Ana
Cristina Aleixo
Nenhum
dos denunciados nos últimos dois anos pelo Ministério
Público do Rio de Janeiro por difusão de pornografia
infantil eletrônica no País foi punido. Os acusados
foram presos nas operação chamada de Catedral I. A
falta de uma lei brasileira sobre crimes cibernéticos tornou
possível driblar o Estatuto da Criança e do Adolescente
pelo qual é crime fotografar ou publicar cenas de sexo explícito
ou pornográficas que envolvam menores. A transmissão
dessas imagens na Rede via e-mail ou em salas de bate-papo não
corresponde a "publicar" e, portanto, não é
crime. Com esse argumento, todos conseguiram habeas corpus facilmente.
"Sem lei não há justiça", lamenta
o promotor Romero Lyra, que comandou as buscas, semelhantes às
realizadas na Europa e nos Estados Unidos. A primeira operação
resultou na prisão de 21 pessoas, que armazenavam imagens
e vídeos pornográficos infantis em seus computadores
e, embora o processo tenha sido trancado pelo Tribunal de Justiça
do Rio, Lyra pretende denunciar mais 11 suspeitos detidos na segunda
etapa, concluída em fevereiro deste ano.
Responsável pela Coordenadoria de Investigações
Eletrônicas do Ministério Público do Rio de
Janeiro (www.cie.mp.rj.gov.br), inaugurada em dezembro do ano passado,
o promotor considera ainda a pena prevista pelo Estatuto da Criança
"poética". Para rastrear os internautas, Lyra contou
com a colaboração do especialista Wanderley José
de Abreu Junior, ex-hacker que trabalha atualmente para a coordenadoria.
Segundo ele, não é difícil identifica-los.
"As pessoas não tomam cuidado até porque não
há punição", frisa.
Passar foto não é crime
Para o advogado Nilo Batista, que defende um dos denunciados, um
economista carioca, questiona os métodos utilizados pelo
Ministério Público. Segundo Batista, seu cliente possuía
as fotos, mas nunca as passou adiante. Lyra rebate que não
seria possível descobri-lo então. "Capturamos
os internautas em salas de bate-papo, solicitando imagens",
diz Lyra. "Não podemos invadir a máquina de ninguém",
acrescenta.
Batista afirma que as salas de bate-papo são restritas e
os denunciados foram instigados por Wanderley, que entrava nos chats
sob um pseudônimo e solicitava o material. "Não
é possível afirmar que essas pessoas estavam divulgando
qualquer coisa. E se passam através de e-mail, é o
mesmo que enviar uma carta pelo correio e o conteúdo não
interessa a ninguém", diz o advogado. "As imagens
são cruéis, é uma barbaridade que temos de
combater", insiste Lyra, que acredita que a pornografia eletrônica
alimenta a produção dessas fotos.
Entre os acusados, havia também uma médica, um funcionário
público federal e mais de meia dúzia de jovens estudantes
dos melhores colégios e universidades do Rio. Em uma das
muitas apreensões de computadores dos suspeitos, feitas por
Lyra e Wanderley, o ex-hacker foi acusado de ter colocado as fotos
no computador. "Os pais não acreditam que seus filhos
colecionem esse tipo foto", conta Wanderley que também
já assistiu a vídeos editados na Internet de crianças
sendo torturadas com bastões de choque. "Acho que isso
tem a ver com falta de princípios, de moral", opina.
Lyra conta que o processo está nas mãos do Supremo
Tribunal Federal (STF), que ao menos reconhece a existência
de crimes cibernéticos e a necessidade de criar novas leis.
"E ainda que não sejam punidos continuarei meu trabalho
normalmente", avisa o promotor que planeja realizar a Catedral
III ainda este ano. 
| Os
provedores têm culpa? |
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O casal Roseane e Anderson Miranda, moradores de São
José do Campos, interior de São Paulo, responsável
pelo primeiro site pessoal do País contra a pornografia
infantil eletrônica, o www.censura.com.br
, está colhendo assinaturas para agilizar a aprovação
de um projeto de lei da Internet. "Queremos que os provedores
também respondam ao processo", ataca Miranda.
Segundo ele, os adolescentes que buscam e retransmitem essas
fotos são vítimas das empresas que não
controlam o conteúdo de suas páginas. O diretor-presidente
da Associação Brasileira dos Provedores de Acesso,
Serviços e Informações da Rede Internet
(Abranet), Roque Abdo, não aposta na criação
de uma nova lei cibernértica. "Ela existe. O Estatuto
da Criança e do Adolescente é suficiente para
punir essas pessoas", afirma ele que garante encaminhar
as denúncias recebidas para que sejam apuradas.
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