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Política 07/12/2000

Trabalho sem patrão
Briga por nome da sigla enterra fusão de partidos trabalhistas

Aziz Filho

Renato Velasco

As negociações para a fusão do PDT ao PTB voltaram à estaca zero. O ex-governador Leonel Brizola, de 78 anos, se rendeu aos apelos de seus seguidores - envergonhados em aderir a um partido com a marca do adesismo fácil - e exigiu a mudança da sigla. A proposta foi rechaçada pelos deputados do PTB. O fim da sigla enterraria o que talvez seja o último símbolo do trabalhismo, que nos anos 50 fez do PTB um dos três maiores partidos do País e que, paradoxalmente, tem em Brizola seu herdeiro histórico. Em 1980, um ano depois de voltar de um exílio de 15 anos, Brizola perdeu a sigla do PTB na Justiça Eleitoral, fundando o PDT.
"Brizola foi sincero. Ele tem uma turma de patrulheiros que não admitem entrar no PTB, mas não abrimos mão da legenda. Ela tem 55 anos e está viva", diz o presidente do PTB no Rio, deputado Roberto Jefferson, que participou do almoço na casa de Brizola, quando foi feita a proposta de mudança de nome, com os deputados Miro Teixeira (PDT-RJ) e José Carlos Martinez, deputado e presidente do PTB. Jefferson é um dos ícones do PTB atual que os brizolistas não engolem.

A fusão com o PTB seria uma forma enfrentar a reforma política, que deverá exigir um mínimo de votos, provavelmente 5%, para uma legenda se manter. Se faz sentido do ponto de vista legal, a idéia de que a fusão resgataria a força do trabalhismo na Era Vargas beira o delírio. O crescimento do PT e outros partidos de esquerda, a mudança radical da economia e a falta de líderes carismáticos são obstáculos intransponíveis à restauração do trabalhismo à imagem do antigo PTB.

"A economia era muito menos diversificada e o PTB da época nada tem a ver com o de hoje. O herdeiro do trabalhismo foi o PDT, que só tem decrescido de 1989 para cá e está terminando junto com Brizola. É difícil aparecer alguém para ser o fio condutor desta história", descarta o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. Para ele, o modelo econômico da gestão Fernando Henrique, com a retirada do Estado de muitos setores econômicos, tornou o Brasil ainda mais distante dos anos Vargas. Não foi à toa que Fernando Henrique, numa frase histórica, afirmou que sua eleição era o fim da Era Vargas.

Para a cientista política Maria Celina D´Araújo, especialista nos anos Vargas, está em baixa o modelo político fundado na existência de um líder carismático que distribui favores do Estado e fortalece corporações. "Há muito espaço para partidos com discurso de defesa do trabalhador, mas não no sentido antigo. A sociedade caminha para a universalização dos direitos, ao contrário do trabalhismo varguista, que só reconhecia os trabalhadores formais e a burocracia", avalia Maria Celina. Ela lembra que Fernando Henrique desferiu um golpe no modelo getulista, principalmente com as privatizações. "Mas não se zera a história de uma hora para outra. Muitas criações de Getúlio se mantém, como o imposto sindical, o sindicato único e os privilégios do Poder Judiciário e dos militares." Quanto à fusão com com o PTB, se ocorrer, segundo Maria Celina, representará "a extinção do PDT junto com Brizola". 


 



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