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ELEIÇÕES
Afinal,
por que Maluf?
Apesar
dos muitos escândalos envolvendo seu nome, Paulo Maluf conseguiu
o voto de 40% dos paulistanos no segundo turno e ainda é o maior
líder da direita em São Paulo
Juliana
Vilas
O
arquiteto Youssef Sleiman, de 29 anos, está inserido nos quase 17%
dos votos válidos convictamente malufistas. Ele é arquiteto e dono
de uma badalada loja de decoração no Tatuapé, com 900 metros quadrados.
Youssef jura que é simples coincidência, mas a loja fica na avenida
Salim Farah Maluf. "Admiro o Maluf por ser um homem polêmico. Ninguém
é indiferente a ele, ou ama ou odeia. Além disso, ele faz parte
da história do País." As justificativas para a fidelidade são muitas,
nem mesmo as denúncias e escândalos que envolvem o ex-prefeito são
capazes de fazer o malufista mudar de idéia. O velho "rouba mas
faz", herdado de Adhemar de Barros, é usado para inocentar o ídolo.
Esses eleitores não acham que a corrupção é um problema sério. Sílvio
Ruggieri mora na Vila Matilde, é dono de uma loja no bairro da Luz
e acha que na política todos roubam e Maluf não é diferente de ninguém.
Segundo ele, "malufista é como corintiano, sofre mas não desiste."
A mulher dele, Carmem, de 54 anos, também trabalha na loja, concorda
com a posição do marido e vai além. "Durante anos, tinha uma foto
do Maluf no tampo do balcão; tenho confiança nele, que é competente,
destemido e cheio de garra."
Há
uma parcela significativa da população que mora na cidade de São
Paulo e, independentemente dos fatos, nunca deixou de votar e apoiar
o político Paulo Maluf. Esse quase 1,2 milhão de pessoas está dentro
de um universo três vezes maior: o eleitorado conservador, que pode
ser classificado como de direita. Considerando que o número de malufistas
convictos diminuiu muito de 10 anos para cá, pode-se afirmar que
há espaço para o surgimento de outro líder carismático que represente
os anseios desse paulistano. O cientista político Fernando Abrucio
diz que de 30% a 40% do eleitorado da cidade é conservador, antes
de ser malufista: "O que os malufistas vêem no Maluf pode estar
em outro líder. O conservador quer uma sociedade 'limpa', sem violência,
sem baderna e com muita ordem e trabalho." Em geral, eles pertencem
à classe média que não teve acesso à universidade e têm bom poder
aquisitivo. Na definição do sociólogo Antônio Flávio Pierucci, autor
de pesquisas e livros sobre os eleitores da cidade de São Paulo,
"o malufista mais velho não foi à universidade - a vida intelectual
se resume à telenovela - mas pôde pagar curso superior para os filhos.
A maioria é comerciante, profissional liberal, taxista..."
Esse
paulistano conservador pode ser definido também por certa aversão
a homossexuais, nordestinos e negros. "Não sou contra as pessoas
que vêm ganhar a vida em São Paulo, mas acho que eles acabam roubando
empregos de paulistas e paulistanos", acredita Carmem, que nasceu
no interior do Estado mas veio para a capital aos dois meses.Essa
opinião é endossada por Youssef: "Eu culpo os políticos de outros
Estados, que não investem e obrigam os moradores a procurar emprego
em outras cidades, como São Paulo." A maioria nasceu ou mora na
cidade há muitos anos e em geral são moralistas e consideram a prática
mais importante do que a teoria - o que em parte explica a preferência
por um governante empreendedor. Pierucci é tachativo: "Esse eleitor
quer eficiência e trabalho, é antiintelectual e acha que os fins
justificam os meios." Outras características são o individualismo
e a insegurança, que vêm acompanhado de ojeriza aos "ladrões, assassinos
e marginais". Quando Paulo Maluf disse, durante a última campanha,
que direitos humanos não são para "bandidos", ele sabia com quem
estava falando. Segundo Pierucci, "esse paulistano conservador acha
que defesa de direitos humanos é coisa de padres" e que a violência
deve ser combatida com rigidez pelo governo.
Por
meio de pesquisas e estudos, o sociólogo descobriu que o voto conservador
tem endereço certo, está nos bairros da Moóca, Penha, Tatuapé, Vila
Maria, Brás e Belém, fato que pôde ser confirmado pela distribuição
dos votos na última eleição. Esses bairros - que por causa do crescimento
acabaram ficando no centro da cidade - abrigaram fábricas no início
do século e os imigrantes italianos que vinham trabalhar como operários.
Hoje, é o reduto dos paulistanos típicos, que não escolhem partido,
votaram em Jânio e Adhemar e agora preferem Maluf. "Eu voto no Maluf,
nem conheço o partido dele", afirma Carmem, que não esconde a admiração
pelo ex-prefeito. É importante salientar, porém, que se continuarem
pipocando acusações contra Maluf, ele pode perder esse eleitorado
cativo. Fernando Abrucio afirma que "há espaço para o surgimento
de novas lideranças conservadoras, que conquistem esses 40%". E
completa: "Agora, o desafio da nova prefeita é conquistar e governar
para essa parcela também, que faz parte da sociedade paulistana."
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