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Memória 23/08/2001

Um presidente chamado Jânio
Há 40 anos, renunciava à Presidência da República
um dos maiores políticos da história brasileira

ÁLBUM DE FOTOS As caras de Jânio Jânio na política
TESTE Ele proibiu o uso de biquínis?
FÓRUM Sem renúncia, o Brasil seria melhor?
RESPONDA Qual o melhor presidente do Brasil?
OUÇA o jingle da campanha presidencial de 1960

Ana Cristina Aleixo

Hélio Campos Mello
Jânio Quadros em 1º de março de 1978, ensaiando sua volta após ter seus direitos políticos cassados por dez anos

Há 40 anos, Jânio da Silva Quadros renunciava à Presidência da República. Alegando estar sendo pressionado por "forças terríveis", enviou carta ao Congresso Nacional no dia 25 de agosto de 1961, onde escreveu: "Nesta data e por este instrumento, deixando com o ministro da Justiça as razões do meu ato, renuncio ao mandato de presidente da República". Até hoje, os motivos não foram esclarecidos. Acredita-se que seu objetivo era obter do Parlamento carta-branca para governar. Para tanto, jogava com o temor dos progressistas de que houvesse um golpe militar e com o medo das Forças Armadas de que um esquerdista como João Goulart, o vice, assumisse o País.

Eleito pela UDN com 5,6 milhões de votos, Jânio usou a faixa presidencial por apenas sete meses. Compôs um Ministério sem nomes expressivos e inaugurou a política dos bilhetinhos para transmitir ordens aos seus assessores. Durante o seu mandato criticou o governo de seu antecessor, Juscelino Kubitscheck, e a inflação que seu projeto de desenvolvimento implantara, reatou as relações com a União Soviética, assumindo uma posição antiamericanista, e criou os ministérios da Indústria e Comércio e das Minas e Energia. Mas foram medidas polêmicas, como a condecoração do revolucionário Ernesto Che Guevara, a proibição do biquíni, das brigas de galo e do lança-perfume no Carnaval, que lhe renderam fama.

Varre vassourinha - Até a presidência, a carreira de Jânio Quadros na política foi meteórica. Por São Paulo foi eleito vereador (1947), deputado estadual (1951), prefeito de São Paulo (1953) e governador do Estado (1955). Dono de um estilo populista, vestia-se com roupas simples (e amarrotadas), deixava barba por fazer e exibia os ombros brilhando de caspa. Ao cumprimentar os eleitores, fazia questão de mostrar os bolsos cheios de sanduíches de mortadela e pão com banana. Angariou votos também com a promessa de "varrer os ratos, os ricos e os reacionários da máquina pública", levando multidões às praças e avenidas, empunhando vassouras.

Nascido em janeiro de 1917, na cidade de Campo Grande, atual capital de Mato Grasso do Sul, o filho do casal Gabriel Quadros e Leonor da Silva mudou-se para São Paulo adolescente. Dedicado a ler e escrever, ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em 1935. Jânio mal exercia a profissão de advogado, mas com o dom da oratória não foi difícil trabalhar como professor de geografia e português. Em 1947, pensou em disputar uma cadeira de vereador na capital paulista. Não fosse a insistência dos alunos do curso secundário, teria desistido. Em três anos como vereador, apresentou mais requerimentos e projetos de lei do que qualquer outro membro do Poder Legislativo no Brasil e também assinava todo manifesto em favor dos trabalhadores. Assim, ganhou as eleições para deputado estadual, pelo Partido Democrático Cristão (PDC).

Golpe militar - Então, passou a trabalhar mais de 15 horas por dia. Às vezes, chegava em casa tão cansado que dormia sem vestir o pijama e saía, na manhã seguinte, com a mesma roupa do dia anterior. Quando resolvia tomar banho na banheira, esvaziava os frascos de perfume de sua mulher, dona Eloá - com quem teve uma filha, Dirce Tutu. Em sua jornada, teve de enfrentar a oposição que não lhe poupava ataques pessoais. Diziam que Jânio era deselegante e alcoólatra. Começava a beber no almoço, sem hora para terminar. Gostava de cachaça e cerveja, embora nos últimos anos de vida só tomasse vinho do Porto. A quem perguntava por que bebia tanto, soltava uma de suas pérolas: "Bebo porque é líquido. Se sólido fosse, comê-lo-ia."

Não é de admirar que o gesto de renúncia tenha chocado seus fiéis eleitores, sua mulher que, confessa, não esperava que o marido abandonasse a Presidência. Mas o pior estava por vir: sua saída permitiria o Golpe Militar três anos depois. O deputado Ranieri Mazzili, presidente da Câmara Federal, assumiu o posto de Jânio até que o vice-presidente João Goulart voltasse de sua visita a Hong Kong, na China, em avião "especialmente" fretado. No País, Jango enfrentou a oposição de militares que desejavam impedir sua posse e para não perder o poder totalmente, acabou aceitando a solução conciliatória do parlamentarismo. Assim mesmo, trabalhou ativamente pelo retorno do presidencialismo, conseguindo um plebiscito, em 1963, que lhe deu vitória.

Tentando superar a crise econômica e a oposição ao se governo lançou as "reformas de base", com propostas de reforma agrária e direito de voto aos analfabetos. Entretanto, o medo das camadas conservadoras do País levaram os militares a dar um golpe, em 31 de março de 1964, depondo Jango, que se exilou no Uruguai.

Fora FHC - O governo militar cassou os direitos políticos de Jânio por dez anos. Com a Anistia, em 1979, ele começou sua volta à política. Concorreu e perdeu a eleição para o governo de São Paulo em 1982. Em 1985, voltou à cena e disputou voto a voto a Prefeitura de São Paulo com Fernando Henrique Cardoso. Venceu por pouco. A primeira medida foi despejar inseticida na célebre cadeira em que, amparado por pesquisas que indicavam sua vitória, FHC sentara na véspera das eleições. Foi nessa época que proibiu que veículos estacionassem sobre as calçadas. Quando perguntavam se ele acreditava que altas multas mudariam a postura dos motoristas, respondia: "Não, não acredito, mas vou tirar dinheiro do bolso deles". Também pagava as passagens de volta a imigrantes de outros Estados. Fragilizado pelas denúncias de que teria uma conta bancária na Suíça, Jânio acabou o mandato pendurando, literalmente, as chuteiras na porta de seu gabinete. Depois de sofrer três derrames cerebrais, morreu a 16 de fevereiro de 1992, aos 75 anos.

 



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