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Um presidente chamado Jânio
Há 40 anos, renunciava à Presidência
da República
um dos maiores políticos da história brasileira
Ana
Cristina Aleixo
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Hélio
Campos Mello
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Jânio
Quadros em 1º de março de 1978, ensaiando sua volta após ter
seus direitos políticos cassados por dez anos
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Há 40 anos, Jânio da Silva Quadros renunciava à
Presidência da República. Alegando estar sendo pressionado
por "forças terríveis", enviou carta ao
Congresso Nacional no dia 25 de agosto de 1961, onde escreveu: "Nesta
data e por este instrumento, deixando com o ministro da Justiça
as razões do meu ato, renuncio ao mandato de presidente da
República". Até hoje, os motivos não foram
esclarecidos. Acredita-se que seu objetivo era obter do Parlamento
carta-branca para governar. Para tanto, jogava com o temor dos progressistas
de que houvesse um golpe militar e com o medo das Forças
Armadas de que um esquerdista como João Goulart, o vice,
assumisse o País.
Eleito pela UDN com 5,6 milhões de votos, Jânio usou
a faixa presidencial por apenas sete meses. Compôs um Ministério
sem nomes expressivos e inaugurou a política dos bilhetinhos
para transmitir ordens aos seus assessores. Durante o seu mandato
criticou o governo de seu antecessor, Juscelino Kubitscheck, e a
inflação que seu projeto de desenvolvimento implantara,
reatou as relações com a União Soviética,
assumindo uma posição antiamericanista, e criou os
ministérios da Indústria e Comércio e das Minas
e Energia. Mas foram medidas polêmicas, como a condecoração
do revolucionário Ernesto Che Guevara, a proibição
do biquíni, das brigas de galo e do lança-perfume
no Carnaval, que lhe renderam fama.
Varre vassourinha - Até a presidência, a carreira
de Jânio Quadros na política foi meteórica.
Por São Paulo foi eleito vereador (1947), deputado estadual
(1951), prefeito de São Paulo (1953) e governador do Estado
(1955). Dono de um estilo populista, vestia-se com roupas simples
(e amarrotadas), deixava barba por fazer e exibia os ombros brilhando
de caspa. Ao cumprimentar os eleitores, fazia questão de
mostrar os bolsos cheios de sanduíches de mortadela e pão
com banana. Angariou votos também com a promessa de "varrer
os ratos, os ricos e os reacionários da máquina pública",
levando multidões às praças e avenidas, empunhando
vassouras.
Nascido em janeiro de 1917, na cidade de Campo Grande, atual capital
de Mato Grasso do Sul, o filho do casal Gabriel Quadros e Leonor
da Silva mudou-se para São Paulo adolescente. Dedicado a
ler e escrever, ingressou na Faculdade de Direito do Largo São
Francisco, em 1935. Jânio mal exercia a profissão de
advogado, mas com o dom da oratória não foi difícil
trabalhar como professor de geografia e português. Em 1947,
pensou em disputar uma cadeira de vereador na capital paulista.
Não fosse a insistência dos alunos do curso secundário,
teria desistido. Em três anos como vereador, apresentou mais
requerimentos e projetos de lei do que qualquer outro membro do
Poder Legislativo no Brasil e também assinava todo manifesto
em favor dos trabalhadores. Assim, ganhou as eleições
para deputado estadual, pelo Partido Democrático Cristão
(PDC).
Golpe militar - Então, passou a trabalhar mais de
15 horas por dia. Às vezes, chegava em casa tão cansado
que dormia sem vestir o pijama e saía, na manhã seguinte,
com a mesma roupa do dia anterior. Quando resolvia tomar banho na
banheira, esvaziava os frascos de perfume de sua mulher, dona Eloá
- com quem teve uma filha, Dirce Tutu. Em sua jornada, teve de enfrentar
a oposição que não lhe poupava ataques pessoais.
Diziam que Jânio era deselegante e alcoólatra. Começava
a beber no almoço, sem hora para terminar. Gostava de cachaça
e cerveja, embora nos últimos anos de vida só tomasse
vinho do Porto. A quem perguntava por que bebia tanto, soltava uma
de suas pérolas: "Bebo porque é líquido.
Se sólido fosse, comê-lo-ia."
Não é de admirar que o gesto de renúncia
tenha chocado seus fiéis eleitores, sua mulher que, confessa,
não esperava que o marido abandonasse a Presidência.
Mas o pior estava por vir: sua saída permitiria o Golpe Militar
três anos depois. O deputado Ranieri Mazzili, presidente da
Câmara Federal, assumiu o posto de Jânio até
que o vice-presidente João Goulart voltasse de sua visita
a Hong Kong, na China, em avião "especialmente"
fretado. No País, Jango enfrentou a oposição
de militares que desejavam impedir sua posse e para não perder
o poder totalmente, acabou aceitando a solução conciliatória
do parlamentarismo. Assim mesmo, trabalhou ativamente pelo retorno
do presidencialismo, conseguindo um plebiscito, em 1963, que lhe
deu vitória.
Tentando superar a crise econômica e a oposição
ao se governo lançou as "reformas de base", com
propostas de reforma agrária e direito de voto aos analfabetos.
Entretanto, o medo das camadas conservadoras do País levaram
os militares a dar um golpe, em 31 de março de 1964, depondo
Jango, que se exilou no Uruguai.
Fora FHC - O governo militar cassou os direitos políticos
de Jânio por dez anos. Com a Anistia, em 1979, ele começou
sua volta à política. Concorreu e perdeu a eleição
para o governo de São Paulo em 1982. Em 1985, voltou à
cena e disputou voto a voto a Prefeitura de São Paulo com
Fernando Henrique Cardoso. Venceu por pouco. A primeira medida foi
despejar inseticida na célebre cadeira em que, amparado por
pesquisas que indicavam sua vitória, FHC sentara na véspera
das eleições. Foi nessa época que proibiu que
veículos estacionassem sobre as calçadas. Quando perguntavam
se ele acreditava que altas multas mudariam a postura dos motoristas,
respondia: "Não, não acredito, mas vou tirar
dinheiro do bolso deles". Também pagava as passagens
de volta a imigrantes de outros Estados. Fragilizado pelas denúncias
de que teria uma conta bancária na Suíça, Jânio
acabou o mandato pendurando, literalmente, as chuteiras na porta
de seu gabinete. Depois de sofrer três derrames cerebrais,
morreu a 16 de fevereiro de 1992, aos 75 anos. 
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