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Fórum Social

Quem é essa mulher?

Kátia Mello - Porto Alegre

Rogério Ribeiro

Ela escandalizou o Fórum Social Mundial em Porto Alegre ao chamar o megaespeculador George Soros de "assassino" durante uma teleconferência, transmitida ao vivo em Porto Alegre e reeditada para as televisões da Europa e Estados Unidos. Com cabelos brancos cobertos pelo tradicional lenço, Hebe Bonafini, 72 anos, presidente da Associação Mães da Praça de Maio, que perdeu três filhos durante a última ditadura militar argentina (1976-1983), simbolizou a raiva dos que se opõem ao neoliberalismo. Antes do debate no domingo, Hebe concedeu a seguinte entrevista à ISTOÉ, num prenúncio das farpas que viriam:

ISTOÉ - O que é a Associação das Mães Praça de Maio?
Hebe Bonafini - Somos as mães dos desaparecidos na ditadura militar da Argentina. Há 24 anos estamos nesta luta realizando marchas de protesto. Hoje já temos quinze filiais, com 15 mil mães e 20 núcleos de solidariedade em todo o mundo. Participamos de todas as lutas sociais que se desenvolvem na Argentina.

ISTOÉ - A sra. sempre criticou os governos argentinos pela maneira como conduzem a política nacional. Mudou algo com o presidente Fernando De la Rúa?
Hebe - O governo De la Rúa é o mesmo de Menem e o mesmo de Alfonsín, todos dependentes do Fundo Monetário Internacional. O FMI vem ao país e diz que é necessário globalizar. Isso é vender o país. São milhões de dólares que vão embora e aumentam cada mais a dívida externa. O que De la Rúa está fazendo é prostituição, não é política. Nossos filhos desapareceram porque acreditavam em um novo plano econômico que na época já tinha relação com a dívida. Nós dizemos que o governo paga a dívida externa com vidas. A falta de trabalho é um crime e por esse crime ninguém paga. Há oito milhões de homens e mulheres vivendo na marginalidade, no subemprego e no desemprego. O governo não governa para o povo, mas para a classe média alta. Mentem, enganam, gastam o dinheiro do país.

ISTOÉ -Qual é a saída?
Hebe - A saída é uma união tão significativa como essa do Fórum Social Mundial e nos darmos conta que a dívida não deve ser paga. Porque eles nos devem a vida. Cada vez que aumenta o custo da dívida e a especulação monetária, há mais mortes. Mortes causadas pela pobreza, pelo desemprego. Neste minuto em que estamos conversando, 1.500 crianças morrem de fome. As Mães da Praça de Maio não cobram uma reparação econômica do governo, que se propõe a dar US$ 150 mil a cada desaparecido. Não vamos reconhecer a morte dos nossos filhos para que a vida não se converta em dinheiro. Acreditamos que a vida vale vida. Que não podemos vender o sangue dos nossos filhos. Tampouco aceitamos museus ou monumentos. Porque os museus e monumentos representam a morte. E nós não temos nada que ver com a morte. Acreditamos na vida.

ISTOÉ - O que querem as Mães da Praça de Maio?
Hebe - As Mães querem mostrar ao mundo que não queremos um lugar para colocar os mortos, porque há milhares de mortos que não vão aparecer. Corpos queimados, jogados no mar, nos rios etc. Nunca vamos reconhecer a morte, porque o assassinato prescreve o desaparecimento forçado de milhares de pessoas. Somos a única organização na América Latina que repudia os monumentos, a exumação de cadáveres, os museus e a reparação. A exumação de cadáveres é uma luta individual. E não foi um militar que veio buscar meus três filhos. Isso foi organizado e preparado nos EUA para levar adiante em toda a América Latina essas ditaduras e o aniquilamento de tudo o que fosse de esquerda. Esperamos ações diretas para que as pessoas aprendam que não temos que pagar a dívida externa. O capitalismo não é a única solução. E este fórum em Porto Alegre, brilhantemente organizado, com esse número enorme de pessoas, está demonstrado que há outras maneiras de se pensar. Seguramente em Davos, eles estão se dando conta disso.

ISTOÉ - Como a senhora avalia o relatório divulgado pelos militares do Chile que confirmaram pela primeira vez que a ditadura de Pinochet matou milhares de pessoas, dando conta inclusive de alguns lugares onde devem estar os corpos dos desaparecidos?
Hebe
- Tudo é mentira dos políticos. Todo mundo sabe quem é Pinochet e ainda pensam se vão condená-lo ou não. Ainda o chamam de general, de senador e não de assassino, de violador. É uma farsa para entreter as pessoas. Vão ainda ver se ele está meio louco o quê? É muita vergonha. Quando os militares chegaram às nossas casas não perguntaram nada e levaram nossos filhos. E agora aparece esse sem-vergonha. A justiça está dependendo do poder político e o poder político dos militares. E ainda no final, são os grandes grupos econômicos que decidem. Eles nos vão asfixiando por todos os lados.

ISTOÉ - Há uma crescente preocupação com os Direitos Humanos?
Hebe - Direitos Humanos são pura declaração. Todos os países fizeram pacto contra a tortura, porém ela continua acontecendo em todo o mundo. E se matam pessoas na tortura. E quem fiscalizará para que não haja violação dos Direitos Humanos, se o Conselho de Segurança da ONU está formado pelos Estados Unidos, pela China, pela França? Até agora EUA e França não firmaram o famoso acordo para o estabelecimento do Tribunal Internacional de Crimes e se todos os países não assinarem, esse acordo não sai. Fazem grandes reuniões, vamos a todas e nada acontece. Vão haver mais violações até que o povo realmente aprende que tem que sair na rua a protestar. E isso é uma maneira de sinalizar a eles que podemos fazer. Em Davos, muitos estão com certeza nas pessoas que vieram a Porto Alegre. Nós estamos aqui por amor ao Homem. Por amor à vida. E eles pensam só em dinheiro. E dinheiro é a morte. Eles são os amantes do dinheiro. Estão interessados apenas em saber o quanto vão lucrar em cada país. Nós estamos aqui pela vida.

ISTOÉ - Antes de desaparecem seus três filhos, a senhora já tinha algum envolvimento político na Argentina?
Hebe - Eu não sabia nada de política. E como não tinha freqüentado a escola, era muito ignorante. E com o desaparecimento dos meus filhos fiquei na solidão da ignorância, sem saber para onde eles tinham partido. E por isso hoje amo o saber. Um povo alfabetizado é muito difícil dominar. Um povo politizado é como uma tormenta, uma rebeldia permanente.

ISTOÉ - Depois de tanto tempo a dor ainda existe?
Hebe - A dor é para sempre. Quando uma mãe gera um filho, isso é vida. Quando o filho não está mais, é como se a mãe tivesse sido mutilada, vai embora uma parte do seu corpo. E a mutilação é para sempre. Mas nós, as mães, nos encontramos em cada um que luta, nos encontramos aqui lutando. Sentimos um pouco que cada uma dessas pessoas aqui do Fórum é como um de nossos filhos que segue lutando, porque se eles estivessem vivos é isso que estariam fazendo. Assim que isso nos dá a possibilidade de mais vida. Eu tenho 72 anos e me sinto mais jovem do que antes. O dia que desapareceu meu primeiro filho senti que era velhíssima. Que nunca mais poderia me levantar. E naquele momento eu pensei que teria que viver ou morrer. E escolhi viver. Viver para outros. Meus filhos sempre me diziam: "mamãe, vida vale quando nos colocamos a serviço do outro. Quando se é solidário. É quando a vida vale". E eles tinham razão.



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