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A
guerra das agulhas
Sem regulamentação específica,
aplicação da milenar prática chinesa é disputada por fisioterapeutas
e médicos
Luciana
Ackermann
O
Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia ocupacional (COFFITO)
acaba de reconhecer a acupuntura como especialidade do fisioterapeuta,
por meio da resolução nº 218/2000. No entanto,
o Conselho Federal de Medicina (CFM) também tem uma resolução,
a de nº 1.455/95 que a prevê como especialidade médica.
Ainda embarcam nessa onda profissionais de farmácia, de biomedicina
e de enfermagem. A polêmica que envolve a acupuntura não
é nova. A falta de um consenso é retrato da ausência
de legislação em torno do assunto. Há um projeto
de lei, o 067/95, que regulamenta a prática para odontologia
e medicina veterinária, além da medicina convencional.
Também assegura àqueles que atuam fora da área
médica e que a praticam há mais três anos possam
dar continuidade às suas funções. Mas, por
enquanto não há menor previsão de quando será
a votação.
Durante muito tempo torceu-se o nariz para a técnica. Alguns
avaliavam como um despropósito utilizar agulhas em busca
da cura. Com o passar dos anos a acupuntura deixou para trás
o aspecto de excentricidade e o conceito de medicina alternativa
foi se diluindo. Em 1995, passou a ser a agregar o leque de especialidades
da medicina. Isso graças aos bons resultados que foram comprovados
com o uso da técnica.
Briga
de corporações
Para o presidente do COFFITO, Ruy Gallarte de Menezes, um fisioterapeuta
acupunturista tem todas as condições de fazer um diagnóstico,
da mesma maneira que também pode solicitar diversos exames
quando tecnicamente justificado. Além disso, Gallarte ressalta
que os conselhos profissionais são órgãos com
o mesmo status institucional, legal e social. "Uma resolução
do CFM é corporativas como todas as outras, só tendo
efeito sob os membros daquela corporação", resume
o presidente. Ele também afirma que os fisioterapeutas foram
os primeiros a utilizar a acupuntura e desde 85 o conselho entendeu
que era preciso dar um controle ético para essa prática
e assim proteger o meio social, já que não seu uso
não era reconhecido pelo estado, mas a sociedade se interessava.
"Está faltando o entendimento do que vem a ser uma resolução
corporativa. Cada profissão de saúde tem o seu diagnóstico
específico e tem uma visão muito pontual sob a assistência
que presta", diz o presidente.
De
acordo com Genário Alves Barbosa, representante da Paraíba
no CFM, o grande problema é que algumas das especialidades
estão invadindo a área médica e a acupuntura
tem sido uma delas. Ele explica que qualquer especialidade é
caracterizada pela residência com dois ou três anos
em uma área de conhecimento, além de cursos de mestrado,
doutorado e pós-graduações. "Um médico
tem de cumprir esses critérios para se tornar um acupunturista.
Trata-se de um ato de médico que não pode ser exercido
por outra profissão, pois é o único profissional
habilitado para traçar um diagnóstico", avalia
o conselheiro. Já Gallarte diz que os parâmetros e
os princípios da acupuntura são distintos, referem-se
aos pontos energéticos e isso nenhum profissional da área
médica aprende na universidade ocidental: "Não
se pode utilizar os mesmos parâmetros da ciência de
saúde do mundo ocidental. Não há equivalência.
São outras fundamentações. Trata-se de uma
agregação posterior que qualquer profissional de saúde
pode fazer".
Dentro
da concepção chinesa, a doença é uma
manifestação de desequilíbrio, e a acupuntura
seria uma forma de readquirir a harmonia perdida. Na China, essa
é a medicina popular. Entre as doenças tratáveis
pela técnica estão: dores em geral, especialmente
do aparelho músculo-esquelético, gastrite, stress,
distúrbios hormonais, insônia, asma, distúrbios
menstruais, paralisia facial, sinusite, incontinência urinária.
Para
o presidente da Associação Médica de Acupuntura
(AMBA), Ruy Tanigawa, o tema deverá ser discutido em nível
nacional junto aos ministérios da Educação
e da Saúde, pois é de extrema importância para
a população. "É um ato invasivo, pois
ao introduzir uma agulha e perfurar a pele, mesmo que se use o laser,
atinge estruturas profundas que podem provocar lesões e para
isso um fisioterapeuta não está preparado", exemplifica
Tanigawa.
Ele
ainda alega que às vezes, a dor na coluna pode ser conseqüência
de uma patologia como um tumor. O especialista no assunto Ysao Yamamura,
chefe do Setor de Medicina Tradicional Chinesa e Acupuntura da Universidade
Paulista de Medicina (Unifesp) e presidente da Unidade Brasil da
Associação Médica Mundial de Acupuntura, faz
coro à opinião de Tanigawa. "O ponto de partida
para aplicar a técnica milenar da acupuntura é o diagnóstico
e que isso está restrito a função de um médico".

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