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POLÍCIA

O crime da ilha
Homicídio abala a tranqüilidade de Ilhabela, paraíso turístico do litoral norte de São Paulo

Adriana Souza Silva

A morte de Hugo foi a sexta ocorrida este ano

No domingo 26 mais uma cidade brasileira se vestirá de branco durante uma passeata para protestar contra a violência. A morte do empresário Hugo Luís Neves, 57 anos, em Ilhabela (litoral norte de São Paulo), no final de semana passado, chocou os moradores. Dono do restaurante Pitanga, um dos mais badalados na ilha, Neves levou um tiro na cabeça quando chegava em casa com todo o dinheiro da féria do dia no bolso da calça. Assustados com o desfecho fatal, os ladrões fugiram. A polícia trabalha com a hipótese de latrocínio. Dois suspeitos já foram presos. Tal notícia não teria provocada a mesma reação numa capital como São Paulo, em que homicídios causados após a tentativa de roubo ocorrem a cada dois dias. Na ilha, porém, um episódio desses não era visto há cinco anos. Os assaltos à mão armada, sem vítima fatal, não passam de seis neste ano. Homicídios, só em briga de bar, e foram apenas cinco.

Por mais que a mobilização pareça exagerada, os comerciantes sentem que a calma da pacata ilha paradisíaca está ameaçada. Aos gritos de "Acorda Ilhabela", desfilarão com cartazes e acenarão lenços pelas ruas do centro. Nos anos anteriores, o índice desse tipo de ocorrência era de no máximo três roubos com arma de fogo, sem nenhuma morte. "Com respeito às vítimas, estamos num nível de segurança alto se comparado ao resto do Estado. Temos a vantagem de ter quase todos os casos solucionados pelo fato de só haver uma única saída para o bandido, a balsa", diz o delegado de Ilhabela Eliel Rizzioli. Já a interpretação desses números num local com 20 mil habitantes é outra. "As autoridades precisam acordar, ver que a ilha tem famílias, está crescendo e por isso quer mais segurança", afirma o empresário Achiles Torelli, dono do restaurante Barlavventto. "Temos de sair dessa letargia de que tudo aqui é festa, é só turismo", completa a viúva de Neves, Lícia Maria Ferreira, lembrando que o marido costumava dizer que era preciso alguém morrer para que fosse tomada uma providência.

Licia: temos de sair desta letargia

O cenário de Ilhabela, de fato, remete à imagem de um local de segurança. Não é raro ver casas sem portão ou carros abertos com o toca-fitas dando sopa. Como quase todos os moradores se conhecem, ficaria fácil identificar os autores do furto. Ao mesmo tempo, a facilidade de saber da vida alheia atrapalha, já que é possível acompanhar o movimento das lojas e a rotina dos comerciantes para planejar um assalto futuro. Foi o que aconteceu com Torelli, há dois anos. Os ladrões sabiam a hora exata em que iria fechar o Barlavventto para voltar para casa quando ele foi assaltado. O assassino de Neves também tinha conhecimento de que ele voltaria com o dinheiro, já que oito meses antes sua esposa foi abordada na porta de casa por dois encapuzados. Ela jogou a bolsa, que estava vazia, no chão e correu. No último fim de semana, porém, a cena se repetiu. Mas, desta vez, os ladrões entraram com ela na casa. Minutos depois, Neves chegaria com o dinheiro.

A polícia suspeita que esses assaltantes pertençam a uma mesma quadrilha. Sim, a ilha paradisíaca também tem ladrões, traficantes, problemas sociais, ocupação desordenada em morros. Embora haja a iniciativa da prefeitura na construção de oficinas profissionalizantes e atividades sócio-recreativas, o desemprego é uma variável importante numa economia que depende 50% do dinheiro gasto pelos turistas. "A cidade cresceu, mas o número de policiais (23 militares) não. Aos fins de semana, temos o mesmo efetivo para uma população que praticamente dobra", avalia a prefeita Nilce Signorini. A assessoria de imprensa da Polícia Militar informa que há estudo para aumentar o policiamento no local, mas nada está previsto a curto prazo. Um reforço deverá chegar à ilha nesta semana apenas por conta da operação verão, que vai até fevereiro. A PM garante que moradores e visitantes estarão seguros para desfrutar a ilha e observar casarões, como o de Ivo Noal, ou ver artistas famosos, como Regina Duarte. Pelo menos, nas férias. 



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