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MEIO
AMBIENTE
A
ameaça dos mortos
Líquido de corpos em decomposição
nos cemitérios pode contaminar a água
Luciana
Ackermann
Cada
vez mais se reconhece a importância do meio ambiente, a necessidade
de não se desperdiçar água e de preservar a natureza. Porém, nessa
onda alguns pontos passam batidos. Um deles, apesar de mórbido,
refere-se à poluição que os cemitérios podem causar. Poucos imaginam,
mas os mortos são capazes de se tornar perigosos poluentes. É que
o processo de decomposição de um corpo, que ao todo leva em média
dois anos e meio, dá origem a um líquido chamado necrochorume. Este
composto é eliminado durante o primeiro ano após o sepultamento.
Trata-se de um escoamento viscoso, com a coloração acinzentada que
com a chuva pode atingir o aqüífero freático, ou seja, a água subterrânea
de pequena profundidade. O geólogo e professor da Universidade São
Judas Tadeu, de São Paulo, Lezíro Marques Silva, que há quase 30
anos dedica-se a pesquisas sobre o tema, verificou a situação em
600 cemitérios do País e constatou que cerca de 75% deles poluem
o meio ambiente. Ora por não tomarem o devido cuidado com o sepultamento
dos cadáveres, ora pela localização em terrenos inapropriados. Ele
aponta, por exemplo, o limite de dois metros acima do lençol freático
para o sepultamento de um morto. O necrochorume é formado por 60%
de água, 30% de sais minerais e 10% de substâncias orgânicas, duas
delas altamente tóxicas: a putresina e a cadaverina. "Em São Paulo
há vetores transmissores da poliomielite e da hepatite e as pessoas
que não têm acesso à rede pública de abastecimento e utilizam poços
é que são afetadas. Se em São Paulo a situação já é grave, imagine
nos cantões do País?", questiona o professor.
Terra
de ninguém
Mesmo
diante dos riscos, não há legislação específica e nem mesmo um órgão
destinado a fiscalizar eventuais contaminações. Até mesmo a literatura
voltada ao tema é escassa. Dessa forma, fica a cargo de cada município
resolver suas pendengas. O professor Alberto Pacheco, do departamento
de Geociências da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador
do Centro de Pesquisas das Águas Subterrâneas (Cepas), alerta que
as áreas municipais são aquelas que mais apresentam problemas e
é categórico: "Todo cemitério é um risco potencial para o meio ambiente,
mas só é um risco efetivo quando não estão implantados adequadamente.
Para isso, é preciso avaliar as condições básicas geológicas (tipo
de solo) e hidrogeológicas (profundidade no nível do aqüífero freático).
E as prefeituras, geralmente, utilizam terrenos com valores depreciados
e não se atêm a qualquer tipo de iniciativa". Pacheco ainda conta
que a Cetesb tem uma norma técnica voltada ao assunto, que traz
um conjunto de procedimentos para a instalação segura de um cemitério.
Porém, o órgão alega que não faz parte de suas atribuições fiscalizar
o cumprimento da norma.
Enquanto
isso, aumentam-se os riscos na saúde pública. Desde o final da década
de 80, o professor Pacheco tem realizado estudos de investigação
nos cemitérios de Vila Nova Cachoeirinha e de Vila Formosa e nesse
trabalho foi verificado a contaminação da água por microrganismos
(bactérias e vírus). Atualmente, está sendo desenvolvido um estudo
para verificar quais são os microrganismos patogênicos. "Todos os
trabalhos executados pela universidade têm como principal objetivo
mostrar a realidade e chamar atenção de órgãos ambientais e sanitários
para os riscos existentes. Os problemas devem ser equacionados para
garantir a qualidade de vida aos cidadãos", resume o pesquisador.
Sepultamento
de qualidade
Há
dois anos, um cidadão comum denunciou ao Ministério Público de Curitiba
a existência de um líquido que saía do cemitério e avançava às margens
de um rio local. Foram realizadas uma série de análises técnicas
nesse local, mas nenhum estudo foi suficiente para comprovar que
se tratava de uma fonte poluidora. A dificuldade foi decorrente
a inexistência de uma lei correspondente aos lençóis freáticos.
Segundo o coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias
do Meio Ambiente de Curitiba, Saint Claire Honorato Santos, a partir
desse episódio foi solicitado que todos os cemitérios apresentassem
análises básicas. E isso só foi possível porque a promotoria entendeu
que a água subterrânea estaria incluída na classe especial da resolução
federal do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Essa classificação
garante que nenhuma forma de poluição seja aceita. Também foi utilizada
uma portaria do Ministério da Saúde sobre portabilidade de água.
"Tentamos achar uma solução para que pudéssemos ter alguma base
legal para exigir as análises", explica o coordenador.
Apesar
dos esforços, os resultados não foram satisfatórios, pois devido
a complexidade do assunto não há nem mesmo um senso comum de métodos
para classificar o impacto ambiental dos cemitérios.
Então,
foi feito um convênio com os departamentos de geologia e de química
da Universidade Federal do Paraná para estabelecer de forma mais
técnica e concreta tal avaliação. Diante dessas novas exigências,
alguns cemitérios em Curitiba passaram a se preocupar com a questão.
É caso do Cemitério Parque São Pedro, inaugurado em 1996 totalmente
de acordo com as normas ambientais. Ali, foram realizados estudos
e obras que conduzem o necrochorume para um filtro biológico, impedindo
assim qualquer tipo de contaminação. O cemitério recebeu semana
passada certificação ISO 14001 e se tornou referencia atendendo
a proposta do Estudo Impacto Ambiental - Relatório de Impacto ao
Meio Ambiente(EIA/RIMA). Segundo diretor de Marketing do cemitério,
Ronaldo Vanzo, o principal objetivo é oferecer um serviço ambientalmente
seguro sem interferir no lençol freático. Mas ainda são poucos os
bons exemplos e a omissão diante do assunto é uma constante.
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