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SAÚDE 30/11/2000

Epidemia do milênio
Apesar dos novos remédios e do grande avanço
nos tratamentos, a Aids continua se espalhando
de forma assustadora pelo mundo

Leia também:

• Exame obrigatório
• Linha do tempo da Aids
• Com o vírus desde 82 e Em busca da morte

Luciana Ackermann

Arte: Alfer
Fonte: Ministério da Saúde
Número de infectados e óbitos em milhares de pessoas

Há 20 anos a Aids começou a apavorar o mundo. O pânico, o desconhecimento, o temor, o preconceito e a discriminação foram instalados. Na época ninguém sabia o que era. Tratava-se de uma doença misteriosa e mortífera. A grande maioria dos casos acontecia entre homossexuais, fazendo-a ser chamada de peste gay. Mais tarde verificou-se a incidência da doença também entre hemofílicos e usuários de drogas injetáveis. Suas características laboratoriais apontavam-na como de origem viral, que causava a queda súbita e grave das defesas imunológicas. Hoje o nome do vírus causador da doença é conhecido pelos quatro cantos dom mundo: HIV. De lá para cá, ocorreram muitas mudanças. As mulheres, praticamente fora das estatísticas no início, hoje estão no centro das campanhas de prevenção. O contágio se dá quase que igualmente entre ambos os sexos. Estudo do Banco Mundial, feito no início da década de 90, dizia que o Brasil teria 1,2 milhão de infectados pelo vírus Aids em 2000. Felizmente as projeções catastróficas não se confirmaram. Estimativas do Ministério da Saúde mostram 540 mil portadores do vírus no Brasil, 143 mil mulheres. Segundo o ministro da Saúde, José Serra, o quadro da doença no País está estabilizado, mas a incidência entre as mulheres é preocupante. "Conseguimos impedir a progressão da doença e o País está longe de estar entre os piores do mundo".

Arte: Alfer
Fonte : UNAIDS
Número de infectados e óbitos no mundo no ano 2000 (em milhões de pessoas)

Para Paulo Roberto Teixeira, coordenador do Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e Aids, do Ministério da Saúde, um dos principais avanços refere-se à melhoria do tratamento em função da terapia tripla e de sua distribuição gratuita, iniciativa reconhecida mundialmente. Desde 1991 os pacientes recebem de graça medicamentos para o combate à doença, primeiro o AZT, hoje o famoso coquetel e remédios voltados às infecções oportunistas. Atualmente, 98 mil portadores do HIV recebem auxílio do governo. Com o coquetel, que é composto por doze anti-retrovirais, os gastos previstos neste ano estão em torno dos US$ 332 milhões. Teixeira avalia que essa política, além de assegurar a sobrevida dos pacientes também representa um fortíssimo impacto social com redução nos custos das internações hospitalares. Além de que o paciente continua sendo produtivo. A redução do número de óbitos é de cerca de 30% e a diminuição de doenças oportunistas de 60 a 80%.

O MUNDO INFECTADO
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Para o infectologista Caio Rosenthal, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e do Hospital do Servidor Público, o Congresso de Vancouver, em 1996, foi um marco no combate ao vírus. Ali, foram anunciados os primeiros resultados do uso de esquemas combinados de medicamentos. Falava-se inclusive na cura. Depois de dois anos começaram a aparecer os primeiros casos de falhas, o HIV sofre constantes mutações genéticas, dificultando a eficácia das combinações de remédio. "Hoje pressupõe-se que uma pessoa precisa começar a tomar o remédio em uma fase precoce e o fazer durante 60 anos para que haja uma chance de cura". Já o infectologista Michal Gejer, também do Instituto Emílio Ribas, não indica o uso de medicamentos precocemente. Ele argumenta que o vírus acostuma-se às drogas e cria resistências. Também aponta os efeitos colaterais que são acumulados ao longo dos anos, sendo que os resultados ainda são discutíveis. Gejer afirma que não há medicamento que não traga riscos para saúde. Ele explica que o HIV pode ficar até oito anos sem se manifestar e para iniciar um tratamento deve-se considerar três elementos ou quando um deles for suficiente e necessário: primeiro são os sintomas, por exemplo, uma infecções como meningite e pneumonia, uma febre, diarréia, emagrecimento, quando isso acontece é fundamental providenciar o tratamento no ato. Os outros dois fatores que não podem deixar de ser avaliados são as condições imunológicas e virológicas, o que é feito por meio de exames laboratoriais. Gejer explica que a partir do momento em que uma pessoa descobre ser portadora do HIV, o vínculo ao médico é obrigatório. O ideal seria que o paciente se consultasse a cada três meses. É de extrema importância que o paciente siga à risca o tratamento, evitando o surgimento de vírus resistentes. Não se trata de uma tarefa fácil. São comuns crises de náusea e diarréias. Os comprimidos também levam o corpo a sofrer deformações, como o afinamento dos braços e pernas e o acúmulo de gordura no tronco e abdome. Há ainda a possibilidade de indução a problemas cardíacos e ao diabetes, além dos riscos de falência terapêutica diante de qualquer combinação de drogas. Neste caso o coquetel pára de agir e a carga viral que estava baixa volta a crescer.  

 



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