Confira também outros sites:
HOME: REVISTA: ENTREVISTA

Raúl Reys
‘‘Não é hora de conflitos’’
É possível reconciliar um país dividido como a Colômbia
e pôr fim à guerra? O chefe da Comissão Internacional
das Farc, a guerrilha da selva, acha que sim
Por HUGO MARQUES

Em plena floresta, o chefe da Comissão Internacional das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, Raúl Reyes, fez uma pausa na função de líder da guerrilha mais ativa do planeta para responder a ISTOÉ, depois de três meses de negociações. Um pen drive com as perguntas passou por vários intermediários e países até chegar às “montanhas da Colômbia”, o lugar incerto de onde os guerrilheiros assinam todos os seus comunicados. O mesmo aparelho eletrônico retornou de avião ao Brasil com as respostas. Para chegar, fez um percurso que passou pela Europa. Nada foi transmitido por e-mail, para garantir a segurança de três guerrilheiros envolvidos na operação. Todos os cuidados, no entanto, são para fazer chegar uma entrevista que fala em pacificação. Como membro do secretariado do Estado-Maior Central da organização que reúne cerca de 20 mil combatentes, Reyes quer um processo de reconciliação dentro do território colombiano. Sem guerra.

ISTOÉ – Como as Farc avaliam as reeleições de Hugo Chávez na Venezuela e de Lula no Brasil?
Raúl Reyes
– Avançamos ombro a ombro junto a outras experiências políticas de caráter popular que estão surgindo na América Latina. Trata-se de uma luta política antiimperialista, porque não queremos mais o jugo da dominação norte-americana. Nesse sentido, esses dois ilustres presidentes nos podem ajudar, como podem fazer muito mais que isso. São governos que, de maneira soberana, podem reconhecer em um dado momento que num determinado país surge uma nova realidade política. É isso o que estamos construindo na Colômbia. Já não é mais só um sonho, só um desejo.

ISTOÉ – Existem contatos políticos das Farc com o PT para reconhecer a independência do território controlado pelos guerrilheiros?
Reyes
– No PT, muitos militantes sabem da justiça de nossa luta, mas outros não têm a mesma opinião. O que destacamos dessa entidade política brasileira é o conhecimento e o compromisso político com a causa dos direitos humanos na Colômbia. A solidariedade humanitária é uma bandeira de luta de caráter internacionalista. A dificílima situação dos direitos humanos em nosso país clama para que ela seja concreta e eficaz.

ISTOÉ – O que querem as Farc?
Reyes
– Lutamos pela segunda, total e definitiva independência. Haverá um desenlace, claro. A América Latina está indicando isso. A classe dominante chegou ao topo em sua corrupção, decomposição, nível de violência e de prostração ante os EUA. Sobre essa crise, cavalga (Álvaro) Uribe (presidente colombiano). Mas ele não tem as rédeas. Na realidade, seu governo está caindo aos pedaços. Não lhe resta outro caminho a não ser renunciar. E a reconciliação do país poderá ser feita sem guerra. Essa é a melhor alternativa. As condições para isso estão amadurecendo aceleradamente.

ISTOÉ – Os militares brasileiros preocupam-se com a presença das Farc, a 20 quilômetros da fronteira. Existe risco de conflitos?
Reyes
– A hora atual não é de conflitos, mas de busca conjunta de transformações que nos levem até a criação de pátrias livres, soberanas, integradas como irmãs. Essa importantíssima tarefa já começou. Basta olhar a Cuba Revolucionária, a Venezuela Bolivariana, a Nicarágua Sandinista, a Bolívia, o Equador. E, como não, o Brasil, cujo povo iniciou a conquista de condições de vida pelas quais sempre lutou, e também de forma admirável. Pouco a pouco, vamos nos reconhecendo como um mesmo e único povo latino-americano-caribenho.