São 4h30 em Guariba, cidade do noroeste do Estado de São
Paulo, quando o ronco dos motores de dezenas de ônibus quebra
o silêncio da madrugada. Por seis vezes na semana, o barulho
das rodas sobre as acanhadas calçadas do município
anuncia o trabalho a um exército de bóias-frias. Dali
a pouco, essa legião estará nas lavouras de cana para
mais uma vez fazer história. Se na última safra –
2006/07 – os brasileiros cortaram e moeram mais de 425 milhões
de toneladas de cana-de-açúcar, este ano as estimativas
prevêem uma produção 10% maior. São recordes
sobre recordes de produtividade extraídos de plantações
espalhadas por mais de seis milhões de hectares de terra.
O feito consolida o País no invejável patamar de maior
produtor mundial de álcool e etanol.
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| ÓRFÃOS DA CANA- DE- AÇUCAR
Os cortadores de cana Antônio e Maildes, filho e mãe, que tiveram
três de seus parentes mortos por exaustão nos canaviais |
Tal riqueza atraiu os olhares do mundo para o produto que já
é classificado por economistas como o novo “ouro branco”
do planeta. Empresários, banqueiros e até o presidente
dos Estados Unidos se interessaram pelo tesouro e desembarcaram no
Brasil nas últimas semanas buscando transformá-lo numa
commodity alternativa e barata aos combustíveis fósseis.
Enquanto uns foram à Bolsa de Valores, outros estiveram em
tratativas com o governo brasileiro. Porém, o que Bush e os
investidores não viram e talvez não saibam é
que a riqueza gerada pela fantástica produção
desse “ouro branco” se assenta na exploração
brutal de milhares de homens e mulheres que cortam e colhem cana pelo
Brasil adentro. Quase 120 anos depois da abolição da
escravidão, os cortadores de cana ainda vivem o cativeiro da
terra, sob o tacão de um “chicote invisível”,
como definiu Maria Cristina Gonzaga, pesquisadora do Ministério
do Trabalho. A cana literalmente mói a carne de um milhão
de miseráveis trabalhadores rurais. Quem entra nos canaviais
brasileiros tem a impressão de estar fazendo uma viagem no
tempo, retornando ao século XVII. Homens e mulheres são
comercializados como gado, trabalham jornadas de até 12 horas,
muitos passam fome e outros chegam a tombar mortos de pura exaustão.
Relatório do Ministério do Trabalho (MT), divulgado
no início do mês de março, mostra que só
no ano passado 450 trabalhadores do setor sucroalcooleiro morreram
nas usinas. Alguns foram assassinados, mas muitos morreram em conseqüência
de banais acidentes de transporte. Outros foram carbonizados durante
as queimadas. Vários perderam a vida simplesmente por excesso
de trabalho. “O suor, o sangue e a morte banham o açúcar
e o álcool brasileiro”, denuncia a ISTOÉ Maria
Cristina Gonzaga, técnica da Fundacentro, órgão
do MT, responsável pelo estudo. Nas contas dela, nos últimos
cinco anos, o trabalho na lavoura de cana ceifou a vida de 1.383 trabalhadores.
Entre eles, o migrante mineiro Antônio Moreira, que largou
o Vale do Jequitinhonha na década de 70 para “fazer
safra” nas lavouras paulistas. Aos 55 anos, Antônio
caiu morto de cansaço em meio às canas que empilhava.
“Ele tinha cortado 16 toneladas aquele dia”, lembra
a viúva Maildes Moreira Araújo, 55 anos, também
cortadora de cana. Foi a terceira vez que tal desgraça se
abateu sobre os Moreira. “Meu tio e um primo também
morreram na mesma situação”, diz Antônio
Moreira Filho, 32 anos, que trabalhava com o pai nos canaviais desde
os 14.
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| FUTURO SOMBRIO Maria dos
Santos, 52 anos, recebe R$ 2,60 por tonelada cortada e teme
que o pior ainda está por vir, quando o trabalho triplicar:
“Vamos morrer!” |
“Do cortador de cana é esperada a produção
de uma máquina”, diz Miguel Ferreira, presidente do
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cana de Jaboticabal, interior
paulista, região responsável por 60% da produção
nacional de álcool e açúcar. Miguel fala de
cátedra. O atual sindicalista foi cortador de cana durante
seis anos e, assim como seus pares, produzia diariamente seis toneladas
de cana. “Hoje exige-se a produção de no mínimo
dez toneladas diárias por homem. Não tem corpo que
agüente”, constata Miguel. Segundo a Universidade Federal
de São Carlos para cortar dez toneladas e ganhar R$ 24 é
preciso percorrer cerca de nove quilômetros a pé por
entre o canavial, desfechar cerca de 73.260 golpes de podão
(facão) em 36 mil flexões de pernas. E mais, o cortador
de cana terá que levantar e carregar pelo menos 800 montes
de 15 kg de cana cada um, por uma distância de três
metros, empilhando a produção do dia. Os médicos
do Ministério do Trabalho, que estudaram a saúde do
cortador de cana concluíram que eles chegam a perder em um
dia de trabalho cerca de oito litros de água.
E o pior é que a situação desses condenados
da terra pode se agravar. A partir deste ano, começa a ser
colhido um novo tipo de cana, mais leve por ter sido geneticamente
modificada. Além de pesar menos – pois elimina bastante
a água –, esse tipo de cana concentra uma quantidade
muito maior de sacarose (açúcar). Tudo ótimo,
menos para o trabalhador, que precisava cortar 100 metros de cana
para produzir dez toneladas e por causa da novidade transgênica
precisará cortar o triplo para produzir a mesma quantidade.
Aos 52 anos, Maria dos Santos corta nove toneladas para levar para
casa R$ 512 no final do mês. Quando soube que terá
que trabalhar três vezes mais para ter o mesmo rendimento,
não se conteve: “Vamos morrer!”, desesperou-se.
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| TRANSGÊNICA E MORTAL
A produção de um novo tipo de cana, com açúcar concentrado,
pode agravar as condições de trabalho |
Hábeis em implementar modernizações tecnológicas,
os usineiros não demonstram intenção de alterar
as arcaicas relações de trabalho que predominam no
setor sucroalcooleiro. “As práticas impostas por eles,
em muitos casos, ainda são escravagistas”, diz a técnica
do Ministério do Trabalho. Veja-se, por exemplo, o processo
de seleção dos trabalhadores. Eles são “vendidos”
para intermediários que selecionam a mão-de-obra para
usinas. Trazidos das profundezas do País para dar duro nos
canaviais, esses escravos do século XXI são cooptados
por “gatos”, uma espécie de empreiteiro que busca
pessoas que, em troca de migalhas, se submetem a todo tipo de humilhação.
Para cada cortador de cana trazido para a usina, capaz de produzir
12 toneladas por dia, o “gato” recebe em média
R$ 60. Qual a vantagem? Esses cortadores são escolhidos a
dedo e não reclamarão de serem obrigados a viver em
alojamentos decrépitos. Eles também não reclamam
do pagamento abaixo dos pisos salariais e ainda admitem viver confinados
nas propriedades onde a colheita ocorre oito meses por ano. “Só
20% dos trabalhadores ligados ao setor sucroalcooleiro no Brasil
têm conquistas preservadas, o resto são escravos”,
garante Miguel, o sindicalista. “Não é difícil
constatar a miséria e a exploração a que essas
pessoas estão submetidas. O Ministério do Trabalho
é que dá as costas para o problema”, indigna-se
Miguel.
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| TEMPOS MODERNOS Para Miguel,
do sindicato, os usineiros são arcaicos e esperam que os cortadores
virem máquinas |
A União da Agroindústria Canavieira de São
Paulo (Única), entidade que representa os usineiros, não
fala sobre direitos do trabalho. Segundo a assessoria de imprensa,
eles apenas “cumprem a lei”. Mas em relação
ao crescimento da produção eles são expeditos.
Para os donos dos engenhos, as máquinas produzirão,
até 2013, 36 bilhões de litros de álcool –
um bilhão a mais que a atual produção mundial.
Grande parte dessa produção atenderá aos mercados
americano e europeu. No ano passado, 19 bilhões de litros
de álcool foram destilados, uma supersafra que movimentou
mais de R$ 40 bilhões na economia, US$ 8 bilhões em
exportações, equivalentes a mais de 3,5% do PIB brasileiro.
Segundo as estimativas do setor sucroalcooleiro, uma nova usina
de cana surgirá a cada mês no País nos próximos
dois anos.
Este crescimento acelerado no plantio e na produção
preocupa governantes e economistas. Muitos temem que esse boom leve
o Brasil de volta à monocultura. Hoje, várias plantações
de alimentos e áreas de pastagem estão sendo substituídas
por lavouras de cana-de-açúcar. Preocupados com essa
possibilidade, alguns Estados já se preparam para enfrentar
a situação. Em Mato Grosso, na região do Pantanal,
já foi proibida a implantação de usinas de
álcool. No Estado de Goiás, algumas prefeituras querem
limitar a entrada da cultura da cana. Em São Paulo, responsável
por 60% da produção nacional, um projeto do deputado
estadual Simão Pedro (PT) propõe que os fazendeiros
de regiões do Estado onde a cultura da cana se expande sejam
obrigados a reservar 10% das terras para outros tipos de cultura.
“É fato a expansão do setor, mas precisamos
criar alguns limites, senão daqui a uns dias seremos obrigados
a importar alimentos básicos”, diz Simão. Enquanto
isso, o presidente Lula, inebriado com o etanol, disse que os usineiros
passaram de bandidos a heróis.
10 mil quilos de cana
por dia é a cota mínima que cada cortador deve produzir