| Relacionamentos |
| Paixões
na rede |
Você pode cair em grandes armadilhas
quando procura o seu parceiro ou
parceira pela internet. Mas nela pode
estar também a chave da felicidade |
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| Por ANTONIO CARLOS PRADO e CARINA RABELO.
Colaborou Celina Côrtes (RJ)
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A internet tem razões que a própria
razão desconhece. Por que se
paquera e se namora tanto através
dela? Por que tanta gente, homem ou mulher, jovens e maduros, heterossexuais
ou gays marcam encontros com quem conhecem apenas virtualmente?
Por que tudo isso acontece numa sociedade onde cada vez mais vêm
a público violências morais e físicas cometidas
justamente nesses encontros a partir daquilo que os especialistas
chamam de “namoro teclado”?
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| AGRESSÃO A ex-modelo
Isabel descobriu que o seu namorado virtual é casado. Abriu
o jogo para a mulher dele e teve os dentes quebrados |
Uma resposta é óbvia: a internet é hoje a
grande sedutora. Uma fria, impessoal, mas interessante
e útil sedutora com todos os maravilhosos e indispensáveis
serviços que oferece, e não
poderia ser diferente nos seus sites de paquera, convivência
e namoro. E como toda ferramenta de sedução pode funcionar
para o bem ou para o mal.
A segunda resposta é comportamentalmente mais
rica e paradoxal: seja por carência, solidão, timidez,
depressão, impulsividade, ansiedade e medo de ficarem sós,
as pessoas estão, cada vez mais, buscando companhia –
e a moderna arma das relações sociais que entra nesse
vazio emocional chama-se internet. Ela cumpre uma função
fundamental de aproximar pessoas num mundo cada vez mais interligado
e, assim, consegue evitar que muita gente mergulhe em estados de
espírito depressivos – já evitou por exemplo,
com suas salas de bate-papo, que a professora universitária
Nancy Farrwell se suicidasse nos EUA. Há, porém, o
outro lado. Pessoas se tornam internetólatras, dependentes
físicas e químicas dela a ponto de a psiquiatria ter
criado um novo segmento de estudo somente para esse campo. O grande
paradoxo é que dispara o número de usuários
dos sites de convivência e namoro, embora as pesquisas
mais recentes apontem que somente 2% dos relacionamentos que se
iniciam virtualmente dão certo na vida real – dentro
dessa exígua porcentagem incluem-se felizes e estáveis
casamentos. “Antes, a paquera rolava no barzinho da moda,
hoje é pela internet”, diz a psicóloga Luciana
Nunes, que atua no Psicoinfo, o mais procurado serviço de
orientação aos aficionados por relacionamentos eletrônicos
em São Paulo. “A internet preenche carência e
solidão, e isso é bom. Mas, por outro lado, se a pessoa
estiver constantemente vulnerável, sem as informações
que o corpo fornece as defesas psíquicas e emocionais costumam
baixar nos relacionamentos virtuais”, diz a psicóloga
Andrea Seixas Magalhães, da Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro. Ou seja: as chances de perder
a razão e se deixar levar ao sabor das carências diante
de um computador são maiores sem o contato físico.
E isso explica o aumento de violências cometidas, de forma
premeditada, por “psicopatas eletrônicos” que
se escondem virtualmente nos sites de paquera e bate-papo.
“Esses criminosos se aproveitam da fragilidade e abertura
emocional das pessoas”, diz Ubiraci Pires da Silva, delegado
titular da Delegacia de Crimes Eletrônicos de São Paulo.
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SUCESSO A arquiteta Noga
teclou com
o poeta Alan Edward e vivem felizes.“A internet é um milagre
que nos uniu” |
Nas últimas três semanas, o sinal
de alerta máximo foi aceso no País a
partir de histórias de amor que começaram romanticamente
no mundo quente e aconchegante da virtualidade e acabaram em mesas
frias e reais do Instituto Médico Legal. Na cidade de Natal,
a corretora de imóveis Célia Damasceno, 42 anos, foi
vítima de uma quadrilha que se valeu do Orkut (site
de relacionamento do Google, um dos melhores do mundo) para atraí-la
amorosamente. Ela começou a se corresponder com um jovem,
entusiasmou-se e passou a confiar nele, e do entusiasmo e da confiança
brotou a paixão – sobretudo porque o moço, lábia
não nos lábios que falam, mas nas mãos que
teclam, também se dizia apaixonado. Marcaram um encontro
para um churrasco na praia de Genipabu e, de lá, Célia
nunca mais retornou. Ela usava tanto e tão compulsivamente
o computador que até deixou-o ligado quando saiu de casa
para o churrasco e ligado ele permaneceu ao longo de sua ausência.
Não mais seria ela a desligá-lo. A sua filha entrou
na página da mãe no Orkut em busca de alguma pista
e suspeitou de um garoto. Inteligentemente, criou então um
falso perfil, combinou de vê-lo pessoalmente e avisou a polícia.
Todos foram presos. Célia fora assassinada a pauladas.
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| MORTTE Atraída, a corretora
de imóveis Célia aceitou o convite para ir a um churrasco. Foi
assassinada |
Estima-se que existam no Brasil cerca de 30 sites de relacionamento
com aproximadamente cinco milhões de internautas navegando
neles. É muita gente e por isso é preciso tomar cuidado.
Uma precaução básica, por exemplo, é
não se sentir nas nuvens com “massagens no ego”
que venham pela rede porque isso pode cegar a razão. “Eu
não enxergava nada da realidade”, diz a gaúcha
Isabel Stasiak, que procurou a sua cara-metade num site.
Achou que levara sorte porque ele apareceu em uma semana e, a partir
daí, a paquera levou seis meses. Ela: ex-modelo, 50 anos,
e, conforme admite, “tímida e carente”. Ele:
carioca, engenheiro de uma estatal, 44 anos. Isabel foi teclando
mil detalhes de sua vida, o moço manteve-se reservado. Hora
de se conhecer pessoalmente: “Éramos praticamente vizinhos,
mas não sabíamos, e fiquei feliz porque ele é
bonito, alto e moreno”, diz ela. Apareceu, porém, um
detalhe não tão detalhe que fez o príncipe
virar sapo: o moço era casado. Rolou o barraco: apaixonada,
Isabel foi atrás da mulher dele e contou tudo. Rolou então
a violência: o bonitão, altão e morenão,
que se dizia amoroso na internet, quebrou-lhe os dentes e o romance
acabou num boletim de ocorrência. Não são todos
os trapaceados, no entanto, que vão à delegacia. Tímida
demais, a professora baiana Antonia Dias sentiu-se envergonhada
para contar o golpe no qual caíra até mesmo para um
delegado. Ela conheceu em uma sala de bate-papo um homem que se
mostrou educado, romântico e gentil. Conheceram-se pessoalmente
e num piscar de olhos estavam no cartório diante de um juiz
de paz. Casamento e lua-de-mel consumados, imediatamente o marido
apaixonado revelou-se um golpista obstinado. Antonia foi forçada
a quitar-lhe dívidas e teve o seu cartão de crédito
detonado. Do dia para a noite o homem se deletou de sua vida. “Deve
estar por aí freqüentando os sites de relacionamento”,
diz ela.
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ANGÚSTIA Márcio
apaixonou-se por um homem na internet
que mentiu para ele. “Não creio mais em namoro virtual” |
Na verdade, ninguém é uma flor de pessoa e se torna
trapaceiro depois que descobre pela internet uma pessoa para se
relacionar – ou seja, a internet não tem culpa alguma
nem o poder de alterar o caráter ou a personalidade de quem
a utiliza. Psiquiatras e psicólogos comportamentais, sobretudo
nos EUA, Inglaterra e Canadá, são unânimes em
afirmar que quando um homem ou uma mulher fazem uso patológico
da internet é porque eles já são indivíduos
que sempre apresentaram comportamentos anti-sociais – que
se revelam principalmente nos transtornos do controle dos impulsos
e na mentira. É muito comum homens com mais de 50 anos procurarem
virtualmente mulheres muito jovens e falsearem as suas idades somente
para conquistá-las. Freqüentes também são
os casos de mulheres mentirem na linha “estou um pouquinho
acima do peso” e, na hora dos olhos nos olhos, se descobrir
que esse “pouquinho”, posto na balança, é
mais ou menos 100 quilos. Mais devastador que a mentira do peso
e da idade é o efeito causado pelo embuste quando ele maquia
temperamentos instáveis. O paulista Márcio dos Santos
é gay e encontrou pela rede um homem que se mostrava
culto, equilibrado, inteligente e com as portas do afeto abertas
para uma relação leal e sólida. Márcio
se apaixonou. No momento do encontro físico, ele admite que
estava emocionado e ansioso. “Minhas mãos até
suavam, e sei que esse suor era de amor”, diz Márcio.
Pois bem. A resposta para tanta emoção foi deparar
com um parceiro que chegou atrasado, embriagado, rude e desequilibrado.
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| SEM FRONTEIRA Rodrigo e
Lílian namoram a 400 quilômetros de distância.“Estamos cada
vez mais próximos graças à internet” |
Se nem tudo são flores nos romances pela internet, registre-se
também que nem tudo é espinho. Pode-se, sim, descobrir
afeto e amor através dela, e há pessoas carentes,
tímidas e que se esquivam de uma aproximação
pública, mas acabam descobrindo pela rede uma companhia sincera
e leal – o contato virtual possibilita que a timidez vá
caindo paulatinamente e a pessoa se descontrai. Vocalista da banda
de rock Flamma, o paulista Rodrigo Lacerda, encontrou a
sua namorada, Lílian Eugênio, teclando via ICQ (similar
ao messenger). “Mesmo a 400 quilômetros de distância
estamos cada vez mais próximos”, diz ele. Há,
porém, quem queira encurtar longas distâncias impostas
pela internet e aí não se sai tão bem. A paulista
Helena César ignorou uma distância intercontinental
e, numa paixão transatlântica iniciada virtualmente,
foi à Itália conhecer o seu namorado. Enquanto estavam
somente na rede, trocaram fotos mas diminuíram as suas idades.
O italiano propôs pagar-lhe a viagem, eles se conheceriam
pessoalmente e, se tudo desse certo, viriam ao Brasil para que Helena
o apresentasse a sua família. Em Napole ela viu-se diante
de um homem muito mais velho e deu tudo errado.
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ADEUS, PRIVACIDADE Rhoanita
expôs publicamente pelo Orkut a intimidade
de seu namoro com Lucas pedindo
para que ele voltasse a namorá-la. “Milagrosamente”, diz a moça,
“ele voltou” |
Exemplos de sucesso são o da professora Andréia Iunes
e o da arquiteta mineira Noga Lubicz Sklar. Quatro meses depois
de conhecer o seu namorado pela internet, ela no Brasil e ele na
Suíça, Andréia foi buscá-lo no aeroporto.
O romance emplacou e dois anos depois foi a sua vez de pisar a Europa.
Casaram, têm uma filha e conseguiram convencer amigos e familiares
de que o amor entre eles não era somente “fogo de palha”
da internet. Já a arquiteta Noga conheceu o poeta americano
Alan Edward Sklar. Teclaram a sua simpatia recíproca durante
quatro dias em sessões de oito horas e tudo desaguou em casamento.
Noga é categórica: “O que aconteceu entre a
gente foi um milagre. E ele não teria ocorrido se não
existisse no mundo de hoje um outro milagre, o da internet.”
Quem também fala em milagre é Rhoanita Vasquez que
graças ao Orkut perdeu e reconquistou o seu namorado. É
de se pressupor, pelo menos no campo do tradicional namoro de mãos
dadas, que a relação preserve intimidades e privacidade.
Pela internet, no entanto, esses dois itens podem ser publicamente
escancarados. Rhoanita e Lucas Bogéa namoravam virtualmente
e ela descobriu mensagens de outra mulher no Orkut do moço.
Fez um escândalo e terminou a relação. Arrependida,
valeu-se do próprio Orkut para contar a sua história
e conclamou todo o Maranhão para que enviasse mensagens ao
ex-namorado pedindo que ele voltasse a namorá-la. Pois bem:
foram mandados uma infinidade de apelos e chegou-se a ponto de Lucas
não poder pisar nem sequer um restaurante sem o risco de
encontrar gente falando: “Ô cara, volta para ela!”
“Milagrosamente”, como diz Rhoanita, “ele voltou”.
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