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Grampo e propina: esquema
da
Telecom Italia teria destinado
US$ 2 mi para corrupção no Brasil |
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| Telefonia |
Capo italiano
por um fio |
Marco Tronchetti Provera, da Telecom
Italia e Pirelli, corre o risco de ser preso
por espionagem que atingiu o Brasil |
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Por Leonardo Attuch –
Enviado especial a Milão |
Nas ruas, nos táxis e nos cafés de Milão,
cidade mais próspera da Itália, o Brasil é
a bola da vez. Uma das razões é a volta do atacante
Ronaldo, prestes a trocar as cores do Real Madrid pelas do Milan.
Mas há um outro motivo, bem mais explosivo. Trata-se da investigação
que já prendeu mais de 20 pessoas ligadas à Telecom
Italia, dona da empresa de celulares TIM, a segunda maior no mercado
brasileiro. O processo está bem guardado no terceiro andar
do Palazzo de Giustizia, localizado à Via Freguglia número
1, onde despacha o procurador Fabio Napoleone. E as suas investigações,
a cada dia, apontam para o peito de Marco Tronchetti Provera, controlador
da Pirelli, da Telecom Italia e um dos homens mais ricos e poderosos
do país. O que se discute agora é se foi ele, Tronchetti,
quem ordenou a montagem de uma extensa rede de espionagem e de corrupção,
que atuou em vários países – em especial no
Brasil. Na quinta-feira 25, o jornal La Repubblica, um
dos mais fortes da Itália, noticiou que os dossiês
feitos pelos espiões dessa quadrilha eram encomendados pelo
“vértice” da operadora telefônica, ou seja,
por Tronchetti. E o que se especulava, nos meios jurídicos
e empresariais italianos, é que o próprio capo
da Pirelli e da Telecom Italia poderia ser preso a qualquer
momento. O estopim seria a invasão dos computadores do jornal
Corriere dela Sera e do seu vice-diretor Massimo Mucchetti,
por suposta ordem de Tronchetti – o que ele nega ter feito.
Numa carta aberta à sociedade italiana, o empresário
pediu que parassem de “atirar lama” na Telecom Italia
e se disse confiante na Justiça.
Do que se apurou até agora, muito há sobre o Brasil.
As informações mais importantes foram prestadas pelo
espião Marco Bernardini, que fez um acordo de delação
premiada com a Procuradoria de Milão e, com isso, escapou
da prisão – ao menos por ora. Bernardini revelou que
o grupo de espionagem da Telecom Italia, batizado de “tiger
team”, foi fundado por Giuliano Tavaroli, um ex-diretor da
empresa que está preso desde setembro, e pelo investigador
Giampaolo Spinelli, que vive nos Estados Unidos. No Brasil, esse
grupo contou com a participação de Marco Bonera, que
foi sucedido pelo ex-tenente italiano Angelo Jannone. Cabia a Bernardini
fazer os pagamentos escusos ordenados por essa gente – e o
dinheiro jamais poderia sair diretamente dos cofres da Telecom Italia.
Foi por isso que Bernardini criou nos Estados Unidos uma empresa
chamada Business Security Agency, com conta no Barclay’s Bank.
Os recursos italianos, antes de caírem em mãos brasileiras,
passavam por lá.
O período em que o “tiger team” italiano atuou
de forma mais intensa no Brasil foi durante os anos de 2004 e 2005.
Naquele momento, a Telecom Italia disputava o controle da operadora
telefônica Brasil Telecom com o grupo Opportunity, do banqueiro
Daniel Dantas. E o que disse Bernardini a esse respeito até
agora? Que de sua empresa saíram recursos destinados ao pagamento
ilegal de políticos, lobistas e jornalistas brasileiros –
cerca de US$ 2 milhões ao todo. Uma primeira parte do dinheiro
teria sido direcionada ao lobista Alexandre Paes dos Santos, o APS,
para pagamento de políticos. Uma segunda ao advogado Marcelo
Elias, que é sócio de Luís Roberto Demarco,
um ex-funcionário do Opportunity que movimentou várias
peças na longa guerra pela Brasil Telecom. Outra fração
teria sido destinada, segundo Bernardini, a alguns policiais –
em 2004, no calor dessa disputa, a Polícia Federal deflagrou
a Operação Chacal contra o grupo Opportunity. Nem
todos os pagamentos ilegais, porém, saíram da Business
Security Agency. No Brasil, a Telecom Italia teria feito diretamente
um contrato de R$ 90 mil mensais com um consultor fluminense, cuja
finalidade seria pagar jornalistas.
Naturalmente, o empresário Tronchetti Provera tem afirmado
que não sabia de nada. E diz que a atuação
dessa rede de espionagem, que chegou a gastar mais de 30 milhões
de euros em operações secretas batizadas como “macumba”,
“vaca louca” e “radiomaria”, ocorria sem
o seu aval. O curioso é que o responsável pelo ataque
cibernético ao Corriere dela Sera, Fabio Ghioni,
era diretor de auditora da Telecom Italia até ser preso,
dias atrás. E, segundo o delator Bernardini, foi também
Ghioni quem preparou o dossiê do “caso Kroll”,
que serviu de base para a Operação Chacal da Polícia
Federal, com dados falsos e manipulados pelo próprio Ghioni.
A favor da possível inocência de Tronchetti há
alguns argumentos. O primeiro é o de que ele e sua esposa,
Afef, também foram investigados – o que é verdade.
O segundo é o de que essa estrutura foi, em parte, herdada
– Tronchetti assumiu a Telecom Italia apenas em 2002, cinco
anos depois da privatização. Além disso, na
Itália, assim como no Brasil, nem tudo é o que parece
ser. A Telecom Italia é a maior empresa italiana e, em função
disso, é também muito cobiçada. Fontes próximas
à operadora especulam algumas hipóteses. E todas apontam
para uma possível armação, de modo a obrigar
Tronchetti a vender a sua jóia da coroa. Possíveis
adversários, como Marco de Benedetti, do fundo Carlyle, e
Paolo Dalpino, da operadora de celulares Wind, poderiam estar por
trás de tudo. Seja ele culpado ou não, o fato é
que tudo parte de fatos reais. E isso pode esclarecer como agiu
o “tiger team” no Brasil em 2004 e 2005. |