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| Na margem do rio: na
quarta-feira 13, quatro dias depois do salvamento, Adriano volta
à ponte João Dias (ao fundo).“Foi um trabalho de equipe”
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| Perfil |
| Adriano, um herói |
Jovem paulistano pula no rio Pinheiros,
salva criança de afogamento e vira
celebridade. Será reconhecido no futuro? |
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| Por Milton Gamez |
O paulistano Adriano Levandoski de Miranda, 27 anos, era uma pessoa
comum até a manhã de sábado, 9 de dezembro.
Passava das nove e meia e ele caminhava sobre a ponte João
Dias, em direção ao trabalho, do outro lado do rio
Pinheiros, na zona sul de São Paulo. Analista de sistemas,
sacrificou a folga do fim de semana para cobrir o plantão
de uma colega na empresa – isso, mesmo sendo o dia de seu
aniversário. De bermuda nova, presente da esposa, Juliana,
o jovem presenciou uma cena que marcará sua vida para sempre.
Uma mulher em crise depressiva, com um garoto pequeno no colo, pulou
da ponte e mergulhou nas águas imundas do rio. Janaína
Barbosa de Souza, 26 anos, só queria uma coisa: morrer e
levar junto o filho de três anos. Nos minutos seguintes, Adriano
faria qualquer coisa para salvar a criança. E fez. Furtou
uma moto de um curioso que parou sobre a ponte, desceu na contramão
até a alça de acesso à margem, pulou, enfrentou
lama e lixo e alcançou Rafael. O menino sobreviveu e Adriano
virou herói. Ganhou notoriedade instantânea, mas ainda
não recebeu o reconhecimento devido.
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| Instinto paterno: em casa,
com a esposa Juliana e o filho Matheus ele rejeita o título
de herói.“Fiz o que qualquer pai faria” |
Num país como o Brasil, repleto de notícias sobre a
violência urbana e corrupção, o ato heróico
de Adriano merece destaque. Um e-mail recebido pelo Serviço
de Atendimento ao Cliente da empresa na qual trabalha, um dia depois
do salvamento, dá o exato tom da sua importância. “Num
Brasil tão sujo, um mergulho no rio Pinheiros lavou nossa alma”,
afirmou o admirador Luís Lessa. Se morasse nos Estados Unidos,
Adriano desfilaria em praça pública, com direito a cerimônia
na Casa Branca, medalha e quem sabe até recompensa financeira.
No filme Herói por acidente, de 1992, Dustin Hoffman
interpreta um mendigo que salvou vítimas de um acidente aéreo
e permaneceu anônimo até que alguém ofereceu uma
bolada ao herói e um farsante tomou seu lugar.
Na vida real, os heróis brasileiros do cotidiano são
rapidamente esquecidos. Você se lembra ou já ouviu
falar de Sílvio Hollembach? Em 1977, aos 33 anos, este sargento
do Exército passeava com a família no zoológico
de Brasília quando um garoto de 13 anos caiu no tanque das
ariranhas. Sílvio pulou na água e salvou a criança.
“Eu tinha que fazer alguma coisa. O menino ia morrer. Havia
dezenas de pessoas assistindo e não fizeram nada”,
afirmou, em seu leito de morte, três dias depois. Ele não
resistiu às infecções causadas pelas inúmeras
mordidas que recebeu. O zoológico foi rebatizado com seu
nome.
Adriano, que nasceu dois anos depois, não conhecia a história
de Sílvio. Sua própria jornada heróica teve
início no segundo em que viu a mãe suicida despencar
cerca de 20 metros e afundar no leito do Pinheiros. Naquele trecho,
o rio é preto e viscoso. O cheiro das águas mortas
contamina o ambiente. Ao ver o garoto Rafael e sua mãe serem
lentamente levados pela correnteza, Adriano pensou imediatamente
em seu filho. A imagem de Matheus, dois anos, veio forte e reforçou
um instinto paterno extraordinário. “O que você
faria se visse uma criança se afogando? Pularia na água
ou deixaria ela morrer?”, pergunta. Com água pela cintura,
ele caminhou até a mulher e alcançou o garoto. Tomou-o
nos braços. “Ele estava molinho e com os olhinhos fechados.
Pedi pelo amor de Deus que estivesse vivo”, lembra. Ao retornar
à margem, alguém lhe estendeu a mão. Outra
pessoa ajudou a mãe do menino. “Nem vi como ela saiu.
Estava muito fixado na criança”, relata. Rafael tossiu,
expeliu a água suja do Pinheiros e sobreviveu. “Foi
um trabalho de equipe. Não teria conseguido se outras pessoas
não ajudassem também”, insiste o herói.
A polícia e o resgate médico, chamados por outra pessoa,
chegaram logo em seguida. A mãe foi presa em flagrante por
tentativa de homicídio e levada a um hospital.
Humilde, Adriano não aceita o rótulo de herói.
A notoriedade instantânea e o assédio da imprensa o
incomodam. “Não precisa tudo isso. Não sou herói,
apenas fiz o que qualquer pai faria”, repete à exaustão.
Ele deve voltar à sua vida normal de antes. E não
aceita nenhum tipo de recompensa. “Só tem duas coisas
que eu peço a Deus antes de sair de casa: saúde e
coragem. O resto eu corro atrás”, diz. Sério
e reservado, o jovem paulistano mora numa casa de quatro cômodos
na cidade de Embu, na região metropolitana de São
Paulo. Trabalha numa empresa de eventos no bairro de Santo Amaro
e, à noite, cursa o segundo ano de análise de sistemas
numa faculdade privada. Sua mãe é faxineira e copeira
e seu pai, churrasqueiro. Sua mulher é cabeleireira. Uma
família simples e batalhadora. Ele mesmo já fez de
tudo antes de trabalhar com informática. Vendeu coxinhas,
foi garçom e fez muitos bicos. “Parei de estudar uma
época, mas consegui voltar e fiz supletivo para terminar
o segundo grau. Sou um grande vencedor”, afirma. É
mesmo.
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