| David Uip |
‘‘Somos irresponsáveis
com a Aids’’ |
O infectologista diz que os brasileiros,
apesar de informados, ainda se expõem
demais ao risco e que a epidemia aumentará
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Por Cilene Pereira e Mônica Tarantino
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O infectologista David Uip é uma referência sobre
Aids no Brasil. Estudioso dos caminhos para combater a epidemia
desde os seus primeiros anos, na década de 80, ele coordenou
por dez anos a Casa da Aids, em São Paulo, um serviço
voltado ao atendimento de pacientes com HIV, o vírus responsável
pela doença. É homem de opiniões fortes. Por
essa razão, envolveu-se em algumas polêmicas. Em uma
delas, afirmou que as mulheres se tornariam alvo fácil da
enfermidade quando isso estava longe de ser um fato. Agora, aos
54 anos, Uip se declara pessimista em relação ao controle
da doença. O principal motivo é a resistência
que as pessoas mostram para mudar de comportamento, ter mais proteção
e não expor seus parceiros. “Este é um dos maiores
desafios na luta contra a Aids hoje”, afirma.
Uma das alegrias do especialista é o trabalho que realiza
há quatro anos, em Angola, com uma equipe de médicos
e enfermeiros. Eles foram chamados pelo governo do país africano
para implantar um programa de combate à transmissão
do HIV da gestante para o feto. Ainda não há estatísticas
definitivas dos resultados, mas as indicações mostram
que o problema regrediu muito em relação ao que havia
quando estiveram lá pela primeira vez. “O caminho é
respeitar a cultura do país, usar o conhecimento da academia
e a prática para criar algo que funcione”, explica.
David Uip deu a ISTOÉ a seguinte entrevista.
ISTOÉ – Muitos grupos de portadores de outras
doenças, como câncer e diabete, se queixam de que o
País tem um programa-modelo para a Aids, mas não oferece
a mesma qualidade de atendimento a eles. Qual a sua opinião
sobre isso?
David Uip – Descobrimos o modelo certo. Provamos
que oferecer o remédio gratuitamente melhora a sobrevida,
dá dignidade e recoloca o paciente na linha produtiva. E
isso deve ser imitado para outras doenças. Mas estou muitíssimo
preocupado com o programa de Aids.
ISTOÉ – Por quê?
Uip – Aumenta a sobrevida, o total de pacientes com
indicação de remédios, o número de drogas
ofertadas, mas há um orçamento engessado. Por isso,
a conta não fecha. Há o risco de o programa ficar
sem sustentação. E hoje a negociação
está baseada em apertar os laboratórios, com ameaça
de quebra de patentes, coisa que sou contra. Isso é quebra
de intelectualidade. É preciso fazer uma negociação
dura, pelo melhor preço, e lutar para que os laboratórios
farmacêuticos tragam a pesquisa básica. E é
necessário aumentar os recursos.
ISTOÉ – Como avalia os resultados dos programas
de prevenção?
Uip – Apesar de a parte de atenção
e medicamentos funcionar, os programas de prevenção
ainda estão longe do ideal.
ISTOÉ – Não há um modelo eficiente?
Uip – Os programas estão defasados. Hoje,
por exemplo, existem situações de enfrentamento protagonizadas
especialmente por adolescentes e jovens que não viram as
mortes produzidas pela Aids no passado. Na cabeça dessa nova
geração estamos diante de uma doença que não
mata mais, que tem remédio gratuito. Então ela abre
mão da proteção e vai para o enfrentamento.
ISTOÉ – O que isso quer dizer?
Uip – Assumem um comportamento que inclui desde fazer
sexo não protegido
até grandes loucuras. Nas baladas, uma coisa que está
acontecendo é a roleta russa com sexo e droga. Eles pegam
seringas - uma usada e quatro novas - e
se injetam para ver se irão se contaminar com o HIV. Fazem
sexo desprotegidos
para ver o que acontece. Os próprios jovens contam. Além
disso, na faixa de 16, 17 anos, não estão mais interessados
na forma de se prevenir da exposição ao vírus.
Querem saber o que fazer depois, o que é essa história
de tomar remédios pós-exposição (tratamento
preventivo de urgência, iniciado imediatamente após
contato de risco, para tentar impedir a eventual multiplicação
do vírus HIV. É feito por
alguns meses com drogas anti-Aids). Então vejo que estamos
atrasados diante dessas atitudes dos adolescentes. Sem contar a
criança de 14 ou 15 anos que
está se iniciando no sexo. É muito otimismo imaginar
que ela consiga se iniciar sexualmente zelando pela proteção
dela e do parceiro. A questão é: esta criança
está pronta para tudo isso?
ISTOÉ – Mas o problema envolve apenas jovens
e adolescentes?
Uip – Infelizmente, não. Há o cidadão
de meia-idade que voltou a ter relações sexuais muito
por conta da existência das drogas contra disfunção
erétil e aparece contaminado. E note que falo de pessoas
com nível intelectual elevado. Pergunto: como você
se contaminou? Ele responde: voltei a ter relação
sexual, não quis ou não sabia usar camisinha. É
isso o que estamos vendo.
ISTOÉ – E em relação às
mulheres?
Uip – É pior. Ela chega num momento em que
passa a acreditar na relação e aí se desprotege.
Usa o amor como justificativa. E há uma situação
muito mais grave, que é a da mulher soropositiva ou casada
com um homem infectado que quer ter filho.
ISTOÉ – O sr. reprova?
Uip – Sempre incentivo a relação quando
um é soropositivo e outro não. Mas fico falando 12
horas, explicando que tem de ser uma relação protegida.
E explico que se a mulher quiser engravidar darei suporte para fazer
isso com maior segurança. Para mim é claro o direito
de qualquer mulher de gerar um filho. Mas posso oferecer a forma
mais segura. Então falo, falo, falo. E de repente, meses
depois, recebo um fax com a foto da mesma mulher, uma pessoa esclarecida,
informada, mostrando um sorriso anunciando que está grávida.
E eu me cansei de falar: esperem. Primeiro vamos baixar a carga
viral, depois trabalharemos com a possibilidade de inseminação
artificial (hoje pode-se fazer uma“limpeza” do sêmen
para diminuir a possibilidade de contaminação).
Aí você atende a pessoa com vontade de pegá-la
pelo pescoço. Não é só o fato de estar
grávida depois de tudo o que você explicou, mas também
a chance de ter se contaminado.
ISTOÉ – E o que elas dizem?
Uip – Ah! Acordei à noite e... E eu pergunto:
por que não colocou a camisinha? Respondem: ah! não
deu! E eu penso: isso não é possível!
ISTOÉ – Mas por que o comportamento não
muda se a informação
está tão disponível?
Uip – Informação não educa.
E você não muda comportamento. Estou absolutamente
pessimista com projetos que pretendam mudar comportamento. Convença
um cara de 50 anos a usar camisinha. Ele tem medo de falhar e não
foi treinado para isso. E convença uma mulher a obrigar o
parceiro a usar preservativo!
ISTOÉ – A situação parece mesmo
grave...
Uip – Pois é. E como explicar o fato de hoje
existirem pessoas de classe média alta e universitários
que acabam de adquirir Aids? A explicação é
a de que não se conseguiu ter competência para mudar
o comportamento deste indivíduo.
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