| O Brasileiro do Ano |
Luiz Inácio
Lula
da Silva |
Do pesadelo das críticas ao sonho real
da vitória, o presidente esteve no centro
dos acontecimentos. Pelo que fez e
conquistou é O Brasileiro do Ano |
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| Por Rudolfo Lago |
Um homem que desceu ao inferno
das críticas, passou pelo purgatório
aos olhos de todo o País e dele
saiu fortalecido foi eleito por ISTOÉ O Brasileiro do Ano
de 2006. Nas primeiras semanas após o estouro do escândalo
do mensalão, nem os amigos mais próximos eram capazes
de reconhecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele
parecia atônito. Andava calado e demorou para reagir, até
entender que o mensalão deveria servir de lição.
Quando passou a afastar os responsáveis diretos, começou
a se reerguer. Enquanto isso, percebeu que seu governo não
havia sido condenado. As políticas públicas que incluíram
na economia um universo nada desprezível de mais de 40 milhões
de brasileiros estavam sendo bem recebidas. Foi em nome dessas conquistas
que Lula resolveu ir à luta. Depois da fase de hesitação,
lutou pela reeleição. Enfrentou, num segundo turno
que não esperava, o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin. Derrotou-o,
fazendo mais de 58 milhões de votos. Retorna agora diferente
para um segundo mandato. Mais maduro por tudo o que enfrentou. Mais
humilde por conta dos erros que seu governo cometeu e ele reconhece.
Por um lado, mais fraco, pois perdeu a companhia de velhos amigos,
a quem delegava decisões no governo. Mais forte por outro,
porque agora já não pretende entregar mais para quem
quer que seja as tarefas essenciais do governo. E porque volta munido
do voto de confiança que o povo brasileiro depositou nele.
Nem totalmente certo, nem totalmente errado. Nem superpoderoso,
nem definitivamente nocauteado. Lula é humano. Foi eleito
porque o povo do Brasil se reconhece nele. É, enfim, a cara
desse povo.
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“Eu já ganhava muitas paradas na infância
porque falava grosso”, lembra
o presidente, que resgatou a antiga característica para retomar
o governo |
“Eu já ganhava muitas paradas
na infância porque falava grosso”, costuma dizer o presidente.
A grande mudança operada por Lula para
superar a crise foi se lembrar desse expediente. Deu-se conta de
que em alguns momentos de seu primeiro governo fora passivo e deixara
muitas das decisões do dia-a-dia nas mãos de auxiliares.
Eles é que passaram a falar grosso com ele. A primeira alteração
significativa de comportamento se deu quando Lula, no segundo turno,
viu-se impelido a dar as suas próprias respostas sobre a
crise que se abateu sobre o governo. Ainda que de forma diplomática,
o presidente corroborava o julgamento que se fazia de pessoas como
os ex-ministros da Casa Civil José Dirceu e da Fazenda Antonio
Palocci. “Eles cometeram erros”, disse Lula na campanha.
“E é por isso que foram afastados”, completou,
não deixando margem a nenhuma interpretação
de saída por vontade própria.
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Declínio e redenção:
ao
aceitar funções decorativas e deixar o governo para seus amigos,
Lula conheceu os piores momentos do primeiro mandato. Agora,
com a força renovada pelo povo, promete tomar o poder em suas
mãos e imprimir seu estilo |
Para Lula, os problemas foram conseqüência da escolha
por uma relação política que não privilegiava
os partidos como um todo, mas que buscava cooptar pessoas e grupos
dentro de cada legenda. Assim, em vez da construção
da união a partir de um programa e objetivos comuns, a conversa
dava-se em torno de expedientes mais fisiológicos: a partilha
de cargos ou das verbas do Orçamento. O presidente é
originalmente responsável por isso. Quando vetou, no início
do seu primeiro governo, a participação do PMDB, viu-se
obrigado a se socorrer da ajuda de siglas menores e menos ideológicas,
como o PTB ou o PP. E viu-se obrigado também a tentar minar
resistências em quem lhe poderia fazer oposição,
em parte do PMDB, mas até também em setores do PFL
e do PSDB.
O segundo governo Lula será menos petista e mais lulista.
É ele quem está agora à frente de tudo. Corrigindo
o erro que cometeu ao vetar o PMDB, o presidente agora monta um
governo de coalizão nos moldes tradicionais. Aceita aí
uma tese defendida pelo ministro das Relações Institucionais,
Tarso Genro. Mas Lula já avisou a ele: “Quem cuida
pessoalmente disso agora sou eu.” Sob o seu comando, o poder
será partilhado entre os aliados. O PT não deixará
de ter um grande naco. Afinal, é o partido do presidente.
Mas terá de aprender a compartilhar o governo com os demais
aliados, especialmente o PMDB. Lula sabia que essa mudança
não viria sem reação dos petistas, mas acredita
que, depois da bronca inicial, acabará havendo uma acomodação.
“O PT já tem o principal de todos os cargos: o de presidente
da República”, avisa ele. Na busca por aliados, o presidente
conseguiu reaproximar mesmo alguns adversários, como o PDT.
E, desta vez, quem está conduzindo pessoalmente cada reunião
e cada entendimento é ele mesmo. Políticos que participaram
dessas reuniões afirmam que isso dá muito maior clareza
e segurança sobre o que se espera do governo agora. Antes,
tais conversas eram feitas pelos articuladores políticos:
primeiro José Dirceu, depois Aldo Rebelo e Jaques Wagner.
As diferenças de estilo e de pontos de vista com relação
ao pensamento do presidente tornavam tudo mais lento – os
articuladores fechavam os acordos e depois, por algum detalhe diferente
do esperado por Lula, tudo caía por terra.
Lula está mais magro, resultado da dieta de proteína
que adotou no início do ano. O peso mais baixo ajudou-o a
melhorar a disposição. Aos amigos, o presidente repete
que a crise lhe ensinou várias lições. Hoje,
Lula é consciente de que parte do PT – e justamente
parte da ala com maior capacidade de decisão – o via
como mero instrumento de poder. Uma espécie de símbolo
que, com seu carisma e popularidade, podia ser manipulado. No primeiro
mandato, Lula aceitou sem muita contrariedade uma divisão
de papéis que a cúpula do PT lhe destinava. Ele seria
o chefe de Estado, o representante do País, correndo o mundo
em encontros com outros governantes curiosos por conhecer o operário
que se tornava estadista. Quanto às tarefas mais comezinhas
de chefe de governo, Lula delegaria como se presidisse uma assembléia
de sindicato. Uns cuidavam da atividade econômica, outros
das relações políticas. Apenas se houvesse
conflito Lula daria a palavra final. O resultado é o que
se viu, comenta o presidente: muita coisa se passou nas suas barbas
sem que Lula tivesse conhecimento dos detalhes.
Para Lula, não é difícil corrigir rumos.
A maior parte do que ele sabe aprendeu na prática. Num jogo
de tentativa e erro em que sempre se via obrigado a buscar a sorte.
Retirante nordestino que chegou a São Paulo fugindo da fome.
Metalúrgico que chegou a perder um dedo em um acidente de
trabalho. Sindicalista que colocou em risco seu emprego, o sustento
de sua filha e a sua segurança em nome de suas convicções
e de seus ideais. Trabalhador que apostou que a redenção
da sua categoria estaria na fundação de um partido
político. E, agora, presidente que avalia que o sucesso do
seu segundo período à frente do País depende
principalmente de si mesmo. A chave disso tudo está em seu
discurso de posse, no dia 1º de janeiro de 2003: “Mudar
com coragem e cuidado, humildade e ousadia, mudar tendo consciência
de que a mudança é um processo gradativo e continuado.” |