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Divulgação  
Picadeiro pop: o espetáculo Love
custou US$ 150 milhões e reproduz as músicas em quatro mil alto-falantes
 
Eleanor Rigby com sotaque nordestino
 

Música
Beatles no
Cirque du Soleil
Sai em CD a trilha do espetáculo
Love, com 26 clássicos dos Beatles
Por Luiz Chagas

Há pouco mais de quatro décadas, chegava ao Brasil Beatlemania, o primeiro álbum de um fenômeno chamado The Beatles. Pouco se sabia sobre esse grupo inglês – exceto que seus quatro integrantes eram cabeludos e gritavam Yeh! Yeh! Yeh! antes, durante e depois de suas músicas. A capa do disco, em preto-e-branco, também pouco ajudava. Mas o simples fato de que “tinham tomado a América de assalto” justificava uma corrida às lojas para comprar o disco. Na semana passada, o CD Love, com trechos da trilha do espetáculo homônimo do Cirque du Soleil, foi lançado em um “evento de audição global”. É isso aí, os tempos mudaram, mas The Beatles permanecem. Nada de correria às lojas.

Pesquisa: George Martin ficou
dois anos ouvindo as fitas
originais de 130 canções

Para ouvir o novo disco bastou ao interessado entrar no site oficial da banda, fornecer o seu e-mail e clicar o seu endereço no mapa-múndi. Segundos depois, uma luz batizada Pin love se acendia. Na seqüência, a música Because (álbum Abbey Road, o último que eles gravaram juntos) começava a sair pelas caixas de som do computador. Em vez da gravação original, o que se ouviu foram apenas as vozes, nada de guitarra e bateria – vozes quase etéreas de tão cristalinas.

Para chegar a esse requinte, Sir George
Martin, o homem que produziu todos os
discos do grupo, passou os últimos dois
anos trancado nos Estúdios Abbey Road,
em Londres. Juntamente com seu filho Giles Martin, construiu a trilha de 90 minutos do espetáculo do Cirque du Soleil, no disco reduzida a 26 faixas. Eles trabalharam com as fitas originais de mais de 130 músicas, separando elementos, pinçando versões alternativas, conversas de estúdio, ensaios e brincadeiras. O resultado é uma colagem mirabolante, mixada em 5.1 (Surround), que, além de soar incrivelmente familiar (já que envolve trechos e detalhes de canções clássicas), assume proporções catárticas – especialmente ao ser reproduzida pelos quatro mil alto-falantes do hotel Mirage, em Las Vegas, onde o Cirque vem se apresentando para cerca de dois mil espectadores. Diz Martin: “É a sensação mais próxima de se assistir a um show dos The Beatles ou privar da intimidade do quarteto dentro de um estúdio”.

A idéia de se criar uma trilha “Beatle” para um espetáculo do Cirque nasceu da amizade entre George Harrison (falecido em 2001) e Guy Laliberté, fundador da trupe canadense formada em 1984. O espetáculo Love custou US$ 150 milhões e conta a trajetória da banda valendo-se de uma colagem de cenas que se tornam verdadeiros videoclipes ao vivo. É esse o caso de Eleanor Rigby, nome de uma música do grupo, que ganha vida e é personificada pela brasileira Silvia Aderne, 72 anos. Há muita ação. O cenário inclui, entre outras extravagâncias, dois sedãs Volkswagen (conhecidos como beatle [besouro] nos EUA) e o palco é a todo momento cruzado por skatistas, saltadores, malabaristas de cordas e trapezistas. O ritmo é sublinhado pelas incríveis colagens de Martin. Ele coloca Ringo cantando Octopus garden (álbum Abbey Road) sobre as cordas de Good night (álbum branco). Something é introduzida pela vinheta Sun King tocada ao contrário e creditada como Gnik Nus. Strawberry fields forever vai evoluindo da simples gravação de John Lennon ao violão até chegar a uma complexa orquestração dirigida pelo próprio Martin. E a indiana Within you without you funde-se com a psicodélica Tomorrow never knows. Naturalmente já há quem diga que George Martin não ousou o suficiente. Assim, os Beatles uniram, com sucesso, a Las Vegas de Frank Sinatra, Elvis Presley e Celine Dion com a estética moderníssima dos DJs e remixers. E conseguiram isso 36 anos depois de deixarem de existir como grupo.